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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Bom Idealismo




Aluno: Nessa linha de pensamento do idealismo, das pessoas que o senhor comentou (Hitler, Stalin, etc.), se pegarmos as pessoas que nós julgamos que fizeram uma coisa boa, como o Gandhi ou o Mandela, eles também não eram cheios de ideais?

Monge Genshô: Eram, mas em nenhum momento você vê nessas pessoas a disposição de forçar os outros a serem como eles queriam. Você vê a tentativa de convencer, de explicar, você vê não-violência, uma admissibilidade da diferença. Gandhi, por exemplo, lutou para manter a Índia unida e não queria que a Índia se separasse em muçulmanos e hindus. Ele achava que poderiam ser irmãos, e, quando começavam a brigar, ele fazia jejum, querendo que as pessoas tivessem a paz. Ele não colocou exércitos na rua para derrotar a facção que não concordava com ele. E o que aconteceu é que ele foi assassinado, por alguém que achava que ele era um traidor da causa.

Quem assistiu ao filme Invictus, sobre Mandela, percebeu que sua ideia principal era a de negros e brancos ficarem juntos, a ideia de que não haveria vingança, não haveria expulsão dos que haviam feito mal. Países como o Quênia, que expulsaram todos os brancos e todos os técnicos recaíram num primitivismo e em guerras internas.

A África do Sul conseguiu, apesar dos pesares, ser uma sociedade multirracial, e é o melhor país de toda a África. Ele tem, hoje, um PIB maior que o da Nigéria, maior que o do Egito. Porque Mandela acreditava, ele dizia para a sua equipe: “não, você tem que trabalhar junto ao outro aqui”; “mas eles nos mataram, nos perseguiram”; “não, mas agora nós esquecemos isso, agora não é mais assim, agora nós estamos juntos e eu quero provar isso para esse povo”.

Essa é a obra de Mandela. Mas esse era o idealismo. Não é o que eu disse antes: “estou certo e eu vou fazer os outros fazerem o que é certo”. Nós tivemos aqui um presidente militar, Figueiredo, que tinha um pai que tinha sido democrata, e ele disse assim: “hei de fazer desse país uma democracia”, e os repórteres perguntaram: “e se alguém não quiser?”. Ele respondeu: “aí eu prendo e arrebento”. Compreende? Essa é a contradição para a ideia de democracia. E isso mostra esse espírito do “eu acho que eu sei o que é certo e eu vou forçar, eu vou fazer o mundo se dobrar ao meu certo”. Essa é que é a doença. Acho que Mandela e Gandhi são os exemplos contrários, são os exemplos do que o mundo realmente precisa.

Filmes não são as melhores referências biográficas, mas pelo menos as ideias estão neles. Nós podemos contar histórias sem fim a esse respeito, como a do imperador Ashoka, que foi responsável por espalhar o budismo na Índia; mas ele se arrependeu das guerras que tinha feito e permitiu a diversidade religiosa, e ele até hoje é considerado um magnífico imperador, um grande herói do povo hindu. Ele foi o primeiro grande governante budista, mas o que ele quis foi a paz. Ele queria paz. E ele parou de fazer guerras. É esse o espírito do budismo; deveria ser assim em todos os lugares.

[N.E.: transcrição de Palestra realizada por Meihô Genshô Sensei em 26/09/2016

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Budismo: Uma Cultura de Paz




Na China, o budismo já foi destruído umas 3 vezes, e, depois, ressurgiu das cinzas. No Japão, não faz tanto tempo, no final do século XIX, o império quis acabar com o budismo, porque era uma religião estrangeira e prejudicava o nacionalismo japonês. Afinal de contas, o budismo não é japonês, veio senão da Índia. Em 1872, o imperador ordenou que todos os monges se casassem, porque assim eles iriam desmoralizar o budismo. Não deu muito certo, porque os monges casaram-se e continuaram budistas. Mas, de certa maneira, houve mudanças que enfraqueceram o espírito do budismo. Porém, do outro lado, facilitou a difusão do budismo; eu não seria monge hoje se não fosse o édito imperial de 1872.



Então, hoje, o budismo mais bonito, mais idealista, é aqui, no ocidente. Dizemos até que o budismo anda para o leste, e ele vai morrendo lá atrás, porque não tem força suficiente para brigar. O budismo não tem uma doutrina que permite que você faça guerra ou destrua os outros. Então, aqueles que estiverem dispostos a destruí-lo vão conseguir, porque os budistas não vão conseguir enfrentar, como aconteceu no Tibete. O Tibete podia enfrentar a China? Não, o Tibete não tinha nem um exército decente, não tinha nada. Tão impregnados de budismo, não iriam investir em armas. Mas, para que o mundo funcione bem assim, todo mundo precisa pensar assim. Essa é a perspectiva histórica, de modo que é um verdadeiro milagre que o budismo esteja aqui e agora.