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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Originação Dependente: Nagarjuna



A identidade própria de cada um é construída nesta vida. Cada um de nós constrói a sua identidade através da operação de nossas mentes. Isso explica por que perdemos as nossas identidades quando temos uma doença séria como um Alzheimer, um AVC ou uma amnésia: quando perdemos nossa memória, perdemos a noção de nós mesmos com o ser. 
Bem estabelecidos esses dois pontos, admitimos que, em princípio, o budismo está analisando que não existe um eu dentro de coisa alguma, nenhum ser tem um eu, individual, próprio, nem nenhuma coisa tem um eu individual.
Nagarjuna é o grande filósofo do budismo do século II d.C., e que se aprofunda e desenvolve mais este assunto. Ele é importantíssimo para nós, sendo chamado em alguns textos de o segundo Buda. 
Filosoficamente ele fez um trabalho imenso: é um sutil metafísico que desce sem piedade sua navalha sobre a maior parte dos conceitos mais queridos e difundidos em quaisquer ambientes filosóficos. Nenhum outro pensador, exceto talvez Platão, tenha sido tão incongruentemente rotulado. Foi rotulado de tudo: de realista, de empirista, de idealista, de crítico, de desconstrutivista, de “wittgensteiniano”, de filósofo da linguagem, de epistemólogo, de cético, de niilista, para ficar só entre os adjetivos mais disseminados.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Originação Dependente: Sem Alma




[Nota da Edição: trata-se de palestra ministrada pelo Rev. Meihô Genshô Oshô que foi dividida em oito postagens. Esta é a primeira delas]

Minha atenção foi chamada por uma pergunta de um aluno. Através de sua pergunta, ficou nítido que se sabe pouco sobre a originação dependente. 
A originação é uma construção filosófica budista muito diferente das nossas concepções tradicionais ocidentais sobre a existência das coisas. O primeiro assunto que se deve entender é a questão fundamental de que o budismo é um rompimento com certos conceitos anteriores do hinduísmo. O hinduísmo tinha, em primeiro lugar, o conceito da existência de deuses. E mesmo de um deus que, de certa forma, era um deus criador, porque o mundo era decorrência da sua própria respiração, da respiração de Brahma.
O outro conceito fundamental, e que está profundamente impregnado em nossa concepção de mundo, é o conceito de que existe algo dentro de nós que é independente do corpo. Em sânscrito isso é chamado de atman: é tecnicamente o que Platão chamou de alma, e que o cristianismo adotou firmemente, contrapondo-se ao judaísmo, que não o tem, e que praticamente todas as religiões adotaram. Tal conceito está tão entranhado que quando eu pego livros, por vezes escritos por pessoas cultas que falam sobre o budismo, eles, muitas vezes de forma simpática, atribuem ao budismo uma crença qualquer sobre alma ou reencarnação, o que não é budista.
 O ensinamento básico de Buda é anatman. Ou seja, o “a” é como em português (o sânscrito é parente do português: é uma língua descendente do próprio hindo-europeu), esse “a” é negação. Anatman significa sem alma, sem atman. Então, o ensinamento budista é, basicamente, que não existe dentro do homem, nem de nenhum ser, uma partícula permanente, eterna, indivisível, que é ele mesmo e que independe do corpo, e que transmigra de corpo para corpo, reencarna ou qualquer coisa que o valha. Este não é o ensinamento de Buda. O ensinamento de Buda é que o carma é que continua, ou seja, existe uma onda de energia no universo que nos manifesta e que tem uma certa coesão e, portanto, quando nós morremos, essa onda continua e se manifesta em outro ser que diz a si: "eu sou", e tem noção de uma identidade


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nem Certo, Nem Errado





Monge: (...) Psicoterapeuta senta-se e pede para o paciente se sentar numa poltrona mais baixa, se deitar, quando ele se deita tem uma entrega…

Aluna: Isso é na psicanálise.

Monge: Psicanálise, isso! Na Gestalt como é?
 

Aluna: Na Gestalt é uma relação dialógica.

Monge: Frente a frente? Legal. Então, cada um vai construindo métodos de acordo com a teoria que montou, e isso acontece com as escolas budistas também. Algumas enfatizam mais rituais, outros a meditação, outros usam isso, aquilo, etc. E está errado? Não! Tem sentido! Porque as pessoas são diferentes e as pessoas se adaptam melhor a certos tipos de práticas.
Não tem segredo. Não tem certo nem errado também. O budismo não declara "eu tenho uma verdade", por isso fica difícil dizer. Sim, o Budismo usa práticas religiosas, usa as entrevistas, como a Gestalt também usa. Usa o que estiver disponível.