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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Abandona-os!


“Um monge se apresentou frente ao Buda oferecendo-lhe duas imensas árvores em flor que, graças aos seus poderes mágicos, levava nas mãos. O Buda lhe
disse:

-Abandona-os!

O monge deixou cair a árvore que sustentava com sua mão direita.

-Abandona-os!

Então o monge deixou cair a árvore que sustentava com sua mão esquerda.

-Abandona-os! Insistiu o Buda.

- Não tenho nada que largar, que queres que eu faça?

E o Buda contestou:

- Jamais te disse para abandonar as árvores em flor; o que dizia era que abandonasse seus órgãos dos sentidos e tua consciência discriminativa.
Quando tiveres abandonado tudo isso e já não restar nada que possas abandonar[1], estarás liberado dos laços do nascimento e da morte.”


[1] No zen, os mestres ensinam que nesse momento é preciso abandonar mesmo a idéia de ter que abandonar algo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Na minha opinião...


R: Este é um ponto básico, a existência de pontos de vista, de opiniões, eles enfatizam quanto estamos apegados a nossos egos, é por esta razão que no Zen coreano se fala em aprender a " não saber" , a não ter pontos de vista. Aí esta a brasa ardendo.

P: Penso que tenho coisas a ensinar...

R: Se você assim sente ..., mas esteja atento ao fato de não dever cultivar o espírito de "tenho algo a ensinar a estes que não sabem o que já sei", se este pensamento brotar na mente, tentar dar um exemplo será negativo para seu próprio caminho.

P: E a vida eterna?

R: A vida eterna de que se fala nada tem a ver com tempo. Linearidade do tempo, sucessão de eventos, vida como nascer e morrer, papéis a desempenhar aqui, ambições de realizar, são coisas sem sentido. Quando o mestre fala em vida eterna se refere ao conceito de simultaneidade no qual tempo não existe. É disto que se trata quando se fala de "vida eterna".

P: No meu treinamento...

R: É importante não pensarmos que nosso treinamento nos distingue em algo, não há real diferença entre os seres, apenas aquelas em que acreditarmos, quanto mais crermos que nosso estudo nos levou a algum lugar mais distantes estaremos da natureza original, o problema é sempre esta distinção, a crença em separação ou em chegar a algo superior.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Hierarquias


P: É o seguinte, gostaria de saber como é a hierarquia religiosa no
budismo por exemplo: seria o monge o padre, o lama o bispo e o dalai
lama o papa?

R: O budismo não tem o padre, o sacerdote, o intermediário entre Deus e o homem, resta o monge, o que fez votos de servir e outros mais.
Lama é o mestre no budismo tibetano, no zen o equivalente é o Sensei, o monge com ordenação superior, transmissão e que recebeu certificação de professor.
Dalai Lama é o líder da ordem Gelugpa, uma das escolas tibetanas e também reconhecido pelas outras 3 escolas tibetanas, as outras escolas budistas tem seus líderes, mas não são populares nem aparecem muito como por circunstâncias aconteceu com o Dalai Lama que é um chefe de estado.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Interior x exterior


P. No sutra do coração da sabedoria: vazio é forma e forma é vazio, como a forma é um atributo do mundo exterior, uma vez que é apreendida pelos sentidos, o vazio de alguma coisa (objetos e seres) está compreendido somente no que diz respeito ao mundo exterior?

R: Existem diferentes abordagens budistas para esta questão sendo uma das mais extremas a da escola Yogachara, ou Cittamatra, que declara que tudo é produto da consciência, é a escola da mente apenas.
No zen a tese predominante é a de que os objetos existem, são vazios de existência inerente, e são percebidos de forma distorcida por nossos filtros pessoais. Na iluminação, uma percepção direta melhora muitíssimo a nitidez da percepção pois os filtros são descartados. Vê-se também a interdependência de tudo, em outras palavras a unidade de tudo, e isto inclui realmente tudo, não somente o mundo exterior, pois não existe esta distinção , interior x exterior.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arrependimento


No buddhismo Zen há um ritual para se entrar no caminho de Buddha.
Consiste em expressar o arrependimento informal, em buscar refúgio no tesouro
triplo e em jurar praticar os três preceitos coletivos puros e os dez preceitos proibitivos. Esse ritual baseia-se na idéia de arrependimento, que significa, no buddhismo, total abertura de coração. se nos abrirmos completamente, consciente ou inconscientemente, estamos prontos para ouvir a voz silenciosa do universo. [...]

