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quinta-feira, 31 de maio de 2007

Somente ondas

“Nada se perde, como diria Lavoisier, todos os nossos atos produzem efeitos no mundo, efeitos cármicos, afinal carma significa literalmente “ação”, estes efeitos ficam, e obrigatoriamente influenciam tudo que vai acontecer” “As ondas no mar quebram na praia, mas refluem, e o mar está sempre se movimentando. Somos como ondas. O que acontece é que queremos ser sempre a mesma onda”. “Mas somos mar, não ondas, estas são só fenômenos na superfície do mar”.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Hua-t'ou (jap.Watô)

Muitas pessoas pensam que a escola Soto Zen não usa koan, isto é um engano. A diferença é que a escola Rinzai põe ênfase nos koans.E a escola Soto põe ênfase no shikantaza, a meditação sentada e deixa o koan como um auxiliar. No entanto, os mestres costumam usar koan. Aquela pergunta quem é você? Não é um koan, aquilo é um hua-t'ou (jap. watô). É outra técnica, questões que pressionam.Mesmo os praticantes que estão há anos praticando têm muita dificuldade para responder estas perguntas de forma satisfatória.

terça-feira, 29 de maio de 2007

O Arpão


No início de 2001, quando eu ainda não era um monge zen, fiz algumas palestras, como praticante leigo, e ensinei meditação em um hotel no litoral de Santa Catarina. Certo dia, esteve presente um empresário e sua esposa. Ficamos amigos, visitei-o em sua empresa em uma cidade próxima. Mostrou-me orgulhoso seus troféus de caça submarina. Fotos de lindas garoupas, prêmios vários. Depois, visitei-o em sua casa, vi sua lancha e ouvi mais histórias de mergulho e caça. Em sua mesa, alguns livros sobre budismo.

Ele percebeu que eu não caçaria. Perguntou o que eu achava da caça. Respondi que estava tudo bem para ele, mas que eu não caçaria ou comeria. Expliquei que essa era uma condição minha, mas que enquanto ele nada sentisse, tudo estaria correto. Ressalvei
que tudo seria diferente se, um dia, ele percebesse que aquele arpão, que entrava no peixe, trespassava a ele próprio.
Passou-se um ano. Nos escrevemos via Internet. Ele leu livros de budismo, esteve em Porto Alegre para assistir a uma palestra de Monge Tokuda, mas não me narrou o que me disse nos feriados de fim de ano de 2001:

"Ouvi aquela frase e continuei em meu esporte preferido. Cada vez mais ambicioso. Só queria mergulhar a mais de 20 metros, pegar grandes peixes. Não fiquei pensando a respeito do que me disseste. Um dia, perto de uma ilha, a água clareou e ficou magnífico o mergulho, várias lanchas apareceram para mergulho e caça.
Repentinamente, uma lancha passou por cima de mim, bateu em minha cabeça e a hélice cortou minha roupa nas nádegas. O caiqueiro que me vigiava me apanhou, pensei que estava ferido, e tonto com a pancada percebi que havia escapado por um triz da morte. Sentei-me no fundo da lancha e disse que não pescaria mais. Meus companheiros ficaram tentando me acalmar e não entenderam porque comecei a chorar, eu dizia: - É um aviso, é um aviso... Chorei até chegarmos à praia.
Alguns dias depois, voltei a mergulhar duas vezes. Nada cacei. Era como se a magia da caça houvesse desaparecido. Eu só queria confirmar meus sentimentos dentro da água.
Passou-se algum tempo, um dia, eu bebi demais e caí no banheiro. Feri a cabeça e cortei o tornozelo no vidro quebrado do box. Minha esposa me socorreu e fiz curativos. Não senti muita dor na hora e fui dormir. Durante a noite um pesadelo me assaltou: eu era um peixe e um arpão me fisgava, entrava pelo meu pé e saía pela minha cabeça, os ferimentos doíam e meu corpo inteiro se contorcia espasmodicamente, como os peixes que eu caçara. Acordava, me acalmava, dormia de novo e o pesadelo voltava. Eu sentia o arpão ao longo de todo o meu corpo, implacável, suas extremidades se projetando das feridas. E aquilo se repetiu durante a noite toda. De manhã, exausto, disse à minha esposa:
- Hoje paguei minhas mortes.
Vendi minha lancha e todos os apetrechos. Não pesco mais"

