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terça-feira, 29 de junho de 2010

Gasshô


1) Mãos unidas, todos os dedos unidos (polegar também é dedo), palma com palma.
2) A extremidade do dedo médio deve estar na altura da ponta do nariz.
3) As mãos devem estar distantes do rosto aproximadamente a largura de uma mão.

Gasshô com reverência significa que o corpo se inclina para frente, é o usual mas não em todas as ocasiões.
Reverência é o simples inclinar-se.
Prostração é o ritual de ajoelhar-se e tocar a testa no chão com as mãos subindo, palmas viradas para cima ao lado da cabeça.

domingo, 27 de junho de 2010

Qual a razão de existirmos?


Monges felizes em sua desimportância. Yokoji, angô 2010.

P: Qual a razão da atual experiência terrena, na qual gozamos ou experimentamos o que designamos de individualidade, neste estágio terreno de nossas existências?

R:Muito boa pergunta, qual a razão da existência? Note que a pergunta é em certa medida antropocêntrica, ou estás a perguntar qual a razão da existência das formigas, dos mosquitos, das pedras? A resposta é: nenhuma razão, somos fenômenos como as bolhas dentro de uma garrafa de refrigerante, gás carbônico que momentâneamente tem a forma de bolhas, que retornam ao que realmente são, gás carbônico, nada mais.
Queremos uma razão porque temos uma noção de importância própria, mas esta importância simplesmente não existe. Por isto criamos deuses, e céus permanentes que protejam nossa identidade, espíritos que continuem falando pela eternidade a fora, desejos de permanência do ego, nada mais. Nenhuma razão, somos fenômenos nada mais, por isto se diz no zen que não tenho nada para te dar, só uma bola incandescente para ser engolida, a verdade de que somos desimportantes como indivíduos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A preciosidade dos veículos


Monges dirigem-se ao Sodô em Yokoji.

O Dharma não são seus veículos (tradições,escolas,linhagens) porem se não fossem estes o próprio budismo como teria sido preservado e transmitido? E mais ainda, todos que vejo optarem por serem livres no caminho passam o tempo trocando trilhas na encosta da montanha, ou param a relembrar passagens que já viram em um momento e cessam a subida, ou mesmo tentam criar sua própria senda mas ela é cheia de obstáculos novos, às vezes termina em ravinas e se mostra errada, e param desacorçoados.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Você nasceu com eles


Silhueta de estátua de kanzeon, representação da virtude da compaixão. Yokoji. Foto Jinshin.

P: Tenho vergonha de minhas inclinações sexuais, que fazer?

R: O budismo não vê pecado, não vê transgressão, o que ele vê é que todos somos frutos de nossos impulsos cármicos, você não escolheu seus impulsos, nasceu com eles, mas quaisquer desejos de qualquer natureza conduzem ao sofrimento, pois em algum momento nos frustraremos.
Em primeiro lugar não se culpe, em segundo tente iniciar uma prática espiritual budista em que você não será acusado de pecador ou algo semelhante. A partir daí comece lentamente a buscar sua libertação deste mundo de ciclos repetidos em que sempre voltamos para realizar as mesmas coisas e sofrer do mesmo modo com a impermanência e transitoriedade de tudo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Nirvana e Samsara


Em Yokoji, monges participando de angô, fazem kinhin externo.

No zen há muitas declarações dizendo que o samsara e o nirvana são o mesmo.
O que se tenta neste caso é abrir os olhos do aluno para a questão de que quem constrói esta distinção ao olhar o mundo são nossos próprios olhos. A mente iluminada vê o nirvana (nibbana) e a mente deludida vê o samsara.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Liberação do sofrimento


Em Yokoji, monge sentado no telhado do Hattô.