No ritual de arrependimento informal, cantam-se os seguintes versos:
"De todo o karma continuamente criado por mim desde os tempos antigos, por meio
da cobiça, da raiva e da auto-ilusão que não tem princípio, nascido de meu corpo, de minha fala e de minha mente, agora eu me arrependo, com toda a sinceridade." No buddhismo, arrependimento não significa pedir desculpas a alguém por algum erro ou engano. O arrependimento não é um estágio preliminar para entrar no mundo de Buddha ou para se tornar uma boa pessoa.
Se o arrependimento for interpretado desse modo, caímos, simplesmente,
na armadilha do dualismo; uma grande lacuna é criada entre nós e o objeto,
seja ele qual for, de que estamos tentando nos arrepender, e isso sempre
causará certa confusão. A paz verdadeira não pode ser encontrada no dualismo.
No buddhismo, arrependimento significa nós mesmos nos deixarmos conduzir para estarmos presentes bem no centro da paz e da harmonia.
Ele é a abertura total de nosso coração, que nos permite ouvir a voz dos limites de irradiação de nossa consciência. O próprio arrependimento torna nossa vida perfeitamente pacífica. [...]

(Dainin Katagiri, Retornando ao Silêncio)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O céu no qual o pássaro voa


"Anzan sensei diz:" O Zen não oferece alguma pequena técnica que se pode fazer. Ele não oferece alguma bolha brilhante com que se possa brincar. Exige, pelo contrário, tudo o que você está a fim de receber do Zen. Nossa prática não é sobre a meditação, é sobre iluminação".
"Meditação budista, por outro lado, é a meditação feita por Budistas e é muito importante que não se desviem para isso.
Todas as formas de meditação podem ser divididos em dois tipos: Samatha
(Concentração, serenização) e vipassana (análise dos dados da experiência, clara visão)"
"Zhiyi viu samatha e vipasyana, Si e kan, como as duas asas de uma ave em vôo."
"Shikantaza, por outro lado, é o céu no qual o pássaro voa".
"Shikantaza está fora do alcance da maioria de nós quando começamos a prática, pois é a realização do nada a que se agarrar".

NT: Shikantaza: Zazen, meditação do zen caracterizada por ser sem objetivo.

Shikai Zuiko Osho, em: "O pequeno livro de parar e olhar".
Traduzido do inglês por Monge Genshô

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Praticar não é pensar




P: Para Carl Jung, a supressão do ego para o homem ocidental não seria o ideal, sendo assim ele deveria ser como uma espécie de vestimenta para o Self progredir em sua individuação.
Como o Zen Budismo interpreta isto, visto que Alan Watts, proeminente estudioso do Zen Budismo orientado pelo mestre Zen D.T. Suzuki, compartilhava deste pensamento junguiano.
Aproveitando o assunto, vejo que o ponto de vista do inconsciente coletivo e seus arquétipos são também em comum com o Zen Budismo, mas pelo que entendo eles não teriam um papel importante para o praticante do Zen. Correto?

R: Para o zen a principal ilusão é a de se ter um eu separado. Mas no mundo relativo você precisa do eu para transitar, como uma fantasia, mas quando você volta do baile a fantasia tira-a e não se confunde com ela. Assim age o iluminado.
Nenhuma idéia é importante para o praticante zen, praticar não é pensar ou filosofar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Führer e o vegetarianismo


Hitler e seu arquiteto e amigo pessoal Albert Speer

P: Nos mosteiros zen budistas as refeições formais servidas aos monges são estritamente vegetarianas, no entanto temos exemplos de pessoas conhecidas por sua crueldade que evitavam carnes, o que dizer disto?