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Cerveja Gelada

Cerveja Gelada
Publicada em 05/07/2003 em www.chalegre.com.br/zendo "Histórias"

Havia em Porto Alegre, anos atrás, um grande praticante zen: Khanner San. Ele ensinava já sem dentes e sem poder sentar no chão.

Poderia contar muitas histórias encantadoras daquele bodisatva. Lembro, inclusive de um jantar em minha casa, pouco antes de sua morte, que ambos sabíamos, se aproximava. Ele contava não ter ilusões sobre sua morte próxima.

Mas a que conto hoje é a de um dia de calor, após uma reunião de meditação do grupo Zen ao qual pertencia o, hoje, Lama Santem. Estávamos reunidos para o chá de despedida, quando um amigo, Felipe, antigo praticante de artes marciais, disse diretamente:

- Chá!?? Não, eu vou é tomar uns chopes!!

Todos pararam, algo supresos com aquela espontânea declaração. Mas Kanner San, cheio de bom sentimento alemão (era sua nacionalidade), disse sem hesitar:

- Você vai? Eu vou junto!

E subindo na garupa da moto de Felipe, foi-se embora alegremente. Enquanto nós bebíamos chá quente, sorrindo e abanando as cabeças perante a travessura do ancião que havia acabado de cantar para nós o refúgio em Páli...

domingo, 27 de maio de 2007

Como escolher o que vale a pena

Um problema muito interessante porque o problema é da edição, a palavra editar significa escolher, quantos livros se lê na vida? Dois mil livros? Dá para ler um livro por semana facilmente. A questão é a seguinte, se você só tem capacidade para ler dois mil livros na vida razoavelmente, quem vai escolher os dois mil que valem a pena? Este é o problema, o problema é de edição, dentro de um livro, considerado lixo, tem coisa boa, mas o melhor é você ler os livros do mais alto nível, pelo menos é mais garantido do que você ler um monte de coisa. Depois que você ler dois mil livros você conseguirá deduzir quais valem a pena, lendo apenas as orelhas. Por que precisamos de bons e cultos professores/editores? Alguém que chegue para você e diga ...leia este, aí se você formar uma boa base você tem capacidade crítica para escolher os melhores, senão você fica perdido, não são só os livros de auto ajuda que são lixo em sua maioria, se você entra nas livrarias 99% é lixo, e isso também ocorre com a televisão e qualquer outro meio de difusão.

Nós temos a internet hoje, são bilhões de páginas disponíveis, surge uma nova necessidade, é necessário saber distinguir o que vale a pena do que não vale a pena, por isso a gente vê este crescimento de mensagens na internet sem profundidade, piegas, às vezes são tão sem profundidade que alguém ainda escreve lá embaixo, Shakespeare, Dalai Lama, por exemplo, eles sabem que não tem profundidade e precisam de um grande nome para enganar as pessoas que não tem senso crítico. Isso é o que acontece agora, porque nós temos uma abundância de informação muito grande. Hoje não dá mais para supor ser um Uommo Universale do tempo de Leonardo Da Vinci e ter conhecimento de todas as obras, hoje não dá, hoje você tem bilhões...para escolher, nunca os professores foram tão necessários.

(Trecho de debate sobre o filme "Quem somos nós", íntegra disponível em www.chalegre.com.br/zendo secção Textos. A maior parte destes textos foi digitada, revisada e decupada de gravações por Jane Denkô)


sexta-feira, 25 de maio de 2007

Por quê sofrer ao meditar?