Pode-se perguntar o que adianta saber que a base da vida é o sofrimento, que todos, sem exceção, terão que conhecê-lo? Não seria melhor tentar esquecer isso e ver o lado bom das coisas? Sim, seria, se pudéssemos. Porém, a honestidade e a experiência dizem-nos que não podemos. Não é somente no Budismo que se encontra a necessidade de se abrir para a verdade do sofrimento. Há um hino antigo, atribuído a Jesus, que diz: "Se soubesses como sofrer, terias o poder de não sofrer." Se negamos o sofrimento e insistimos que é um acidente ou uma intrusão, algo que não deveria existir, simplesmente contornamos o problema. Se o sofrimento se manifesta, real e verdadeiro, não há negação que o faça desaparecer. Mas, ao abrirmo-nos ao sofrimento, então existirá pelo menos a possibilidade de que possamos vir a compreender como sofrer, e com base neste conhecimento, a transcender o sofrimento. É à luz desta transcendência que o Buddha fez seu primeiro sermão. Neste sermão ele disse que "Tudo é sofrimento"; esta era a primeira nobre verdade, um axioma da vida. Mas o Buddha não falou por pessimismo. Ele não disse "O sofrimento existe e não há nada que possamos fazer a respeito a não ser nos resignarmos." Pelo contrário, ele disse que teríamos que encarar a verdade, já que somente a verdade pode nos libertar. A terceira nobre verdade (deixando de lado a segunda por um momento) diz, de maneira igualmente clara, que existe realmente um meio de transcender o sofrimento.
Potencialmente, todos nós temos o poder de não sofrer. Porém, para realizar este potencial devemos assumir total responsabilidade por nosso sofrimento.
Esta é a segunda nobre verdade. O sofrimento vem da ânsia, a ânsia de ser um indivíduo, até mesmo um indivíduo imortal. O sofrimento não tem sua origem fora de nós. Que sua causa não é algo que nos foi infligido, que somos, no final das contas, responsáveis por ele, este é o grande ensinamento do Buddha. "Por si mesmo" ele disse, "o mal é cometido; por si mesmo se sofre; por si mesmo o mal é desfeito; ninguém pode purificar o outro." A ânsia de sermos separados e distintos afeta toda a nossa vida. Afeta a forma pela qual vemos o mundo, o que tentamos fazer e o que dizemos. Afeta até a forma de ganharmos nossa vida, e nossa ética e conduta são também afetadas e distorcidas por ela. Esta ânsia leva-nos a viver adormecidos num mundo de sonhos, no qual nossas energias são dispersadas e nossa atenção dissipada. O meio de transcender o sofrimento foi dado pelo Buddha como a quarta nobre verdade, conhecida como o sendeiro óctuplo, baseado no correto modo de ver o mundo, ou reta visão, reto esforço, reta palavra, retos meios de existência, reta ação, e reto pensamento. Baseia-se, também, na reta atenção e na reta concentração. A palavra "reto" (ou "correto", ou "justo") não significa reto em relação a um modelo perfeito ou a um conjunto de regras. Ao contrário, significa a ausência de distorção criada pela ânsia de ser separado. Reta atenção e reta concentração, por exemplo, proporcionam uma mente calma e clara, que é o alicerce da vida ética e espiritual. A verdade do sofrimento, resultante da nossa ânsia, e a possibilidade de transcender o sofrimento, abandonando aquilo que corrompe a nossa relação com os outros e com o mundo, constituem a base e a motivação para o esforço espiritual. De uma maneira ou outra, esta verdade está subjacente ao Budismo, ao Cristianismo e a outras atividades espirituais.

(Convite à Prática do Zen - Albert Low, ShiSil Editora, 1998)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Shakuhachi



Monge Ryushin (EUA) toca Shakuhachi no Angô de Yokoji (treinamento de professores da SotoShu) Foto Jishin San. (Há Cds com música tradicional zen em Shakuhachi na loja do site www.daissen.org.br )

"Shakuhachi, é um instrumento de sopro de estrutura aparentemente simples: um bocal, o corpo de bambu e cinco orifícios. Porém, suas medidas são rigorosas. O comprimento mais comum do instrumento é de 1,8 shaku (1 shaku = aproximadamente 30 centímetros).

O bambu usado na sua construção é um bambu grosso e duro chamado Madake, cortado na base e com a distância entre os nós bem definida. Possui quatro orifícios na parte frontal e um na parte traseira coberto pelo polegar. Fundamentalmente, o Shakuhachi usa a escala pentatônica (Ré, Fá, Sol, Lá, Dó, Ré), mas é possível executar a escala cromática e até fazer portamento apenas mudando a embocadura.

Assim como o Koto e o Sangen, o instrumento foi introduzido no Japão através da China.

