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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O que o mestre quer



É para se sentar com todos que se vem à Sangha, esta é a razão de sua existência. Mas se o fazemos por causa de uma liderança, a prática não é forte, porque a prática no zen não depende da liderança. A tradição é sentar sozinho durante longo período e visitar o mestre de vez em quando para tirar dúvidas, para mostrar aquilo que pensa que realizou, para expor e receber uma confirmação. Se nossa prática depende dos outros, ela é fraca. Deveríamos ser capazes de sentar sozinhos em nossas casas e nos reunirmos com a Sangha para apoiar os outros praticantes, não vindo, somente, porque naquele dia o professor estará presente. Isso, para o professor, é como se ele visse sua própria fraqueza, porque sua força é fazer praticantes fortes e não pessoas dependentes. Não é isso que o professor quer.

Durante toda a história do budismo, o esforço de todos os mestres foi de criar praticantes melhores que eles e que pudessem sucedê-los. Tantos mestres viram suas linhas, suas escolas, desaparecerem, porque não houve sucessores. Por ter isso ocorrido tantas e tantas vezes, a maior alegria de um mestre é ver grandes e fortes alunos que não dependem dele. Numerosos mestres tiveram apenas um discípulo sucessor, raríssimos tiveram centenas. Somente mestres como Buda tiveram muitos sucessores. Seria interessante nós examinarmos o que é a prática, como ela se estabelece. A prática, na verdade, só tem sentido se é usada na vida diária.

Infelizmente, em nossa vida diária, temos que vestir máscaras e atuar em papéis que não são o papel do praticante. Alguns deles são verdadeiros impeditivos da realização espiritual. Então, a prática da vida diária é um enorme desafio, pois temos, frequentemente, que agir de outra forma. Na Sangha você pode - e deve - aceitar todas as falhas e erros dizendo: “não tem importância, vamos tentar mais uma vez”. Se os alunos estão fazendo bem o ritual, o professor pode mudar algo, porque o melhor é que as coisas nunca funcionem muito bem para que possamos nos aperfeiçoar. Se alguém é a pessoa bem treinada para determinada função, é conveniente tirá-la daquele papel em que ela se sai bem, para que ela passe a fazer algo em que ela não se saia tão bem. Se alguém ficar fazendo uma tarefa para a qual está bem preparado, será ruim para ele, para o seu ego, não lhe fará bem. Na verdade, a Sangha não deve funcionar muito bem, deve servir de caminho de aperfeiçoamento.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Como se liberar dos ciclos da existência?



Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Monge Genshô – Está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. 

Vou explicar um pouquinho mais:
Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo  porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica, que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância. Mas não se preocupe, em absoluto, porque  tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Genshô – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada. Será um Buda.

Palestra em BH, na sede do Nalanda, decupada da gravação por Chudô San.
(Fim)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Paciência



Pergunta – Falando um pouco mais sobre compaixão, terminei de ler um livro que se chama Budismo e Ensinamentos Profundos, em que o autor fala muito sobre a paciência. Na minha vida, por exemplo, eu percebo, a esse respeito, que posso falar de uma certa evolução, mas sempre falta mais. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a paciência no caminho budista para alcançar, ou para minimizar ou diminuir o sofrimento.

Monge Genshô – Essa questão passa pelos mesmos caminhos de que já falamos. Quem é que se irrita? Quem é este que está irritado? Às vezes, a pessoa não entende a pergunta, mas essa pergunta pretende iluminar a mente. Entenda que é o mero fato de você não aceitar que irrita. Por que nós nos irritaríamos com foguetes e bombinhas? Só porque nós imaginamos que existe uma intenção ou um agente por trás. Porque se fosse um trovão, um acontecimento natural, não tendo um ser humano por trás, não nos sentimos irritados. Irritamo-nos porque imaginamos, porque nossa mente pensa: “tem alguém estourando foguetes”. Constate, está na mente. 