Esse sofrimento do corpo também é muito bom, parece uma espécie de tortura, mas ela faz com que realmente a gente fique aqui. Quando você está aqui, o mundo lá fora, o passado, presente, desaparecem. E porisso, quando há um grande sofrimento físico, também há progresso, se quebra o ego mais rápido. O sofrimento é o caminho mais curto para o crescimento espiritual. Grandes sofrimentos podem ser bênçãos maravilhosas. Basta ver que muitas pessoas crescem espiritualmente quando têm, por exemplo, um câncer. Já tive esta experiência, várias vezes, de falar com pessoas que me procuraram porque estavam com câncer. E aí ela sabe o que é importante na vida, descobre que o dinheiro não tem importância nenhuma, o que ele queria era ver o filho crescer. Este sofrimento é maravilhoso para abrir portas para realização espiritual.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Aqui e agora

Dosho Saikawa Roshi:
"Quando dizemos o Buddha, o Dharma e a Sangha, estes três tesouros, isso parece na nossa mente alguma coisa distante, um lugar muito alto. Mas isto é realmente aqui e agora. Não é um lugar distante porque tudo o que nós temos é apenas este momento. Este momento nunca vai voltar novamente nesta eternidade deste inteiro universo. Cada momento é apenas um momento. Não pode ser comparado com qualquer outro. Os seres humanos tem tido muito progresso, muito. Assim nós temos uma maneira de comparar com ontem, com o ano passado, podemos pensar sobre o passado, pensar sobre o futuro e comparar um com o outro e esta nossa cultura de progresso, este progresso que vem aqui e agora. Então a atividade mental é muito boa também para os seres humanos e por causa disso nós esquecemos que tudo o que nós temos é este aqui agora. Não pode ser comparado com nenhum outro momento. Assim este momento é o da mais alta iluminação. Por que é iluminação? Porque a cada momento nós somos um com todo o universo."

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Forma e espírito do Zen

"O trabalho espiritual tem o sentido de, pela forma, procurar atingir o espírito. Então é um profundo engano entender a prática do Zen como: isso é orientalismo, isso é niponismo etc, porque se nós fossemos lá para o Japão onde começou a prática Zen, nós veríamos as pessoas dizendo, como aconteceu muitas vezes na prática japonesa, que isso era prática estrangeira porque a religião japonesa era o Xintoímo e o Zen não era japonês, era chinês. Essas tradições tinham sido trazidas da China, de mestres chineses.

Agora viajemos até a China e vamos ver a história do budismo e veremos imperadores chineses e líderes chineses taoístas, perseguindo o budismo porque era religião estrangeira, não era chinesa , tinha vindo da Índia. E essas idéias eram estranhas à China. Ou seja, essa discussão é antiga demais, velha demais e engano que ressurge nas mentes há milênios. Há dois mil anos já havia esse tipo de problema. Então nós não podemos nos confundir com esse tipo de coisa. Temos que entender qual o sentido do Zen. Por que no Zen se bate um sino de determinada maneira, porque é tão difícil. Sodô que agora está batendo há tanto tempo (o sino) conseguindo fazer três batidas bem parecidas. Quanto tempo levou para conseguir bater três vezes bem parecido? É bem difícil. Por quê? Porque é muito simples, mas expressa algo, porque só uma mão calma pode bater igual. E como uma mão vai expressar essa calma? Só com uma mente calma. Então toda a forma que nós temos no Zen tem um sentido."

(Íntegra publicada em www.chalegre.com.br/zendo em Textos, Monge Genshô, sob o título: O significado da forma no zen)

terça-feira, 22 de maio de 2007

Tudo passa

Tudo Passa...

Eronides Chalegre

Tudo na vida se esvai
Devagar tudo sai do pensamento
Tudo n'alma se desvanece
No consolo final do esquecimento

O noivo esquece a noiva num momento
A esposa o amado esposo que estremece
A mãe o filho ao fogo lento
Em breve esquece

Tudo passa na vida, tudo finda
A dor maior, a ilusão mais linda
Os enganos vis, os ideais

E há quem ame, demais sofrendo
Sinto aos poucos ir me esquecendo
Espero em breve não lembrar-me mais...