R: Não me parece que haja uma ligação direta entre o vegetarianismo e a bondade, a menos que este provenha de uma prática espiritual baseada na compaixão, neste caso vamos achar esta disciplina em muitas ordens religiosas de diferentes doutrinas, os monges trapistas católicos, por exemplo, praticam estrito vegetarianismo.
No caso citado de Adolf Hitler existe uma curiosidade:
"Um tópico interessante acerca deste fato tão divulgado: conta Albert Speer, arquiteto e amigo de Hitler, em seu livro em dois volumes, "Os dias de glória" e "A Derrocada", que Hitler detestava a dieta vegetariana, prescrita pelos seus médicos, devido a suas terríveis dores de estômago, e se queixava à mesa de ter que comer "aquilo" enquanto seus convidados deliciavam-se com carnes que ele não podia comer devido a sua doença."
Monge Genshô

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Zazenkai de janeiro


Zazenkai de janeiro

SÁBADO (22/01)


A Comunidade Zen Budista de Florianópolis gostaria de convidá-lo a participar do Zazenkai que será realizado na sede de sua comunidade em Florianópolis, neste sábado, dia 22 de janeiro.

O Zazenkai é um retiro curto de um dia e está aberto a todas as pessoas, inclusive para iniciantes. A alimentação será vegetariana.

Neste Zazenkai teremos a exibição do filme "Milarepa, A História de um Yogue" com comentários do monge Genshô.

ZAZENKAI literalmente significa "vir junto para a meditação" é um retiro zen budista de menor intensidade e de duração mais curta do que um sesshin. É uma reunião de praticantes leigos que praticam regularmente juntos, mas será aberto a todos que quiserem participar. As práticas em si são pontuadas e guiadas através do uso de sinos e do badalo de madeira conhecido como Han.


Valor: 30,00 para todos os participantes.

Inscrições: daissenrestaurantevegetariano@gmail.com ou (48) 9971.1323 / 3225 8896.

Apoio: Daissen Restaurante Vegetariano


Comunidade Zen Budista de Florianópolis
www.daissen.org.br


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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem ser visto


Mais tarde o imperador Wu sentiu que um homem superior tinha partido e escreveu um epitáfio para Bodhidharma em que dizia: "eu o vi sem ver, conheci sem ter conhecido, agora como dantes eu me arrependo e lamento isto". Na verdade, o esclarecimento e o despertar são invisíveis para olhos não despertos. Pode passar por nós Shakyamuni Buddha e se estivermos perdidos em nossos pensamentos, terá passado por nós apenas um homem, um ruído de passos, uma brisa, nada mais.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sutra do Diamante


"O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa."

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Compromisso de sanidade


Estar presente
Inteira
Atenta
Serena
Sem me deixar intimidar.
Manter o equilíbrio.
Fazer tudo com o coração.
Mas com a razão sempre a guiar cada ato.
Olhar para frente.
Entender que o erro é produto do risco.
E que só cria quem arrisca.
Arriscar-me por inteiro.
E permitir-me rir do erro.
Abraçar o mundo inteiro,
Sabendo que meus braços são curtos
e não alcançarei tudo.
Mesmo assim, estar sempre de braços abertos.
Corrigir os erros,
com ternura,
principalmente por si mesma.
Entender-me, perdoar-me, exigir-me, sem me deixar atropelar.
Não permitir que o mundo me agrida,
Não me permitir agredir o mundo.
Estar no mundo.
Mudar o mundo e mudar com o mundo.
Deixar que a direção se revele a cada passo da caminhada.
Sem deixar, que mesmo assim, o caminho tenha sido planejado,
Que o destino tenha sido desejado.
Amar, amar profundamente,
Sem permitir que o amor domine o destino e abafe os sentidos
principalmente, o sexto sentido.
Confiar na intuição,
Mas cercar-me de conhecimento,
pensamento, discernimento.
Saber a diferença entre o certo e o errado,
Mas julgar menos, perdoar mais.
Carregar o coração de compaixão,
Mas lutar contra cada injustiça do dia-a-dia.
Melhorar sempre.
Progredir.
Aperfeiçoar.
Estar presente em cada passo da caminhada.
Inteira,
Íntegra.
Mas saber ver-me de longe, de onde nada me alcance,
nada me abale, nada me diminua.
E ver-me no palco da vida.
Atuando em todos os meus papéis.
E amar-me profundamente,
Por saber-me lá.
Olhar-me, com os olhos de Deus.