A mente acredita que existe uma entidade chamada “Atlético” ou “Cruzeiro”. Alguém se comprometeu com isso, e se você examinar como surgiram essas entidades, trata-se de um grupo de pessoas que se reúne, cria uma bandeira, uma cor, entre outras características definidoras de identidade, cria os símbolos, e as mentes olham para tudo aquilo e transformam em um significado. A cruz suástica sempre foi um símbolo magnífico, e em muitas tradições é usada até hoje. Hitler se apropriou dela, inverteu-a, e os acontecimentos da segunda guerra mundial juntamente com o que decorreu das ações do nazismo, transformaram-na em um símbolo de ódio. Somos nós que olhamos e vemos um símbolo de ódio, porque ele em si, nunca foi nada mais que alguns traços. 

Nossa paciência é alterada pelo que nós acreditamos, apenas por isso. Devemos exercitar em nossa mente a compreensão da raiz de onde surgem as coisas. Por exemplo, na meditação, você se senta, surge um pensamento, o pensamento mobiliza você e você pode se perguntar, “Porque me mobiliza, porque isso me irrita? De onde veio, de onde surgiu?” Você rapidamente irá descobrir que ele surge de algumas raízes como vaidade, orgulho, crença no seu ego, ou seja, de algo em que você acreditou. Se você apagar isso, evitando julgar e considerar, se continuar sentado calmamente, você adquire serenidade. Quando na vida surgem os acontecimentos, você pode, com simples treinamento, ver que eles não têm substância real, que é você que atribui a eles a força de mobilizá-lo.

 Então, para cultivar a paciência deve-se, em primeiro lugar, praticar a meditação. Naturalmente surge uma mente pacífica, naturalmente surge uma mente paciente. Em absoluto, não é o controle, porque mesmo que o controle tenha a virtude de não provocar carmas, ações e reações, ele não é a solução final, porque sempre vai falhar. Você está sendo arrastado pelo seu carma e diz: “Vou ser paciente, de agora em diante não me irrito mais.” Mas acontece um evento acima de sua capacidade de controle, e você perde a paciência. O correto é que a impaciência não surja, devendo ocorrer somente a compreensão de como as coisas estão se manifestando.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Palestra e zazenkai em Joinville, dia 1/12/2012


PALESTRA ABERTA E ZAZENKAI COM MONGE GENSHÔ  EM JOINVILLE



Palestra aberta, Sábado, 1 de dezembro às 19:00. ZAZENKAI, Domingo, 2 de dezembro, das 8 às 17 horas Palestra aberta com Monge Genshô: AS ENERGIAS FORMADORAS DE HÁBITO E O CULTIVO DE UMA MENTE EQUILIBRADA. 1º de dezembro, sábado, às 19 horas. Auditório do Ed. Terraço Center (Rua Mário Lobo, nº 61, centro).Joinville. SC. Colaboração sugerida: R$ 10,00. ZAZENKAI (retiro curto para prática de meditação, ideal para iniciantes). Coordenação: Monge Genshô. 2 de dezembro, domingo, das 8 às 17 horas. Rua Lages, nº 375, sala 3, centro. Joinville. SC. Valor da inscrição: R$ 30,00. Inscrições pelo email: zenjoinville@gmail.com. Maiores informações: zenjoinville@gmail.com. (47) 9964 2884. facebook.com/zen.joinville.

A mente compassiva



Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem  além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. 

Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo mental é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. 

Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa idéia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo nos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Basta ouvir ensinamentos?



Aluno – No vocabulário Zen, existe a palavra samadhi, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Genshô – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa, a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. 

Embora se diga frequentemente no zen, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. 

A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen ZenJi diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. 

A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola. Nesse sentido, recomendo a vocês o texto de um famoso escritor, o professor Ricardo Sasaki, intitulado A que Escola pertenço. (um toque de humor, o Prof. Sasaki era o anfitrião nesta palestra ministrada em sua Sangha Theravada em BH)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Dharma em muitos lugares



Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação e quietude



Aluno – Eu queria entender a diferença entre esse estado de iluminação e o estado de adormecimento. Porque esse estado de iluminação, teoricamente, seria um estágio onde nada ocorre, onde a mente está obliterada, mas...

