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segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Carma e o Ego





Li no seu livro que “não é o eu que gera o carma, mas o carma que gera a ilusão do eu”.

Monge Genshô: é como no caso do redemoinho. O carma seria o vento, essas diferenças de temperatura que provocam o vento, etc. Os ventos seriam, nessa analogia, as paixões, os desejos, os impulsos. É este carma que gera a aparência de uma identidade. Mas a identidade é apenas aparente. Nós tornamos a identidade sólida. Esse é o grande problema da humanidade, pois a ilusão mais forte que temos é esta: a ilusão de um eu. A todo o momento nós somos informados de que temos um eu separado. Como se fôssemos uma pessoa que nasceu e viveu olhando para uma tela: a única coisa que ela via era aquela tela passando e ela pensou que a vida fosse aquele filme. 

A todo o tempo eu sou informado que é filme, filme, filme, e eu sou o assistente do filme. É o que está acontecendo conosco aqui, agora. Olhamos para o lado e vemos, e por mais que expliquemos que isto é como um sonho, a informação é tão nítida que não conseguimos escapar. Por isso a palavra DESPERTAR: Buda, o Desperto, acordou do sonho.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Verdadeira Natureza




Aluno: o que seria a verdadeira natureza? Existem exemplos?

Monge Genshô: Podemos usar analogias. Uma analogia que usei e gosto bastante é a dos redemoinhos. Porque existem ventos cármicos, porque existem impulsos, movimentos e etc., nós existimos. Assim como o redemoinho, que só gira porque existem diferenças de temperatura que provocam ventos.

Você olha no centro do redemoinho e vê um eixo, mas ele é completamente vazio. Ele só existe porque há movimento em volta. Quando some o vento, o que acontece com o redemoinho? Ele desaparece. O que realmente existe é a atmosfera. O céu azul sempre permanece. Os redemoinhos surgem porque existe diferença de temperatura. Porque existe carma, existe o redemoinho que é você. Porque existe movimento, parece que tem um eixo. Esse eixo em torno do qual tudo gira você chama “eu”.

Mas a sua verdadeira natureza é o céu azul, que você não enxerga, porque só enxerga o redemoinho. O redemoinho surge e tem medo de desaparecer. Ele quer ser eterno. Por isso as religiões inventaram a alma: tem uma alma no centro do redemoinho. Essa alma nasce de novo em outro redemoinho; ou então essa alma vai para o céu dos redemoinhos, que é um céu especial, onde os redemoinhos ficam girando sem parar. O Budismo diz outra coisa: que isso também é ilusão - não existe o céu dos redemoinhos, o eixo do redemoinho também não existe, pois só é formado pelo movimento, e só a extinção do movimento vai causar a libertação. Você é, no fundo, o céu azul.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Samadhi, Kenshô, Satori


Nós não nos sentamos sem sentido. Sentamos para despertar e criar determinadas condições na mente, para obtermos, primeiro, a capacidade para entrar em Samadhi, o que para muitos pode ser difícil, porque nós nos sentamos e parece que a cabeça não pára. Nós temos que conseguir chegar nesse ponto.

Depois disso, então, podemos ambicionar ter experiências de Kenshô, de olhar nossa verdadeira natureza. Elas serão fugazes, rápidas e, quando passam, ficam só como lembrança, parece que você voltou à estaca zero. Na verdade, você já experimentou a iluminação, mas teve apenas um vislumbre. Nós chamamos a condição, por exemplo, de Kodo Sawaki de Satori, ou seja, o Kenshô está disponível para ele a todo o momento. Então ele não se importa com nada, pois ele pode voltar para a sua verdadeira natureza sempre que desejar. Isso é possuir o Satori.

Ter um Kenshô, uma experiência iluminada, é muito pouca coisa. Algumas pessoas se encantam porque tiveram uma experiência e saem gritando: “eu sou um iluminado!”. Não é nada disso. É um sujeito perdido, que teve um pequeno vislumbre e acredita que aquilo é uma propriedade dele e diz: “eu sou”. Por isso, quando uma pessoa diz “eu sou iluminado”, essa pessoa não o é. Por definição, ele não poderia achar-se assim.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Kodo Sawaki, O Sem-Teto




O mestre mais famoso do Japão do século XX, que morreu em 1965, Kodo Sawaki, passou décadas de sua vida sem casa. Ele não tinha casa. Por isso seu nome era KODO, o sem lar, o sem lugar. Ele simplesmente ia de um lugar para o outro, ensinando, ensinando, sem pensar: “o que vou comer; o que vou vestir”. Simplesmente andando. Ele fez isso até que ficou bastante velho, quando foi convidado para ensinar na Universidade de Komazawa. Sua vida foi, por si mesma, fantástica, surpreendente, cheia de significado.

Kodo não tinha nada, e no entanto era um homem muito feliz. Foi um  poeta, e muito influente no Zen. Na verdade, aqueles que hoje reverenciamos no Zen seriam, na sociedade atual, chamados de pessoas sem teto. Mas para Kodo Sawaki nunca faltava teto, isso também é verdade.