Valéria Chalegre

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O mito do Hinayana


Sarnath_Lion - Capital of Ashoka

O mito do Hinayana
por Kåre A. Lie
Nos séculos por volta do nascimento do Cristo, havia um desenvolvimento radical acontecendo no Buddhismo. Uma nova escola surgiu e seus adeptos a chamaram Mahayana [1]. Como essa nova escola se diferenciou das escolas mais antigas pode ser encontrado em qualquer história do Buddhismo. Aqui vamos nos concentrar em um dos resultados desse cisma: o termo Hinayana.

Os adeptos das escolas antigas criticaram os Mahayanistas, especialmente por criarem novos sutras, forjando a palavra do Buddha. Os Mahayanistas, por sua vez, reagiram a essa crítica acusando seus oponentes de não compreenderem completamente os ensinamentos do Buddha e de serem egoístas de mentalidade estreita. O debate esquentou e acusações fluíram de ambos os lados. Então algumas pessoas brilhantes do lado Mahayana do debate criaram o par de palavras Mahayana/Hinayana, e ele pegou. Eles chamaram seus oponentes de Hinayana, e essa palavra funcionou muito bem como um insulto - com uma simplicidade e paralelismo com o Mahayana que qualquer tolo poderia assimilar.

Hinayana, ou, mais corretamente, hiinayaana é um termo altamente depreciativo. Ele não significa simplesmente "o veículo menor" como geralmente é colocado. O segundo elemento de hina-yaana - que é yaana - significa veículo. Mas hiina raramente tem o simples significado de "menor"
ou "pequeno". Se fosse esse o caso, os textos páli (ou sânscrito) teriam usado-o em outras conexões como o oposto de mahaa - grande. Mas não o fizeram. O oposto de mahaa é cuu.la, assim essa é a palavra normal para "pequeno".

O termo Hinayana é o eco de um debate morto há muito tempo - ou ainda um debate onde um lado está morto e o outro está gritando aos ventos.

Quem eram os oponentes que foram rotulados como Hinayana? O Theravada? Provavelmente não. Na época em que o Mahayana surgiu, o Theravada havia "emigrado" principalmente para Sri Lanka, e dificilmente poderia ser contado entre as escolas dominantes nas terras continentais indianas - onde o debate Mahayana/Hinayana aconteceu. A mais influente das antigas escolas naquele tempo era a Sarvastivada, assim eles foram os mais prováveis - mas dificilmente os únicos - alvos das invectivas "Hinayana".

Agora a Sarvastivada e as outras escolas antigas da Índia estão mortas, exceto Theravada, mas o debate e os argumentos encontraram seu lugar nos sutras Mahayana, como, por exemplo, é aparente na propaganda anti-Hinayana do Sutra do Lótus - e continua ecoando nos ensinamentos Mahayana e Vajrayana.

Hoje há confusão, pelos Mahayanistas/Vajrayanistas usarem o termo Hinayana de três maneiras diferentes:

1.. No sentido histórico: escolas pré-Mahayanistas são chamadas Hinayana.
2.. O Theravada moderno é confundido com Hinayana.
3.. O termo Hinayana é usado para uma parte interna do ensinamento Mahayana/Vajrayana.

Vamos dar uma olhada mais de perto nesses três usos:

1. Alguns afirmam que a palavra Hinayana como um termo para as escolas mais antigas é um uso que pertence a um passado distante somente.
Isso não é correto. Pode ser encontrado em vários trabalhos modernos de referência, e em literatura mais especializada ele pode, por exemplo, ser encontrado em Buddhist Philosophy In Theory and Practice, de H.V. Guenther, citando trabalhos tibetanos dos séculos XVIII e XX.

2. Como um exemplo de confusão de Hinayana com Theravada, irei citar Buddha for Beginners, da bibliografia de Jane Hope (Jane Hope estudou com Chogyam Trungpa Rinpoche), impresso em 1995 (eu tenho somente a versão norueguesa disponível, assim espero que a minha tradução para o inglês não seja muito inacurada): "Buddhismo Hinayana. Uma boa introdução ao tradicional Buddhismo Hinayana é What the Buddha Taught, de Walpola Rahula... Com um ponto de vista atual e escrito por dois ocidentais treinados na tradição Theravada, é... Seeking the Heart of Wisdom, por Joseph Goldstein e Jack Kornfield..."