Monge Genshô – Eu acredito que essa visão não seja bem correta. Não se trata de uma obliteração da mente, em absoluto. Trata-se de um estado em que você tem clareza, ou seja, você pensa, raciocina e age, mas com clareza. Você vê claramente o resultado de suas ações, porque deve agir de determinada forma e toma decisões com clareza. A diferença da mente iluminada para a mente deludida é a clareza. Quando alguém está iluminado, sabe o que deve fazer, quando, como e de que maneira, sempre, límpidamente. Mas não significa que não aja no mundo, que não fale, que não lhe ocorram pensamentos; o que acontece é que estes não o levam de um lado para outro. Não é que não lhe surgem pensamentos, é que nenhum pensamento o arrasta. Se nós nos sentarmos e ficarmos com a mente completamente vazia, sem nenhum pensamento, Hui Neng, famoso mestre Zen do século sete depois de Cristo, chamaria isso de quietismo, e ficaria furioso. Vou lhes contar uma pequena historia Zen. Um monge chegou num mosteiro de um grande mestre Zen e pediu, “O senhor pode me ensinar, pode me aceitar?” “Pode ser - disse o mestre. “O que você já fez?” “Já treinei muito meditação, vou lhe mostrar”. Sentou-se rapidamente em posição de lótus com as pernas cruzadas e entrou, em segundos, em profundo samadhi. O mestre pegou um bastão e começou a surrá-lo expulsando-o do mosteiro e dizendo:”Budas de pedra já tenho muitos, nesse mosteiro”. Portanto, não é isso que é desejável, a libertação não é apagar-se, não é morrer, é outra coisa completamente diversa disso. A libertação tem dentro de si a ação, mas ação iluminada.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os inquietos



Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes,  a gente sabe e entende, mas a grande questão  - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de querer  chegar a esse ponto, não é assim?

Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costumava dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la.
 Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desejo e materialismo espiritual



Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Genshô – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos  começamos sempre assim. Vamos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade, através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir.
 Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual, o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si.
 A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de ioga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Samsara e Nirvana



A maneira de transformarmos o mundo é transformando a mente de cada um. Não importa qual o sistema, transformando as mentes, qualquer um funcionaria maravilhosamente bem - uma monarquia funcionaria maravilhosamente bem, uma ditadura também, um sistema totalitarista como o comunista funcionaria bem igualmente, a democracia funcionaria. Somente seriam necessárias pessoas, todas elas, com mentes compassivas, honestas, maravilhosas, dedicadas ao bem dos outros, abdicando de si mesmas, e o mundo seria perfeito. A raiz da mudança do mundo está nas mentes. É por isso que o budismo volta-se para o treinamento e a modificação da mente do homem, para, dessa forma, produzir o nirvana, um mundo onde a mente que olha transforma o samsara, que é o mundo da perambulação, do sofrimento, um mundo onde transitamos de um lugar para outro buscando a felicidade. Assim, mudamos de um amor para outro, de um emprego para outro, e vivemos sempre cheios de “se”: se eu ganhasse na loteria, se eu fizesse isso, se eu fosse amado, se eu tivesse um filho. Esses “se” são colocados como o que nos permitiria ser felizes.

Esse é o mundo da perambulação, o samsara, o mundo da procura e da insatisfação permanentes. Esse é o significado de dukka, a primeira nobre verdade. “A vida é dukka”, ou seja, a vida é insatisfatória, porque nela, embora haja momentos maravilhosos ou tristes, nenhum deles será permanente, sólido ou estável. A mudança é parte integrante da natureza das coisas. E assim, achando sempre insatisfação ao fim de qualquer processo de qualquer tempo, sofremos. Sofremos por não podermos agarrar e ficar com uma felicidade e satisfação permanentes. E o nirvana? O mesmo mundo, o mesmo lugar, mas onde os ventos dos impulsos não nos empurram e onde, por causa disso, não existe necessidade de perambular, porque onde estamos encontramos a completa felicidade e plenitude. 

Dizemos no Zen que quando estamos sentados em meditação, isso é nirvana, é iluminação, porque, naquele momento, você imita Buda e imitando Buda você é nada mais do que Buda. Dizemos isso também para desarmar, porque em outro sentido você não é Buda, você sabe que não é, sabe que não está desperto, que não é um iluminado. Mas se você se senta com o desejo de ser um Buda, de se iluminar, de se libertar, de ser feliz, esse próprio desejo é samsárico, pois ele produz uma busca, uma insatisfação. A pessoas se perguntam, então: “para que estou praticando, se não alcanço nada, sou assim sempre, sou mau?” Pensar desta forma é estar em samsara sentado em meditação. Esse mesmo ser, no instante em que não é levado por nenhum impulso, por nenhum desejo e que não pretende alcançar nada, ele vê no próprio samsara o nirvana. Porque não há nenhuma diferença de lugar nessas duas coisas, a diferença está na mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A mente que constrói o mundo