Existem composições para o Shakuhachi datadas da era Nara (Século VIII). O Shakuhachi era tocado como parte das cerimônias e práticas do Zen Budismo, mais especificamente na facção Fuke japonesa. Era o instrumento preferido dos sacerdotes peregrinos. No início do período Edo (Século XVII) surge a escola Kinko, que sem perder os aspectos religiosos, passou a utilizar o instrumento puramente para a música. Há cerca de cem anos surgiu uma nova escola, a Tozan. Existem diferenças na técnica de execução dos instrumentos, e até mesmo na estrutura, como a colocação do quinto orifício numa posição mais abaixo." (Wikipedia)

sábado, 19 de junho de 2010

Zazen no retiro em Florianópolis


Zazen ao som do vento e do mar.
Outro sesshin diferente e incomparável.
Caminhada sob o sol, pulmões cheios de ar.
Cada momento é uma flor inigualável.
Iniciantes são fantásticos praticantes.
Até com o mais novo muito se aprende.
Individualidades são claramente abaladas.
Todos fazem tudo juntos sempre.
Diversidades viram uma questão estética.
Diferenças estéticas meramente.
Erros e acertos ocorrem naturalmente.
Mas erros são corrigidos cuidadosamente.
O que é necessário faz-se sem hesitação.
Não há motivo algum para fugir.
Pedidos são cumpridos.
Desejos são ignorados.
Cordas frouxas são apertadas.
Cordas tensas são relaxadas.
O silêncio fala melhor do que qualquer língua.
Não faz juz qualquer coisa que se diga a respeito.
No fim a vontade é que não terminasse.
Quem nunca fez não tem idéia do que está perdendo.

Postado por João Jōken no blog Tentando não fugir

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Banhando um Buddha recém-nascido


Na minha cabeça, a idéia de que lavar a louça é desagradável só pode ocorre quando você não está fazendo isso. Depois que você está diante da pia com suas mangas arregaçadas e suas mãos na água morna, não é tão ruim assim. Eu gosto de levar tempo com cada peça de louça, estando plenamente consciente em cada peça, na água e em cada movimento de minhas mãos. Eu sei que se eu me apressar pra sair e ir tomar uma xícara de chá, o tempo não será agradável e não terá valido a pena de ser vivido. Isso seria uma pena, pois cada minuto, cada segundo da vida é um milagre. As louças em si e o fato de eu estar aqui as lavando são milagres! Cada tigela que eu lavo, cada poema que eu componho, cada vez que eu convido um sino a tocar é um milagre, cada um tem exatamente o mesmo valor. Um dia, enquanto lavando uma tigela, senti que meus movimentos eram tão sagrados e respeitosos como os de banhar um Buddha recém-nascido. Se ele estivesse lendo isso, aquele Buddha recém-nascido certamente estaria
feliz por mim, e não teria se sentido nada ofendido de ser comparado com uma tigela.

Cada pensamento, cada ação à luz da atenção plena se torna sagrada. Sob essa luz, não existe fronteiras entre o sagrado e o profano. Devo confessar que leva um pouco mais de tempo para terminar de lavar a louça, mas vivo plenamente cada momento, e sou feliz. Lavar a louça é ao mesmo tempo um meio e um fim, isto é, não lavamos a louça apenas para termos as louças limpas, mas também lavamos a louça simplesmente para lavar a louça, para viver plenamente em cada momento enquanto estamos lavando.

Se eu for incapaz de lavar as louças alegremente, se eu quiser terminar logo para que eu possa ir tomar uma xícara de chá, serei igualmente incapaz de beber o chá alegremente. Com a xícara de chá em minhas mãos eu estarei pensando o que farei a seguir, e a fragrância e o sabor do chá, juntamente com o prazer de bebê-lo, serão perdidos. Estarei sempre atraído pelo futuro, nunca sendo capaz de viver no momento presente.


Banhando um Buddha recém-nascido
de Thich Nhat Hanh

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Abster-se das conversas vãs


Praticantes caminham em silêncio. Sesshin, Florianópolis, junho 2010.

8. Abster-se das conversas vãs
Abster-se das conversas vãs significa desapegar-se da discriminação arbitrária; quando nós compreendemos a realidade plenamente, nós não mais nos envolvemos em conversas fúteis.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês se entregarem a diversos tipos de conversas fúteis, sua mente será perturbada. Daí, mesmo se vocês se tornarem monges, não alcançarão a iluminação. Por isso, vocês devem imediatamente abandonar esse tipo de conversas. Apenas aqueles que fazem isso podem experimentar a tranqüilidade e bem-aventurança do Nirvana.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sabedoria



Shumaia Sodô, nossa postulante, foi visitar Monja Gyoku En em Brasília. Foto enviada por Rejane.