3. Agora sobre uma constante confusão que tem base no Buddhismo tibetano. Alguns dizem que Hinayana e Mahayana há muito são dois termos usados para descrever duas diferentes atitudes espirituais, e citam o sétimo capítulo ("Loving Kindness and Compassion") do clássico tibetano The Jewel Ornament of Liberation, escrito no século X, onde o autor, Jé Gampopa se refere a Hinayana como "menor capacidade" ("theg pa dman pa"). O parágrafo se lê como segue: "'Apego ao bem-estar de mera paz(1)' significa a atitude de menor capacidade(2) onde o desejo de transcender o sofrimento é focado somente em si. Isso obstrui a consideração com os outros e dessa forma há pouco desenvolvimento de altruísmo [...] Quando a bondade e a compaixão se tornam parte do ser, há tanto cuidado pelos outros seres conscientes que ele não poderia almejar a liberação somente para si. [...] Mestre Manjushriikiirti disse: 'Um seguidor do Mahayana não deveria estar sem bondade e compaixão por um momento sequer', e 'Não é a raiva e o ódio mas a bondade e a compaixão que concedem o bem-estar aos outros'."

As notas de rodapé dessa passagem indicam o seguinte: (1) o tibetano zhi.ba significa "paz". É traduzido como "mera paz" nessa seção do livro, já que é usado por Gampopa para denotar a paz relativamente sem compaixão que resulta do desenvolvimento somente da meditação de concentração. (2) Hinayana: "menor capacidade", muitas vezes traduzido como "veículo menor". O termo implica na capacidade de carregar um fardo. Nesse caso o fardo é o próprio ser, já que seu comprometimento é conduzir a si mesmo à liberação, não a todos os seres (como é o caso no Mahayana, a "maior capacidade").

O problema e confusão aqui é que obviamente essa análise não se refere diretamente à palavra hiinayaana em páli/sânscrito, mas à sua tradução tibetana "theg pa dman pa". Esse é um aspecto chave, como será mostrado abaixo.

A palavra Hinayana não é tibetano, não é chinês, inglês ou bantu.
É páli e sânscrito. Dessa maneira a única abordagem sensata para determinar o significado da palavra é estudar como a palavra hiinayaana é usada nos textos páli e sânscrito.

O segundo elemento, -yaana, significa veículo. Não há dissensão sobre isso.

Como é então usada "hiina" nos textos canônicos páli?

Todo buddhista conhece o primeiro sermão do Buddha gravado, o Dhammacakkappavattanasutta falado aos cinco ascetas que se tornaram os primeiro cinco bhikkhus [2]. Nele o Buddha diz: "Esses dois extremos, monges, não são praticados por aquele que transcendeu o mundo. Quais são os dois? Aquele conjugado com as paixões e luxúria, baixo (hiina), grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso..."

Sabendo que o estilo do sutta muitas vezes usa cadeias de sinônimos dessa maneira, assim eles fortalecem e definem-se um ao outro, pode-se considerar "grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso" como definições auxiliares de "hiina" nesse caso.

Aqui o Buddha claramente denota o caminho a não ser praticado como hiina.

Em outros textos e comentários páli hinna muitas vezes ocorrem na combinação hiina-majjhima-pa.niita, que é: ruim - médio - bom. No contexto de hiina - majjhima - pa.niita (ou algumas vezes somente hiina - pa.niita) a palavra hiina é sempre usada como um termo para qualidades indesejadas, como por exemplo o ódio, avareza e ignorância. Ela obviamente significa "baixo, indesejável, desprezível" - e não "pequeno" ou "menor".

O comentário Mahaniddesa-atthakatha, um dos textos onde a tríade ocorre, define a palavra assim: hiinattike hiinaati laamakaa (na tríade "hiina" é "laamakaa"). Agora laamaka é definida pelo PTS Dictionary dessa
maneira: "insignificante, pobre, inferior, mau, pecaminoso. O sinônimo comum é paapa". E paapa significa "ruim, mau". Assim parece que as definições vão de mal a pior. O comentário então dá exemplos e explica que os desejos que causam renascimento em niraya (inferno, purgatório) são hiina.