Portanto, eliminando-se todas as manifestações, não há vacuidade para surgir. Por isso o famoso sutra do Coração e da Sabedoria diz “forma é vazio e vazio é forma”. Toda vacuidade é forma e toda forma é vacuidade porque a vacuidade só se manifesta assim. Mas cada objeto surge com seus significados por causa de nosso olhar. É nosso olhar que produz os significados que a coisa tem. Sem nosso olhar, as coisas podem existir como manifestações, mas não são nada daquilo que um homem veria.

 É como a madeira, que é material de construção para nós, mas para um cupim, é comida. Sendo comida para o cupim, para ele é apenas um manjar, não é material de construção. Para o fogo, alimento de chamas. Para um ecologista, a madeira é um seqüestrador de carbono da atmosfera, e assim por diante, segundo cada olhar. Com o olhar surge o significado do mundo, por isso, podemos dizer que quando morre um homem, morre um universo, ou seja, o universo dele, carregado dos significados que ele atribuía às coisas e seres. 

Neste sentido, mesmo que eu pegue esse relógio e diga que para mim ele é diferente do relógio que cada um está vendo, porque ele tem determinadas marcas e significados para mim, pode ser que alguém aqui tenha, alguma vez, recebido um relógio na testa, logo, o relógio terá para ele outro significado. Alguém pode ter recebido um relógio de seu pai falecendo; para essa pessoa, então, o relógio terá um significado outro. Desta forma, um mesmo objeto é construído por nós em seus vários significados, e assim construímos um mundo com nossa mente. Por isso, essa mente construtora do mundo é a mente transformadora do mundo. Essa é a razão de treinarmos a mente, porque essa mente treinada modifica todo o mundo, instantaneamente. Uma mente cheia de compaixão vê um mundo compassivo e digno de compaixão. Uma mente cheia de ódio vê um mundo odioso e raivoso. Não há como escapar.
(continua)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Vazio e a forma


O vazio, é um conceito muito difícil de ser agarrado. Essa palavra é muito raramente encontrada no canon e atribui-se a Nagarjuna, no primeiro século depois de Cristo, a primeira explanação extensa sobre o tema da vacuidade. Esse vazio também não pode ser descrito e a ele também não podem ser dados atributos, mas dele surgem todos os fenômenos e manifestações dos seres, de todos nós. Tais fenômenos ocorrem na superfície da vacuidade, e eles são a própria vacuidade.

 Nós somos o vazio, a vacuidade se manifestando. A única maneira possível para que a vacuidade surja é através das manifestações fenomênicas dos seres, do universo, de todas as coisas. Mas essas manifestações em si, do ponto de vista do budismo Zen, não passam de manifestações cármicas e, nesse sentido, vazias (de um eu inerente) , pois são interdependentes, impermanentes e não existem por si mesmas. Só existem porque elas precisam se manifestar por força dos impulsos cármicos que as geram. 

Como as ondas são geradas na superfície do mar pelos ventos, assim também nós somos gerados na superfície da vacuidade ( a analogia falha no ponto de que a vacuidade não é um ente por si mesma) pelos ventos de nossos próprios impulsos. É por isso que estamos todos sentados nessa sala, e nada mais somos do que seres de apegos e desejos.

(continua)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O único que entendeu



O budismo Zen surge, tradicionalmente, de um sermão de Buda em que ele levanta uma flor e a mostra para a platéia sem nada dizer. Ao fazer isso, um dos assistentes, Mahakashyapa, que viria a ser o sucessor de Buda após sua morte, sorri. Buda diz – Mahakashyapa foi o único que entendeu. Essa tradição de origem do Zen fala sobre o fato de que o Zen verdadeiro, o Dharma verdadeiro, é transmitido além das palavras. As palavras não fazem jus ao Dharma, não fazem jus à verdade dharmica. O conhecimento e a experiência são tão profundos, tão distintos, que não podem ser descritos com palavras. 