( A autora escreveu isto quando jovem, hoje tem 95 anos e sofre de Alzheimer, a doença que apaga o cérebro e as memórias.)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Falecimento do Rev. Murillo Nunes de Azevedo

Faleceu Rev. Murillo Nunes de Azevedo, um dos pioneiros do Buddhismo no Brasil. Eis a nota escrita pelo Rev. Ricardo Mário Gonçalves:

Caríssimos Irmãos no Dharma,

Com o coração consternado, estou cumprindo o doloroso dever de vos dar ciência do Regresso à Terra Pura Ocidental do Buddha Amitabha de um dos mais ilustres pioneiros da propagação do Dharma no Brasil, o Rev. Murillo Nunes de Azevedo, Ministro do Dharma da Verdadeira Escola da Terra Pura, Ramo Honpa (Nishi Hongwanji).Conheci o Rev. Murillo em 1965, quando ele já era conhecido como o primeiro divulgador do Budismo Zen no Rio de Janeiro, por ter publicado a tradução brasileira do livro "Introdução ao Zen Budismo" de Daisetz Teitaro Suzuki. Foi ele o primeiro brasileiro a entrevistar Sua Santidade o Dalai Lama. Em 1969, colaborou com o Museu de Arte e Arqueologia da USP na montagem da primera exposição de arte budista tibetana realizada em nosso país. Fundou a Sociedade Budista do Brasil, que se tornou posteriormente a primeira organização a representar o Budismo Theravada em nossa terra. Ministrou cursos de Introdução ao Pensamento Oriental e ao Budismo na PUC - Rio e outras universidades, no rio e em Brasília.Colaborou com as Escolas Soto Zen e Shingon e posteriormente tornou-se Ministro do Dharma do Honpa Hiongwanji, tendo atuado por vários anos no Templo do Honpa em Brasília. Escreveu vários livros sobre o Dharma, dentre os quais destado "O ôlho do Furacão" e "O Paraíso é Aqui".

domingo, 20 de maio de 2007

Buda em austeridade

Muitas pessoas tomam a estátua de Po Tai, gordo e risonho, como se fosse de Buda Sahkyamuni, o fundador do budismo. Abaixo , uma representação de Buda em austeridade, ao fim de seu longo ascetismo de seis anos. Após esta fase ele defendeu uma postura de moderação, nem ascetismo nem hedonismo. O caminho do meio.
Foto Emerson, Museu de Arte Budista.


sábado, 19 de maio de 2007

Inscrições em um rakussu zen budista.

Em um rakussu de leigo as inscrições são inspiração para a vida. Ele é portado ao pescoço e fica sobre o peito. As investiduras leigas não são ordenações monásticas e é errôneo o termo monge leigo, ou se é monge ou leigo. Seu significado é de uma confirmação da condição de praticante. Não confere nenhuma dignidade ou cargo ao portador. No entanto, sendo um resumo do manto de Buda, dá ao seu portador o peso de um sério compromisso com a comunidade budista.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Orgulho na prática

Antigamente, no modelo oriental, esperava-se que o aluno estivesse mergulhado na cultura. Quando você tem um aluno que pratica artes marciais, por exemplo, o treinamento é mais fácil, porque o aluno já se habituou com a disciplina, para quem não passou por isso é mais complicado, porque precisa aprender que tem que ouvir e praticar primeiro e não ficar questionando tudo quando está começando. O questionamento é para depois.
Quando os alunos são atletas que praticam esporte, também fica facilitado, porque eles sabem que não dá para explicar todos os detalhes. O aluno que fica perguntando é o aluno que leva mais tempo. E os professores na tradição oriental nem respondem. Um mestre um Roshi, não fala, chama um monge mais graduado e manda falar com o aluno e se o aluno não aceita críticas e diz: "quem é você para me dar dicas, eu só aceito se for o mestre", isso complica tudo, porque na tradição oriental é assim. Então, neste caso, o aluno é abandonado, e o mestre não faz nada enquanto ele não abandonar este orgulho.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Para discutir a doutrina budista