Agora para os textos em sânscrito. Em Lalitavistara encontramos uma versão do Dhammacakkappavattanasutta, onde a palavra "hiina" é usada exatamente como na citação acima da versão páli do sutta.

Em Mahayanasutralankara por Asanga, que é um texto Mahayana muito representativo, encontramos algo de interesse para nossa busca. Asanga diz:
"Há três grupos de pessoas: hiina-madhyama-vishishta... (ruins - médios - excelentes)." Essa expressão é paralela ao páli hiina-majjhima-pa.niita e vem mostrar que os Mahayanistas que cunharam o termo "hiinayaana"
consideraram "hiina" como um termo depreciativo, com o mesmo sentido dos textos páli.

Um texto muito interessante é uma edição do Catushparishatsutra onde o texto é apresentado em quatro colunas paralelas: sânscrito, páli (Mahavagga), tibetano e uma tradução alemã da versão chinesa. Aqui, novamente, encontramos o Dhammacakkappavattanasutta. Já observamos em páli e sânscrito. A versão alemã do chinês diz: "Erstens: Gefallen zu finden an und anzunehmen die niedrigen und üblen Sitten der gewöhnliche Personen..." É um tanto impreciso se aqui "niedrigen" (desprezível) ou "üblen" (mau, ruim) que corresponde a "hiina". Mas pelo menos é claro que a conotação fortemente negativa de "hiina" foi mantida na tradução chinesa. Nada mudou dos significados páli e sânscrito.

Na coluna tibetana, percebemos que a palavra "dman-pa" do tibetano toma o lugar correspondente ao sânscrito "hiina", coincidindo com a citação de Jé Gampopa acima. E aqui temos a causa de posteriores confusões e equívocos do termo hiinayaana. Vejamos o que dicionários tibetano-inglês dizem sobre "dman-pa": Sarat Chandra Das' Dictionary diz: "dman-pa: baixo, em referência a quantidade ou qualidade, pequeno". Jäschke's Dictionary é ainda mais esclarecedor: "dman-pa: 1. baixo, e referência a quantidade, pequeno. 2. em referência a qualidade: indiferente, inferior (sânscrito:
hiina)."

Dessa forma parece que a palavra do sânscrito hiina, que sem qualquer dúvida razoável significa "de baixa qualidade", foi traduzida pela palavra dman-pa do tibetano, que tem o duplo significado "baixa qualidade" e "baixa quantidade". E a citação acima de Jé Gampopa parece indicar que muitos tibetanos daí por diante lê somente o segundo dos dois significados, como "menor capacidade", "capacidade mais baixa", assim o significado foi distorcido de "baixa qualidade" para "baixa quantidade".

Assim vemos que a confusão se originou do fato que dman-pa tem dois significados em tibetano. Hinayana - originalmente significando "veículo de qualidade desprezível" - adquiriu o novo significado "veículo de menor capacidade". Mas isso é resultado de um método errado. É obviamente errado projetar o novo significado tibetano de volta à palavra sânscrito/páli e dizer que "esse é o significado de Hinayana, porque é assim que os mestres tibetanos explicam-na." O que os mestres tibetanos explicam é a palavra dman-pa do tibetano, não a palavra hiina do sânscrito.

Assim sendo é claro que não se pode afirmar que Hinayana tem o significado "brando" que a tradição tibetana lhe deu, através da palavra dman-pa do tibetano. Hinayana não é tibetano, é páli/sânscrito, e é ofensiva, o significado depreciativo permanece inalterado por quaisquer tentativas de suavização.

O que, então, é Hinayana? É o Buddhismo Theravada? Não, isso é tanto insultuoso quanto provavelmente é historicamente incorreto. É uma atitude espiritual dentro dos sistemas Mahayana e Vajrayana? Não, esse é o tibetano "theg pa dman pa", a atitude de menor capacidade, e não o sânscrito Hinayana, "o veículo inferior" [3]. Dessa forma, não há Hinayana. Hinayana não é nada além de um mito, ainda que confuso e destrutivo, e Buddhistas sábios deveriam deixar essa palavra repousar nas prateleiras do Museu dos Cismas, aonde ele certamente pertence, e encontrar outras palavras para denotar essas atitudes espirituais que eles desejam definir.