Por isso, sempre que possível, uma palestra sobre o Zen deve ser iniciada com a experiência da meditação, sem a qual não podemos saber sobre o que falamos. É necessário calar nossa mente, nossa boca, imobilizar nosso corpo, para que haja espaço para sentirmos algo mais profundo que permeia tudo. As pobres palavras não fazem sentido porque não permeiam tudo. Também não há nenhum “algo” aqui. Isso lembra a teologia apofática, presente no cristianismo, em que se declara que não se pode falar sobre a divindade porque quando se fala sobre Deus estamos lhe dando atributos, e ao dar atributos o estamos diminuindo. O budismo em si nem fala sobre uma entidade divina ou sobre um Deus criador.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Abrindo os olhos



Pergunta – Como a meditação ajuda no despertar. O que difere o sentar do ficar quieto?

Monge Genshô – Boa pergunta. Se você sentar e ficar quieto, mas sua mente continuar funcionando, você continua no sonho. Se você sentar e for apagando com a imobilidade do corpo, todas as informações para a mente, como a sua noção de ter um corpo, começam a diminuir as percepções e a atividade mental. Seus pensamentos começam a esmorecer e suas memórias, no momento de samadhi - de concentração - desaparecem. Nada mais surge. 

Quando nada mais surge, você está presente e ouve os sons do presente, como o canto dos pássaros, os carros que passam, o rumor do seu coração. Percebe-se, em seguida, uma sensação de grande contentamento, pois toda agitação desapareceu. Esse é o primeiro passo da meditação, e é preciso ir além, cada vez mais profundamente. Por isso estou colocando no site uma palestra antiga sobre os dez passos do boi, que narra os dez passos da iluminação. 

O que acontece? Como é que se faz? A meditação é a maneira para conseguirmos nos libertar dessas noções, pois elas são alimentadas pelo funcionamento da mente. A noção de um “eu” é produzida pelas formações mentais. É tudo muito simples, mas é bastante difícil. Na verdade, não é nenhum grande segredo, mas a dificuldade de executar é muito grande. Sentar-se, esquecer-se de todo o passado, não alimentar nada, nem uma memória, não seguir nada, não ir para futuro, estar aqui e agora, o que não significa não pensar, mas, sim, pensar além do pensar em não pensar. 

Quando você estiver, aproximadamente, metade do tempo do zazen numa situação assim, experiências significativas começarão a ocorrer. Não são mágicas, mas são extraordinárias e lhe permitem criar uma outra visão, uma outra sabedoria. Todo mundo muda e todo o mundo se altera. Não porque o mundo mudou, mas porque seus olhos se abriram verdadeiramente. É isso.

Fim

Palestra decupada da gravação por Ápio San e revisada por Eleonora San.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Maya - a ilusão



Pergunta – Não devemos estar atentos aos nossos sonhos?

Monge Genshô – Um sonho lúcido. Pode acontecer. Depois de um bom sesshin, você pode voltar para casa e perceber que todas as pessoas que estão em sua vida são como sonho, que você está  num mundo onírico. Poderia estar vivendo outro sonho, mas está vivendo esse, escolheu esse. 
Mudou-se para essa cidade, casou com essa mulher, teve esse filho. Tudo é um sonho construído.

 A ilusão é muito interessante. Havia um monge que meditava isolado. Encontrou uma divindade e lhe perguntou: “O que é Maya?” A divindade lhe disse: “entre neste  lago”. Ele entrou, e foi andando até que a água lhe cobriu o rosto, então ele virou-se e começou a sair da água. Enquanto saía, ele olhava para si e se percebeu uma mulher lindíssima. Nesse momento, passou uma caravana nela havia um príncipe que se apaixonou imediatamente por aquela mulher saída como do nada.
 Pegou-a pela mão e levou-a consigo. Foram para o reino do príncipe e casaram-se, para a felicidade de todo o povo. Ela teve filhos, estava encantada com a vida. Palácio, vestes, amor. Mas aconteceu uma guerra e seus filhos foram lutar. De repente, toda a vida maravilhosa se transformou: seu reino havia perdido a batalha, os corpos de seu marido e filhos vinham carregados, todos seus sonhos estavam destruídos. 
Os corpos de seus filhos amados, do seu marido, entre lamentações, foram jogados em uma fogueira onde ela, não suportando a dor da perda, enlouquecida, jogou-se. Enquanto o fogo consumia seu corpo, ela caiu e sentiu-se dentro de uma água fria. Então, andando, saiu do lago, olhou para si e viu-se um eremita, um pobre monge. A divindade lhe disse: “isso é Maya, a ilusão!”. 