7. Sabedoria
Desenvolvendo a aprendizagem, aplicação e compreensão, a realização é a sabedoria.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês tiverem sabedoria, vocês não se apegarão aos desejos. Vocês devem examinar a si mesmos continuamente, sem permitir nenhum descuido, pois este é o caminho da iluminação. Aqueles que não praticarem isto não são monges nem leigos – não há como se referir a eles. A verdadeira sabedoria é como barco seguro para atravessar o oceano da doença, velhice e morte; como uma tocha luminosa na escuridão da ignorância; como um bom remédio para todas as doenças; e como um machado afiado para cortar a árvore das ilusões. A sabedoria resultante do ouvir, refletir e praticar o Darma pode assim ser usada para aumentar o seu mérito no Caminho.
Se alguém chegar a possuir a luz da sabedoria, poderá ver a Verdade com os seus próprios olhos.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

terça-feira, 15 de junho de 2010

Meditação


6. Meditação
Meditação significa permanecer no Darma sem distração, com uma mente imperturbável.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês concentrarem a mente ela entrará em um estado de estabilidade, e assim vocês poderão compreender as características dos fenômenos surgindo e desaparecendo no mundo. Fazendo isso suas mentes permanecerão imperturbáveis. Assim como aqueles que querem evitar inundações constroem uma barragem, assim também o praticante cultiva a meditação para evitar que a água da sabedoria se perca.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Algo dentro de mim



Há algo em mim que não é dominável.

Por mais que eu diga sim,
por mais que eu concorde,
por mais que eu ceda,
por mais que eu aceite,
por mais que eu me submeta.

Ainda assim, há algo em mim que é só meu.
Um canto de alma que só eu sei onde fica.

O amor existe porque não sobrevivemos sozinhos.
Somos seres interdependentes.

Mesmo assim, há um lugar dentro de mim,
que nem o amor mais íntimo saberá onde fica.

É para lá que eu vou,
quando tudo parece perdido.

Deste mirante interno,
de onde eu vejo até aonde a vista alcança,
sinto grande, imensa compaixão
por mim,
por ti,
por nós,
essas crianças.

Daqui, deste ponto de vista privilegiado,
até as minhas escolhas mais burras
parecem fazer sentido.

Retomo a mim mesma.

Há um lugar, dentro de mim,
onde eu nunca estarei perdida.

Valéria Chalegre
http://historiasrecentes.blogspot.com/

sábado, 12 de junho de 2010

Plena Atenção


Lagoa do Peri, sesshin, jun 2010, Florianópolis.

5. Plena Atenção
Conservar os ensinamentos sem esquecimento é chamado de plena atenção, e também de “lembrança perseverante”.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês procuram um bom mestre e protetor, nada se compara à plena atenção. Aqueles que mantêm a plena atenção não são invadidos pelas aflições e permanecem livres de várias ilusões. Portanto, vocês deveriam se manter plenamente atentos, pois aqueles que perdem a plena atenção perdem as virtudes e seus méritos. Se vocês mantiverem a plena atenção, permanecerão ilesos mesmo quando cercados pelos desejos.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Diligência


4. Diligência
Cultivar virtudes sem interrupção é chamado diligência, pura e genuína, avançando sem olhar para trás.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês forem diligentes em seus esforços, nada será difícil. É como mesmo um pequeno fio d’água ser capaz de perfurar uma rocha se continuamente cai sobre ela. Entretanto, se vocês forem negligentes em sua prática e se suas mentes constantemente desanimarem, isso será como friccionar pauzinhos para produzir fogo mas parar antes que eles fiquem quentes – pode algum bom resultado ser esperado disso?”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Quietude


No zen moderno usamos os sesshins como períodos de quietude. Foto de sesshin em Florianópolis, Morro das Pedras, jun 2010.

3. Apreciar a quietude
Isso significa viver uma vida solitária, separada de todas as perturbações mundanas.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês desejam desfrutar o silêncio e a felicidade do Nirvana, vocês deveriam deixar o clamor para trás e viver sem barulho em um local solitário. As pessoas que vivem em lugares quietos são respeitadas pelos deuses. Por isso vocês deveriam abandonar o seu apego ao ‘eu’ e aos ‘outros’ e viverem sozinhos, dessa maneira eliminando a raiz do sofrimento. Aqueles que gostam de multidões são perturbados por elas e sofrerão os seus aborrecimentos, da mesma forma em que uma árvore seca e quebra quando muito pássaros pousam sobre ela. Laços e apegos mundanos lhes afundam em um mar de dores, como um velho elefante atolado no lamaçal.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Satisfação