Traduzido e comentado por Flávio Costa.

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[1] Nesse ponto o texto não está muito claro, pois dá a impressão que Mahayana é uma escola, sendo que na verdade é um grupo de escolas, considerado um veículo do Buddhismo.
[2] Bhikkhu é a palavra páli que se refere a monge (masculino).
[3] Infelizmente essa tradução já se convencionou no Buddhismo tibetano, sendo pouco provável que ela deixe de ser empregada.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Leigos e monges


Akiba Roshi, com o manto marrom, característico dos que receberam a transmissão.

Resumo de um texto de Coen Sensei das investiduras e ordenações no Soto Zen:

Membro Praticante: pessoa que passou pela cerimônia de novos membros, mantém uma prática regular e contínua e faz uma doação mensal mínima fixada pela comunidade. Pode votar nas assembléias locais e assumir cargos voluntários auxiliares na comunidade.

Membro Monitor Auxiliar: pessoa que fez o Curso de Preceitos, recebeu os Preceitos e um Rakusu, em cerimônia de 'Jukai', e que mantém uma prática regular e contínua. Pode ajudar no Monitoramento das práticas. Nota: esta cerimônia de Preceitos não é uma ordenação, portanto, o termo "leigo ordenado" não é apropriado. ( A expressão "monge leigo" também não tem sentido e não deve ser usada, "investidura", é o correto. (N. MG))

Monitor Instrutor: pessoa que tendo passado por todas as fases anteriores, recebe autorização para tal, atuando sob supervisão e direção.

Postulante: pessoa que assumiu o compromisso de se tornar monge, fez o curso de Preceitos, recebeu os Preceitos e mantém prática diária na comunidade, seguindo as orientações diretas do superior.

Noviço(a): pessoa que, tendo passado por todas fases anteriores, recebe a ordenação monástica "shukke tokudo". Isto significa um comprometimento a se dedicar integralmente ao Darma, praticando sob a orientação de outros monges formados anteriormente ("sempai"). É necessária a prática em uma comunidade, orientada por um monge professor do Darma oficialmente reconhecido pela sede no Japão (Monge Especial), para qualificar a sua graduação. No Japão, é obrigatório o treinamento monástico, que varia de dois a oito anos de internamento em um mosteiro reconhecido pela sede administrativa.

Shuso: líder dos noviços durante um período mínimo de três meses (um ango), no qual fica tempo integral na comunidade. Passa pela Cerimônia de Combate do Darma ("Shuso Hossenshiki"), que representa a re-confirmação de seus votos.

Monge-Aprendiz: pessoa que terminou o período de Shuso, e continua o seu treinamento sob a orientação de monges superiores. Pode, sob a orientação de seus professores, oficiar as cerimônias básicas. Na ausência de um monge, pode substitui-lo em algumas das funções de monge, se for assim autorizado.

Monge: pessoa que, tendo passado por todas a fases anteriores, recebe a Transmissão de Darma. Representa a entrada no nível inicial da carreira oficial de professores do Darma. Só então pode ensinar sem autorização especial, oficiar cerimônias de transmissão dos Preceitos Budistas para leigos, ordenações monásticas, casamentos, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Jhâna, dhyâna, zen


Entrada do Zendô em Yokoji, 2010.

É frequente que se pergunte a origem da palavra zen, originalmente Jhâna significa absorção meditativa,um termo que designa estados progressivos decorrentes da prática da meditação. São técnicas conhecidas anteriormente ao budismo, neste não um fim em si mesmo mas uma preparação para descobertas mais profundas. No chinês originou a forma chana depois ch'an e que passou ao Japão como Zen.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Grande Mente


Shunryo Suzuki Roshi (1905-1971)

"Vai levar muito tempo até encontrares a tua mente calma e serena na meditação. Muitas sensações aparecem, muitos pensamentos e imagens surgem, mas são apenas ondas da tua própria mente. Nada vem do exterior da tua mente. Habitualmente pensamos que a nossa mente recebe impressões e experiências do exterior mas essa não é a verdadeira compreensão da nossa mente. A verdadeira compreensão é que a mente inclui tudo. Quando pensamos que alguma coisa vem do exterior significa apenas que algo surge na nossa mente. Nada fora de ti te pode perturbar. Tu próprio é que crias as ondas na tua mente. Se deixares a tua mente tal como é, ela tornar-se-á calma. Esta mente chama-se Grande Mente."