Para discutir pontos doutrinários há listas próprias para os interessados. É possível discutir nelas, com a presença de alguns grandes professores, treinados no exterior, e com o domínio das línguas em que os textos foram escritos. Pode-se, por exemplo, debater se a mente que prossegue com seus impulsos, vida após vida, carrega consigo uma identidade. Se a palavra reencarnação, usada em uma tradução brasileira, tem o sentido do que quis dizer um mestre zen séculos atrás, mergulhado na convicção budista da inexistência de EUS permanentes. As listas de discussão budistas principais são as abaixo listadas:

Buddhismo-L - lista genérica de discussão buddhista. Todas as linhas.
Para se inscrever: listabuddhismo-subscribe@yahoogroups.com

Theravada-L - lista de discussão sobre o Buddhismo Theravada.
Para se inscrever: sudhamma-subscribe@yahoogroups.com

Zen Chungtao - lista de discussão sobre o Buddhismo Zen.
Para se inscrever: chungtao-subscribe@yahoogrupos.com.br

Budismo Shin - lista de discussão sobre o Buddhismo da Terra Pura.
Para se inscrever: budismo_Shin-subscribe@yahoogrupos.com.br

Vajrayana-L - lista de discussão sobre o Buddhismo Tibetano.
Para se inscrever: vajrayana-subscribe@topica.com

Usa-se música na meditação zen budista?

A resposta é não deve ser colocada, ou seja , ser proposital. Porém qualquer som que surja espontâneamente do mundo é uma porta de entrada para o praticante em zazen.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Há correntes budistas que crêem em reencarnação?

Não, claramente não há. No entanto o termo tem sido usado, mesmo em textos budistas, causando grande confusão, visto termos uma idéia diferente, no ocidente, de reencarnação, daquilo que é entendido como continuidade cármica no budismo. Sobre o assunto o Colegiado Buddhista Brasileiro, entidade que reune todas as grandes escolas tradicionais do budismo presentes no Brasil, emitiu uma carta pública que consta na íntegra, neste blog, em postagem do dia 20 de abril. Desta um trecho esclarecedor:

"Segundo o Sutra do Diamante, o mais antigo documento impresso localizado, nada permanece tal como alma ou coisa que carrega e transmite algo. E no Cannon Páli que reune as mais antigas escrituras, compilado por volta de 300 AC, fica clara a doutrina de Anatman (não há partícula permanente) em contraposição ao Atman (há alma, ou algo para reencarnar) doutrina do hinduísmo.
O Carma (os impulsos decorrentes de ação) é que gera uma identidade, e não uma identidade carrega um carma. Cada ser que surge, embora manifeste impulsos cármicos, é inteiramente novo em sua identidade, em seu eu ilusório pessoal.
Encarnações, como a palavra indica, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte.
Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões."

Dom Timóteo, abade do Mosteiro de São Bento-BA

“Com Dom Timóteo aprendi uma única e grande coisa. Ele me disse que havia escolhido o caminho do monge quando sua esposa falecera. Tornara-se um erudito, um homem manso, também um herói que enfrentara a tropa que invadira o mosteiro após uma desordem em uma passeata de estudantes durante a ditadura. Mas quando a morte se aproximava, ele morreu em 1995, em mais uma conversa que tivemos, ele me falou que aprendera que a essência era estar profundamente presente no que quer que se fizesse. Esta lição da presença absoluta em um momento, me levou até o zen. Ela permeou meu caminho à procura de um treinamento que me fizesse apreciar meu trabalho e dar a ele uma percepção espiritual. Se a espiritualidade não puder ser levada à vida diária ela não tem sentido.”