Antes da refeição, sesshin, Florianópolis, jun/2010.
2. Satisfação
Satisfação significa estar contente com o que quer que se tenha.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês desejam se libertar do sofrimento vocês deveriam observar a satisfação. Estar satisfeito é ter um estado mental pacífico e feliz. Uma pessoa satisfeita é feliz mesmo que tenha que dormir no chão, enquanto que uma pessoa insatisfeita é infeliz mesmo vivendo em um palácio. A primeira é rica mesmo que seja pobre, a segunda é pobre ainda que seja rica. A pessoa satisfeita sente compaixão pela insatisfeita, pois esta é continuamente levada pelos cinco desejos .”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

terça-feira, 8 de junho de 2010

Desejos


Foto dos participantes do sesshin do dia 3/6/2010. Florianópolis.

1. Ter poucos desejos
Ter poucos desejos significa não buscar extensivamente os objetos de desejo.
O Buda disse: “Praticantes! Vocês deveriam saber que aqueles que querem muitas coisas buscam tanto a fama quanto o ganho, e assim as suas aflições são muitas. Aqueles com poucos desejos, entretanto, nada procuram e não tem anseios, e assim não sofrem. Portanto vocês deveriam rapidamente se libertar da cobiça, tanto por este motivo como pelo motivo de que esta liberdade dará origem a várias virtudes. Além disso, as pessoas com poucos desejos estão livres da lisonja e da extraviação, e também não são escravizadas pelos seus próprios sentidos. Satisfeitos com pouco, eles não possuem preocupações ou medos, estando assim sempre calmos. Aqueles que tem poucos desejos tem o Nirvana.”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sesshin - Caminhada



Após caminhada nos jardins do Morro das Pedras, participantes do sesshin de iniciantes em Florianópolis, cumprimentam-se com gasshô e reverência.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Koans nas diferentes escolas zen




O papel dos koans no Soto, Rinzai, e outras escolas.

Concentrar-se em koans durante a meditação e outras actividades é particularmente importante entre praticantes da seita Rinzai do Zen. No entanto, o estudo da literatura de koans é comum a ambas as escolas, Soto e Rinzai. Há um equívoco comum de que as escolas Soto e afins não usam koans, mas muitos praticantes Soto são de fato muito familiarizado com koans.

De fato, a seita Soto tem uma forte ligação histórica com koans. Muitas coleções de koans foram compilados por sacerdotes Soto. Durante o século 13, Dogen, fundador da escola Soto no Japão, citou cerca de 300 koans compilados no volume conhecido como o Grande Shobogenzo. Outras coleções de koans compiladas e anotadas por sacerdotes Soto incluem a Flauta de Ferro (japonês: Tetteki Tosui, compilado por Genro em 1783) e Versos e comentários sobre casos centenários de Tenchian, (Japonês: hyoju Hyakusoku Tenchian, compilado por Tetsumon em 1771). No entanto, de acordo com Michael Mohr, "a prática de koans ... foi amplamente expurgada da escola Soto através dos esforços de Gento Sokuchu (1729-1807), décimo primeiro abade de Entsuji, que em 1795 foi nomeado abade de Eiheiji." 6, P245.

Um número significativo de pessoas que meditam com koans são afiliadas à seita japonesa Kyodan Sanbo, e a várias escolas resultantes da seita na América do Norte, Europa e Austrália. Sanbo Kyodan foi criada no século 20, e tem raízes tanto na tradição Soto como na Rinzai.

(Texto traduzido do Inglês por Monge Genshô)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

e-mail

O e-mail de Monge Genshô mudou para mongegensho@gmail.com

Virtudes para o praticante no trabalho


Não dualidade: aprender a não ter visões fechadas, tipo certo errado, mas contextualizar, ser flexível.
Impermanência: Veja a vida em seu fluxo, nada permanecerá, tudo, coisas, empresas, passarão.
Equilíbrio: Olhe o mundo com equanimidade, não atribua gosto não gosto de sua mente aos acontecimentos, viva e aja naturalmente, responda a questão "quem somos nós" de forma correta sem fantasias nem sobrenaturalidades.
Desejo: Não aja em função de suas paixões mas em função do papel que o mundo precisa de você, abdique da individualidade em favor da universalidade.
Desapego: Esteja pronto para perder tudo, as coisas são impermanentes mesmo, não se deixe arrastar ou confundir pela nocão de que eu sou minha empresa, ou meu trabalho, isto é apenas um episódio...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Relato de um retiro de rua


Foto de um retiro de rua em 1991, o movimento foi iniciado pelo Zenpeacemakers.

