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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Pequenas Ações podem mudar o Mundo




Gostaria de contar uma história muito antiga. Há 2.500 anos, uma senhora andava numa floresta e ela viu um homem agachado fazendo suas necessidades. Quando ela viu aquele homem, ela achou tão digna a postura dele, tão maravilhosa a maneira como ele estava fazendo aquilo, que  ficou profundamente emocionada. Ela então esperou ele terminar, e depois dirigiu-se a ele, perguntando-lhe quem ele era. O nome dele era Shariputra, o mesmo personagem do sutra do coração: - “Oh Shariputra, Oh Shari, Forma é vazio e vazio é forma” - o grande discípulo de Buda. Então ela perguntou quem era seu mestre, e ela pediu para ser aluna de Buda, porque mesmo o ato que nós consideramos mais feio e indigno, na maneira como Shariputra estava executando era cheio de dignidade e beleza. 

Essa é uma história para enfatizar como todas as nossas ações têm sempre beleza, mesmo as que ninguém está vendo, mesmo quando ninguém está olhando, mesmo as coisas mais simples. Então cada um de nós tem que se preocupar em realizar as suas ações transformando-as nas ações corretas do caminho óctuplo: temos que ter uma fala aberta e correta, e também temos que ter as ações de corpo belas e corretas. Acho que a história de Shariputra é definitiva por isso.

Até hoje nos monastérios se ensina tudo, até ir ao banheiro, como você deve fazer isso, e isso inclui deixar tudo perfeito e devidamente limpo para as pessoas que vêm depois, algo que é tão simples, e, se fosse praticado em todos os lugares, mudaria nossas próprias vidas.

Eu vejo que aqui no Brasil existem pessoas que estão limpando os banheiros, e as pessoas passam por elas e fazem de conta que elas não existem. Eu comecei a entrar nos banheiros, no shopping ou qualquer lugar, e, quando tem uma pessoa dessas, eu falo com ela e digo: “ah, muito obrigado pelo seu trabalho”. Um desses homens me disse: -”Faz nove anos que eu trabalho aqui. Nunca uma pessoa me agradeceu”. Então eu dou essa prática para vocês: comecem a fazer isso. São pequenas ações que podem mudar o mundo.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Zen e os Detalhes




A ação correta é muito treinada na Soto Zen. A teoria no treinamento da Soto Zen é que o cérebro e o corpo estão tão intimamente ligados que você pode atingir um com o outro. Então, uma postura correta influencia sua mente; o fato de como você pega a xícara influencia a sua mente. Depois, quando ao passar a bandeja para colocarmos as xícaras vazias, não é correto colocar a xícara de qualquer jeito, mas sim o mais fundo na bandeja possível para que as próximas pessoas tenham a frente para colocar a xícara. 

A sua ação tem que considerar sempre as repercussões sobre as outras pessoas, nos menores detalhes. Lembro-me a primeira vez em que fui repreendido por deixar um guardanapo numa bandeja. Anos atrás, eu recebi um doce no templo Busshinji. Comi o doce, tomei o chá, dobrei o guardanapo e quando passou a bandeja eu coloquei o guardanapo sujo na bandeja, bem dobrado abaixo da xícara. Em seguida veio um Sensei e me falou:

- “O senhor cometeu um erro gravíssimo! O senhor devolveu o lixo para a cozinha. Seu lixo você coloca na sua manga e leva junto com você e coloca fora. Porque se devolver para a cozinha alguém vai ter o trabalho de pegar seu lixo e botar na lixeira”.

Você tem que sempre pensar no trabalho que está dando aos outros. Por isso, no sesshin, quando nós comemos diz-se: limpe o prato com pão de modo que ele fique o mais limpo possível, porque alguém vai ter que lavar. Se tiver um grão de arroz sobrando no prato, alguém vai ter que colocar no lixo ou vai para o cano, e lá atrapalhará a natureza. Esse tipo de educação vai tão longe que no Japão você não encontra mais um local para jogar lixo na rua e as ruas estão perfeitamente limpas. Então, se você comeu algo e sobrou embalagem, você tem que guardar e levar com você para casa, porque o lixo não é um problema da nação ou do serviço público, mas seu. Bem ao contrário do Brasil, onde quando encontramos lixo na rua a culpa é da prefeitura. No Japão, o lixo é problema seu, e na Alemanha também as pessoas cuidam de seu lixo. Quando varrem a casa, varrem as calçadas e as ruas em frente às suas casas, porque uma rua suja na frente da sua casa é sinal de que você não cuida da sua rua.

Eu não sei quanto tempo vamos levar para ter uma noção como essa, mas a civilização provém disso, ela vem de muitos pequenos detalhes de comportamento. Por isso, no Zen, nós treinamos as pequenas ações.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O que é o Budismo?





Aluno: Mas o budismo é religião ou filosofia ?



Monge: Nós queremos sempre colocar as pessoas em escaninhos porque não entendemos. Então nós queremos colocar o budismo na prateleira da religião ou na prateleira da filosofia ou na prateleira de alguma coisa. Aí o budismo não se encaixa muito bem, porque na prateleira da religião, o budismo tem muitos aspectos, formas religiosas, métodos religiosos. Mas ele não se baseia em crenças, em fé, em coisas assim. Então faltam algumas coisas que caracterizam as religiões. No caso das filosofias também acontece a mesma coisa. Se você quiser como um método filosófico, não vai caber bem.

Edward Conze, que escreveu uma história do budismo, descreveu-o como um pragmatismo dialético de métodos psicológicos. Então ele tem isso, é prático. Tem o diálogo para o ensinamento. Você pode até contestar o professor e ele vai ter que usar argumentos para mostrar seu ponto. Ou seja, não está baseado numa fé ou em mestres infalíveis. E seus métodos - o Zazen, por exemplo, é um método psicológico. Não é mais do que isso. É uma metodologia de atingir a mente. E há um objetivo espiritual muito elevado, que é a iluminação, que foi desenvolvido desde o tempo de Buda. Este objetivo retira o budismo que tenha este objetivo do terreno das terapias. Então, se você usa a meditação como um método terapêutico, tudo bem. Ela pode ser usada como método terapêutico, mas não é  budismo, porque o foco do budismo é outra coisa; é muito mais do que serenizar, acalmar ou ganhar clareza. É muito mais do que isso. É propiciar uma experiência religiosa, espiritual muito profunda. Mas do outro lado você está tirando todos os deuses, todas as almas, todos os espíritos. Conceitos como reencarnação são retirados. Isso não é o método. Pelo menos não no Zen. E isso então muda tudo.  

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]