terça-feira, 15 de maio de 2007

As folhas que caem

Não achamos trágica a morte das folhas, vemos a continuidade da vida, da floresta. A achamos linda. No entanto os mesmos fenômenos na existência humana nos perturbam. Não vemos sua beleza. Estão perto demais de nós. Se fossemos capazes de perceber que nascimento e morte em nossas vidas, tem o mesmo significado que nas folhas da floresta, poderíamos viver vendo a beleza. A transitoriedade de todas as coisas é inerente a elas, nosso sofrimento vem do apego, do desejar a estabilidade das coisas instáveis. Queremos que tudo dure para sempre. Por isto os homens inventaram religiões onde há vida eterna, depois da morte, em paraísos, reencarnações, coisas assim. Uma maneira de escapar da transitoriedade.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Koan - O gato cortado ao meio

Koan significa caso público, caso registrado. É um diálogo entre mestre e discípulo, que foi registrado, sobre o qual você pode pensar. Por exemplo, os discípulos estavam disputando por um gato. Normalmente não existem, ou não é para existir, animais de estimação nos mosteiros, mas de repente aparece um e é adotado. Então, havia um grupo de monges no mosteiro disputando um gato. O mestre Nan Sen chegou na sala, pegou o gato, levantou-o no ar, tirou a navalha que serve para cortar o cabelo e disse: - Digam uma palavra de Zen e o gato se salvará. Um monge falou: o gato é meu, outro: não mate o gato. O mestre cortou o gato ao meio. Isto no budismo é absurdo. Mas, ele matou, assumiu o risco de fazer isto em benefício de muitos outros seres, até hoje estamos falando nisso. À noite chegou um monge que estava viajando. O mestre relatou a história. O monge pegou as sandálias e as colocou sobre a cabeça e saiu, e o mestre disse: se você estivesse aqui teria salvado o gato. O koan é assim:- Me diga o que você teria dito para salvar o gato. Até hoje eu ouvi uma só pessoa que salvou o gato metaforicamente. Ele levou um ano tentando, mas conseguiu. É como a resposta quem é você? Se alguém dá uma resposta que aprendeu filosoficamente, você vê que esta resposta é uma resposta só da sua cabeça. Traga-me uma resposta das suas entranhas. E esse é um dos problemas do koan, porque originalmente aconteciam diálogos entre mestres e discípulos, na época de ouro do Zen, e eram muito fortes estes diálogos, verdadeiras as respostas. Com o tempo isto foi sendo escrito e tornou-se caso público, como essa história do gato que eu estou contando. Mas vocês não estavam lá nem estavam disputando o gato. Então não era a sua vivência pessoal. É agora uma referência a um caso passado.

sábado, 12 de maio de 2007

A Forma no Zen

Não é o Zen falar bonito sobre o Zen e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas quando estamos fazendô coisas no zendô, com todas as regras que tem o Zen, aí nós erramos. Quando nós erramos, rimos, porque todos erramos. Mas quando erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O temor de desfazer-se do EU

Estamos apegados às nossas crenças, identidade, amigos, etc. Quando pensamos em abandonar qualquer dessas coisas a que nos agarramos, surge imediatamente um temor. Esse medo e aflição são produto do mecanismo de auto-proteção do ego. O ego está agarrado àquilo tudo e parece que ele equivale àquelas coisas, crenças , afetos , pessoas.

Nosso eu sempre está querendo se ampliar, somar coisas à sua identidade, memórias, amigos, prazeres; quer ser eterno, não abre mão de uma permanência impossível, quer continuar o sonho, como um louco agarrado à sua fantasia. É preciso coragem para largar todo esse apego . É saltar em um precipício sem nada saber sobre o que está lá embaixo.

No entanto, aquele que salta descobre-se subitamente liberto de inúmeras amarras e condicionamentos, que eram nossos donos. Acreditávamos que nós éramos exatamente aquele conjunto de apegos. Como as pessoas que dizem: 'eu sou assim'. Como se esse 'assim' criasse uma identidade que ele chama pelo seu nome.