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Alaya Vijnana


P: O que é a mente sutil que está além de nós e que permite que haja transposição de lembranças de modo a que Buda haja lembrado de manifestações suas como outro ser, como comumente se diz: vidas passadas?

R: Alaya Vijnana é a consciência depósito do universo, nada nela é esquecido, não se trata de individualidade mas da capacidade de acessar as manifestações cármicas que estão atrás de nós, lembre há continuidade, só não há continuidade de um EU.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Redemoinho


P: Tenho me debatido com algumas questões referentes ao renascimento e carma.
Apesar de ter lido suas respostas às perguntas no site Daissen, ainda tenho dúvidas quanto ao como e por quê se diz que há carma individual enquanto se afirma que o "eu" é ilusão. Em minha lógica infantilóide, não pode haver carma individual se o "eu" for uma ilusão. O carma seria então sempre universal, se manifestando em tudo e todos de forma indiferente.

R: O carma que gera vc é em parte um quantum mantido junto por um conjunto de desejos e impulsos, neste sentido individual, mas também influenciado por um carma de família, país, etc.. portanto se manifesta em todos mas também tem um componente unificado bem marcante.
Agora, este carma ao se manifestar , gera a noção de um eu naquele que vive e pensa, porem este eu particular é momentâneo, limitado a esta existência.

P: Se o "eu" deixa de existir quando abandona os "agregados", como o carma pode "seguir" o que resta, se é que resta algo? O que resta não é, usando uma palavra neutra, o "um"?

R: Imagine um redemoinho dentro da água, ele tem um impulso próprio, uma manifestação que o destaca dentro da vacuidade (a água nesta analogia), é vacuidade sem tirar nem por, mas só tem uma individualidade porque tem movimento. Se este redemoinho se desfaz mas seu movimento desencadeia outro redemoinho mais tarde, ao sabor da corrente, o novo redemoinho tem uma nova identidade e características muito semelhantes pois detem a mesma energia cinética, porém não é o mesmo redemoinho, é outro. (Ou será que é o mesmo? é ou não é?)

P: Se sim, como o carma pode seguir nova manifestação (outro "eu") do "um"?
Se não, então o que resta quando, simplificando, morremos?

R: Resta o carma. (a energia que gera o redemoinho, e ela não consegue evitar se manifestar como redemoinho e com as mesmas marcas
(características)) ela não precisa um eu para se agarrar, assim como o redemoinho não precisa de um eixo em torno de que girar, ele gira e por isto imaginamos um eixo, e damos um nome a este eixo: EU)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Significado


P: Muitas vezes no decorrer da vida me vi tentado a buscar significado para a minha vida e isto tem me trazido bastante sofrimento.

R: Não há um significado mais profundo que simplesmente viver.

P: Como sou iniciante no budismo, às vezes em algumas leituras tenho a sensação de que a iluminação seria um motivo a se alcançar, o objetivo máximo a se obter, como uma espécie de prêmio pela conduta de vida sugerida pelo budismo.

R: Não é bem assim. O despertar das ilusões permite viver plenamente, o que inclui morrer plenamente. Um outro método, como uma vida virtuosa, pode permitir uma estada num paraíso, por que não?
A iluminação plena permitiria extinguir as energias que forçam manifestações repetidas.

P: Penso que devo estar interpretando a iluminação de maneira equivocada e algo em
mim diz que o despertar é um começo, não um fim. Afinal, a iluminação é o começo de tudo?

R: Não, uma iluminação plena é escapar dos ciclos, estes sim um aprisionamento.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Mari e José Ferraz



Comemorando 15 anos de relacionamento, Mari e José Ferraz fizeram em Florianópolis suas bodas e casamento budista, foi na Pousada dos Sonhos, em Jurerê, com mutos amigos e o mar por testemunha principal, Monge Tokushi foi um auxiliar da cerimônia pela primeira vez.