Breve Relato de um Street Retreat
por Monge Kohô

No período de 13 a 16 de maio, participei de um Retiro de Rua (Sesshin), em Zürich. Nossa prática foi orientada por Genro Grover Gauntt Sensei – dos Zen Peacemakers dos EUA –, assessorado por Jürgen Lembke, experiente praticante suíço.
Ainda que seja inviável relatar em detalhes a enorme riqueza de eventos que vivenciei em um tão breve período de tempo, surge forte a aspiração de partilhar ao menos um pouco, por gratidão e contentamento.
Nosso grupo estava constituído por 09 pessoas: 07 homense 02 mulheres. Ao longo de quatro dias e três noites, tivemos a oportunidade de partilhar um cotidiano muito singular, deliberadamente baseado na renúncia. Sem dinheiro, roupas extras, telefones, computadores, carros ou outros confortos, fomos para as ruas exercitar a entrega e a confiança. Como definiu Genro Sensei, num Retiro de Rua aceitamos nos “desconectar” das nossas rotinas e certezas, e nos despimos um pouco de tudo que nos é familiar, inclusive de nossos papéis habituais. Dessa forma, um pouco mais “nus” de tudo que temos, fomos reaprender a nos relacionar de modo mais direto com os outros seres e com a vida. Em termos práticos, abrimos mão de muitas realidades por nós mesmos construídas, que usualmente representam barreiras a um diálogo existencial verdadeiro e profundo. Para isso, nos apoiamos solidariamente de modo a deixar para trás muitos obstáculos ao viver no aqui-agora, especialmente nossas identidades mais seguras e às quais temos mais apego.
Como guias simbólicos, tivemos o amparo dos três princípios básicos dos Zen Peacemakers: not knowing (o não-saber), bearing witness (dar testemunho, experienciar), e loving actions (ações compassivas, amorosas). De modo direto, esses princípios remetem ao Buddha (a Unidade), ao Dharma (a Diversidade), e à Sangha (a Comunidade de Prática, a escola de aprendizagem da harmonia, da Unidade na Diversidade). De modo a manifestar esses conceitos no mundo, nos dedicamos a praticar em condições mais desafiadoras que as usuais, mas de forma honesta e diligente, cultivando o estado de paz natural da mente. Fazíamos meditação sentada (zazen) três vezes ao dia – nos momentos em que as circunstâncias assim o permitiam – e realizávamos a liturgia dos “Portais do Doce Néctar” pelo menos uma vez ao dia, com suas recitações que se referem a mitigar as fomes em todos os planos da existência.
No período do Retiro, o clima colaborou: choveu na maior parte do tempo. Já estamos na primavera na Suíça, mas ainda assim as noites aqui são bastante frias, especialmente no período que antecede o amanhecer; na noite mais fria, chegamos aos 4 graus centigrados. Por isso, pudemos vivenciar condições que nutriram em cada um de nós a gratidão por tudo que temos, e uma empatia real para com aquelas pessoas que moram nas ruas, e que necessitam desenvolver a cada dia uma estratégia de manutenção de sua integridade e saúde. Em duas noites, dormimos ao ar livre, protegidos por construções para nos abrigar do frio, da chuva e de possíveis curiosos ou da polícia: numa ocasião, embaixo das escadarias de uma
Escola, e em outra sob os arcos de uma ferrovia. Nessas ocasiões, para nos aquecer fazíamos uma base com papelões recolhidos durante o dia, nos mantínhamos completamente vestidos e nos cobríamos com o cobertor que haviam orientado a portar. De resto, facilmente confirmei a sentença que afirma que “a necessidade é a mãe da invenção”: desde o início, Genro Sensei nos orientou a cultivar a plena atenção, no sentido de ver os muitos tesouros que se fazem disponíveis a quem nada tem (ou, no nosso caso, quem opta por viver a experiência de ter o mínimo.) E logo começamos a achar coisas que sob outras circunstâncias pareceriam inúteis, mas que agora transformavam-se em preciosos recursos, pela simples adição do tempero da nossa criatividade, a qual era estimulada pela chuva, pelo frio e pela carência de um teto.