A nossa verdadeira identidade está muito mais acima desse sonho de peça escolar, é uma identidade luminosa, abrangente, que percebe a inseparatividade de todas coisas, que é ilimitada, não condicionada pela existência cíclica, pelas identidades individuais, compreendendo tudo, percebendo com nitidez sua eternidade não sujeita à mutabilidade de um mundo submerso em condições.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

A entrada

Um discípulo perguntou: Onde é a entrada? O mestre perguntou: você ouve o ruído do riacho? Sim, respondeu o discípulo. É ali, disse o mestre. Essa resposta é a mesma para nós: a entrada é ali. Mas enquanto você ouvi-lo fora de você, você não entrou, não passou a entrada. Mas não pense em entrar. Só sente e ouça. Se sua mente se cala você pode entrar. Enquanto sua mente estiver falando: eu sou fulano, eu estou aqui sentada, eu estou cansada, meu joelho dói, enquanto você estiver pensando eu, eu, eu...você não pode entrar porque o passaporte para entrar nessa entrada é não ter passaporte, enquanto você tiver passaporte, impressão digital, retrato, nome, não pode entrar.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A ilusão e a vida

É possível viver na vida sabendo que é ilusão e ainda assim usufruir da vida? Sim e muito mais porque a alegria da vida deixa de estar cheia dos sofrimentos inerentes aos apegos. Não é a vida em si que produz sofrimento. Quem produz sofrimento é nosso apego à permanência na vida, porque desejamos estabilidade, porque desejamos nos agarrar às coisas da vida. Elas são muito fortes. Nossos filhos, nossos amores, nossa casa, colocamos apego nessas coisas e elas são impermanentes, então obrigatoriamente teremos sofrimento, mas nós podemos ter profundo amor sem apego, sabendo que é transitório, impermanente e ilusório. Que é um sonho maravilhoso que estamos vivendo, mas que não tem solidez, então é perfeitamente possível usufruir e viver, e ao mesmo tempo ter uma mente livre. Ter conquistado a liberdade. Não vai haver apego, ódio, ilusão. Não vão haver as três coisas que produzem o sofrimento: o apegar-se, o ter aversão e a ilusão.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Quem somos nós?

Mas quem somos nós? Estamos pensando isso, esse fenômeno do nosso cérebro funcionando, essa ilusão em que fechamos os olhos, dormimos e vem outra ilusão, quem somos nós realmente, além desse sonho momentâneo?

Esta não é uma resposta para ser dada com uma solução de fé. No Zen o monge não vem aqui e diz: é assim, acreditem. Não, tentem e descubram, através da meditação, quem são realmente, porque posso dizer algumas coisas a respeito, mas não posso dar respostas para ninguém, todo mundo tem que ver com os seus próprios olhos.

Quando a gente consegue responder a pergunta “quem é você?” para um mestre, de forma satisfatória, é uma libertação deste papel que estamos representando, é uma solução, é uma realização espiritual libertadora e é isso que a iluminação é – libertação dessa condição de nascimento e morte.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Na outra margem

A pergunta é: nós estamos vivendo ou é a vida que está nos vivendo? De certa maneira nós estamos vivendo, mas de outra maneira mais ampla a vida inteira está nos vivendo. Nós somos apenas parte da vida. Nós é que pensamos que somos especiais, indivíduos que precisam se iluminar para ver as coisas tais como são. Se vocês olharem pela janela e perguntarem, mas e esta árvore ali fora, no meio de toda esta floresta, ela precisa se iluminar? Não, ela não cogita, não pensa. Ela vive naturalmente. Como ela vive naturalmente nem teme a morte. Ela partilha a existência dela com a floresta. Ela não é indivíduo. É a própria floresta. Quando ela morre dela nascem outras árvores. Ela aduba o solo.Coisas assim acontecem. A floresta é que é o ser, o grande ser, e as árvores em si, nascendo e morrendo, não tem muita importância. Existe um equilíbrio nisso. Nós conseguimos entender isso olhando para a floresta. Nós temos enorme dificuldade para entender isso olhando para os seres humanos. É por isso que quando morre um ser humano nós choramos ou nos entristecemos. Quando nascem nos alegramos, é assim porque nós vemos todos os seres humanos como indivíduos, porque olhamos para nós como indivíduos. Se nós apagássemos esta noção de que somos indivíduos separados e nos sentíssemos a humanidade, ou mais do que a humanidade, nos sentíssemos como - a vida; nascimento e morte não teriam mais importância. Por não conseguirmos enxergar assim é que tememos a morte, por isso nós sofremos, ficamos na margem de cá, porque a margem de lá seria a percepção com sabedoria de Prajna Paramita. A percepção da outra margem não tem essas angústias. Porque ela também não tem mais a noção de um eu. Budismo parece muito complicado. Falamos muito, ensinamos muito sobre muitos aspectos filosóficos, mas se nós fossemos resumir o budismo seria com isso – não há um eu.Não há um eu intrínseco a coisa alguma. Se nós conseguíssemos desconstruir esse eu tudo estaria resolvido.

sábado, 5 de maio de 2007

Faz sentido no Zen?

Uma aluna escreve:

"Uma vez eu li um trecho, se não me engano em um livro chamado "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido", onde Ouspensky citando Gurdjieff dizia que "A vida começa a fazer sentido quando descobrimos que ela não faz sentido algum".
Assim como vi em um livro de Victor Frankl um trecho que me parece maravilhoso onde ele diz que "O homem não é quem pergunta o sentido da vida, mas sim aquele à quem essa pergunta é feita, e a qual ele responde com a própria vida."
Essas idéias estão de acordo com o Zen?"

R: Sim, elas fazem muito sentido no Zen!

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Barra de chocolate e reverência

Estava dirigindo quando parei, em uma sinaleira, perto da comunidade zen budista de Florianópolis. Sentado na calçada, um mendigo barbudo, com uma trouxa ao lado. Andando pela chuva fina vejo chegar um jovem aluno do zendô. Ele leva nas mãos uma grande barra de chocolate. Sem olhar para os lados, indiferente aos carros, leva a barra até o mendigo e a entrega. O beneficiado parece algo surpreso, mas a recebe. O jovem faz uma reverência em gasshô (mãos postas) como se estivesse olhando uma estátua de Buda. Depois retorna pela rua sob a água que cai, sem se apressar. Passaram-se semanas, não ouvi a menor referência ao acontecido.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Meu pai e sua fantasia

Saio com Daniel, meu filho de dez anos, de uma palestra na UDESC, que fiz com o monge da Ananda Margha, Jinanananda. Um rapaz à saída veio me dizer: - "Quando o vejo nas palestras não sinto que há um ser humano ali." Fico algo surpreso que ele não veja o que para mim é tão evidente, sou humano, com defeitos e qualidades como qualquer um.

Pergunto a Daniel, quem ele vê, quando compenetradamente assiste as longas palestras que os monges fazem, com um ar tão interessado. E ele responde seguramente:
- Sempre meu pai, fantasiado de monge!

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Onde estava no feriado de 1 de maio.


Visita do Papa

Um jornalista me liga, seu jornal deseja saber como os budistas vêem a visita do Papa ao Brasil.

Respondo:

"Como algo maravilhoso, que o país seja visitado por grandes líderes espirituais é uma coisa excelente. Mais pessoas terão reavivado sua fé, e olharão para dentro de si mesmas. Os resultados disto só podem ser bons."

terça-feira, 1 de maio de 2007

Pensamentos Mágicos

...."Vivendo a partir do que somos saímos de uma vida centrada em nós para uma vida centrada na realidade. Abandonando os pensamentos mágicos, despertando para a mágica do momento atual, damo-nos conta da graça do Nada de Especial... o Zen vivido."

Charlotte Joko Beck