O principal apoio, entretanto, não encontramos em coisas materiais. Acolhendo a experiência e orientação dos coordenadores, buscávamos nos relacionar com as pessoas que encontrávamos a cada passo – e caminhávamos muito, o dia todo. De modo especial, recebemos indicações decisivas e ensinamentos vindos daquelas pessoas que realmente vivem em condições de grande risco social. Desabrigados, alcoólatras, drogaditos, todo tipo de desajustados sócio-emocionais, foram em várias ocasiões as fontes das respostas que nos abriram portas. Em especial, quero relatar sobre um rapaz, a quem chamarei T., a quem encontramos – ou talvez seja mais correto dizer que ele nos encontrou – em mais de um momento de busca de abrigo ou alimento. Sempre alegre e bem disposto, “T” seaproximava e começava a conversar com todos, e acabava por informar, de forma gentil e desinteressada, as melhores possibilidades de obtenção de auxílio naquele dia e momento. Era possível ver que ele detinha um enorme conhecimento sobre as ruas e sobre as dificuldades de quem nelas vive. Com uma incrível gentileza e habilidade no trato, esse autêntico “Bodisatva dos desabrigados” aproximava-se de quem estava nas filas de atendimento, nas esquinas, e ia dando orientações e respostas aos questionamentos que, de outro modo, talvez fosse muito dífícil de resolver. Nossa gratidão ao seu coração bondoso e sua mente de acolhimento, provavelmente desenvolvidos pela compaixão surgida em meio à solidão e dureza da vida nas ruas.
Pude constatar que, se queremos vislumbrar soluções viáveis para os sofrimentos e esafios do mundo em que vivemos, não basta conhecer seus problemas: é preciso vivenciá-los de forma direta, em profundidade. Por isso, também seguindo as orientações, já cinco dias antes do início do Retiro, deixei de cortar o cabelo, fazer a barba e lavar a cabeça. Como durante o período nas ruas tínhamos apenas uma muda de roupa e calçado, foi fácil adotar uma aparência bastante convincente de alguém que mora nas ruas. Ao par disso, também meu tipo ísico é muito mais de um latino que de um europeu, e ainda não sou capaz de me comunicar em alemão ou suíço-alemão; isso tudo facilitou muito as coisas, ao criar mais desafios junto às pessoas a quem abordava para pedir. Não foi difícil entender na prática o conceito, que eu já conhecia racionalmente, do que é ser uma “pessoa invisível”. Pude ali ver minhaspróprias atitudes refletidas naquelas pessoas que passavam ao largo sem nem mesmo responder, por eu estar com uma aparência não muito recomendável, com um aroma também algo desagradável, e uma limitada capacidade de comunicar minhas idéias. É compreensivelmente mais fácil ignorar alguém nessas condições; da mesma forma, também fica mais fácil entender a ética subjacente, encontrada entre os moradores de rua, que gera uma atitude de apoio entre os que se reconhecem irmanados pelas mesmas limitações. Naturalmente, logo surgiu em cada um de nós uma alegria profunda em cada porção de alimento que alguém nos dava, e uma alegria ainda maior ao partilhar com os que nos acompanhavam. Creio que compreendi como nunca a dedicação que fazemos ao receber o alimento, o qual chegou até nós “através do esforço de inumeráveis seres; que possamos viver nossas vidas de forma digna de merecê-lo...”
Numa ocasião, chegamos a um local que fornece sopas ao final da tarde para pessoas carentes. Na fila, fomos informados que só restavam cinco pratos para distribuir.
Sem qualquer combinação prévia, fomos um a um saindo da fila, e ao nos reencontrarmos os nove, já lá fora na calçada, todos sorríamos, totalmente alegres pelo que tivéramos a coragem de abrir mão. A fome de comida foi transmutada em plenitude de sentido. Já sem nos causar muita surpresa, logo a seguir tínhamos a companhia de T, que nos explicou com riqueza de detalhes que, de fato, para ele também era bom abdicar da sopa naquele dia, pois precisava mesmo fazer dieta para reduzir a barriga, já que nem a natação, nem a academia de ginástica que el e frequentava estavam dando resultados...(!) Antes de nos separarmos, como de hábito ele nos indicou outro local onde, afinal, fomos acolhidos e recebemos a refeição que nos garantiu mais uma noite sem fome.
Em outro momento, chegamos até uma Igreja – de confissão Evangélica-Reformada – que nos acolheu fraternalmente. Essa Igreja, St. Jakobs, é especial em muitos aspectos, por ser eclaradamente “aberta”. Para nós, o principal diferencial era saber de antemão que lá existia a prática de meditação silenciosa, duas vezes na semana. Confirmou-se nossa boa expectativa, e nos permitiram dormir dentro do templo. Inclusive pudemos participar de um lanche comunitário, preparado por e para imigrantes asilados (“sans-papier”). Em troca, nos foi requisitado que ajudássemos na limpeza e organização do local, preparando-o para o Serviço religioso da manhã seguinte. Trabalhamos sorrindo, porque o samu foi fácil e pleno de sentido, e, como um dos nossos participantes tocava piano, ainda pudemos preparar o sono embalados por boa música e boas reflexões sobre a importância de estar-se disposto a acolher ospresentes que a Vida oferece. Nessa noite, dormimos como reis e rainhas, num lugar
aquecido, sem chuva, e até tivemos desjejum na manhã seguinte, a partir das maravilhosas sobras do lanche da noite anterior...
Desejo assinalar que me causou um certo espanto a rapidez com que, no Retiro, percebi que “nós” passávamos a ser “eles”, e “eles” passavam a ser “nós”. A partir da mudança de contexto em que eu estava inserido, quase que de imediato comecei a sentir simpatia e finidade por todos aqueles seres que usualmente procuraria evitar: “... os gatos mais pobres das ruas, os cães mais sarnentos...” E, pelas mesmas sementes de apegos e aversões, um quê de prevenção e antipatia em relação a qualquer ser de boa aparência, limpo, confortável. Felizmente, sempre lá estava Genro Sensei, para nos lembrar que o diferencial é que tínhamos o mérito de perceber a abundância dos milagres cotidianos, e conhecer a preciosidade do Dharma, com que reconectávamos a cada Zazen, a cada liturgia. Quando as ondas das emoções se aplacavam no silêncio, era fácil perceber que podemos propor uma solução para os desafios encontrados, mas isso não significa que tal seja a única, nem a melhor. A realidade do mundo é complexa, sempre, e somos parte das causas e condições que tecem a trama da vida, seus problemas, suas soluções.
Desse modo, a cada experiência foi se fortalecendo em mim a percepção de quanto poder de auto-transformação somos dotados, já que não é possível separar a realidade em “nós e eles”. Grande contentamento: uma cisão clara da não-separatividade, na prática, em carne-ossos-frio-e-sono, ali mesmo nas ruas, debaixo da chuva, há três dias sem banho e sem escovar os dentes...! Ao mudar meu olhar para as circunstâncias, elas como que se tornavam plásticas, e as mudanças se manifestavam na abundância de tempo por não haver nada a fazer, no poder de optar por não haver nada a obter.
Assim, pelas mesmas vias, fui confirmando que impor uma solução, por melhor que ela possa me parecer, representa em certa medida uma violência para quem vivencia o problema. Neste ponto, a mim parece que ajudar, assim como ensinar, consiste mais em ouvir com plena atenção as perguntas do que em oferecer respostas. Ao longo daqueles dias, minha noção de realidade social se ampliou notavelmente; pude constatar a enorme e tocante generosidade que habita em cada ser humano, pude confirmar como podem ser simples e prosaicos os trajes que o amor ompassivo usa para se manifestar. Em muitos momentos, ser digno de receber um olhar de acolhimento ou um sorriso fizeram a diferença entre existir ou ser ninguém. Embora a pressa da vida cotidiana nos faça muitas vezes esquecer, estamos a cada momento criando e recriando a realidade do mundo, com o nosso olhar, com a nossa motivação, com a nossa presença.
Assim, na aspiração de poder partilhar a alegria de ter vivido essa experiência notável, manifesto minha incomensurável gratidão por todo apoio recebido na consecução dessa “loucura sábia”. À família, pela paciência, respeito e prática dedicada ao nosso bem-estar e integridade; aos Professores de hoje e sempre, pela generosidade dos ensinamentos e da eferência viva; e aos irmãos e irmãs de retiro, pela presença honesta, corajosa e fraterna. Que qualquer mérito resultante seja revertido em benefício de todos os seres. E que possamos juntos – todos, ricos ou pobres, alegres ou tristes, com casa ou sem-teto, famintos ou saciados – seguir o Caminho de Buddha, aqui e agora, que na verdade é só e tudo quetemos.
(copiado do site Viazen)