Enquanto vocês estavam sendo conduzidos pela história, puderam mergulhar nela. E sonharam junto. Mas todo o sofrimento era um sonho ilusório. Nada aconteceu, ele nunca foi uma mulher linda, nunca se casou, nunca teve filhos, não houve guerras nem mortes. Assim é a ilusão, assim são as nossas vidas. Vocês estão sonhando agora e não conseguem acordar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Estar realmente presente



Pergunta – Acordado é atento?

Monge Genshô – Não.

Pergunta – É concentrado?

Monge Genshô – Não. Porque estar atento, estar concentrado, ainda é uma atividade do “eu”. Ela é útil, por exemplo, para o treinamento da plena atenção, o que permite estar atento a tudo o que se está fazendo. Isso é um passo para acordar, porque, frequentemente, somos tomados por sentimentos e fazemos coisas em estado de desatenção. Estar realmente presente onde você está, sem  lembrar do passado, nem pensar em nada do que fará amanhã, não é muito fácil, mas, se conseguir, esse já é um passo em direção ao despertar. Cria uma mente pacificada que prepara o terreno para insights. Por isso treinamos no zazen o ficar aqui, esquecer passado e futuro. Treine, e cada vez que você se distrair, o que deve fazer? Voltar para o momento presente. Temos que treinar a volta ao momento presente durante a vida toda.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quem é você?



Pergunta – Com relação ao “eu”, eu o elimino ou me desapego dele?

Monge Genshô – O “eu” é necessário nessa vida, você o usa como um instrumento. Uma boa imagem para entender isso é a de que precisamos usar uma fantasia para exercer um papel. Eu, por exemplo, coloco minhas roupas de monge, que carregadas de simbolismo - um manto igual ao manto de Buda - me facilitam o exercício do papel de professor do dharma. Mas, quando tiro essa roupa, não posso dizer que estou ali, naquela fantasia que tirei. Eu não sou a fantasia; ela não é eu. Nosso “eu” é, essencialmente, uma fantasia. Nós precisamos usar, na vida, títulos, cargos, coisas, nomes. Mas não devemos nos confundir com nosso nome. Seu nome não é você. Seu título não é você. Por isso é tão difícil responder a essa pergunta: “quem é você realmente?” Nós precisamos de um “eu”, mas o “eu” que usamos para transitar na vida, não é quem somos, é uma fantasia. Começa no batizado, o pai diz, “o nome dele será Fulano”, e recebemos um nome que arrastamos pelo resto da vida. Mas esse nome foi-nos, tão somente, dado por nossos pais. Ele não nos constitui. “Quem é você?” Quando fazemos essa pergunta a uma pessoa, ela responde, em primeiro lugar, seu nome, pois foi essa a primeira coisa que lhe deram. Mas essa pessoa não é só um nome. Certa vez, um homem chegou até Buda e lhe perguntou: “quem é você? Um profeta, um deus, um salvador? Quem é você, afinal?” Ele respondeu que não era nenhum deles, e afirmou: “Eu estou acordado!”

Pergunta – Esta é, na verdade, uma resposta conceitual, não é?

Monge Genshô – Sim.

Aluno – Desculpe, não entendi a resposta.

Monge Genshô – Ao dizer que está acordado, Buda afirma que não possui nenhum “eu”, que está livre de todas as ilusões, que isso tudo é um sonho. Estar acordado significa, portanto, estar livre dos sonhos.

Pergunta – Isso quer dizer que Buda entendeu sua essência?

Monte Genshô – Sim. E sua essência não é ele.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não existe efeito sem causa





Pergunta – Se o “eu” de fato não existe e a gente deve buscar eliminar o sofrimento, por que toda essa prática e não, simplesmente, acabar com a vida?

Monge Genshô – Acabar com a vida não resolve nenhum problema. O seu “eu” é provocado pelo carma, uma onda de energia no universo. Você surge porque existe carma atrás de você. Por isso essa manifestação, “você”. Não existiria você se não houvesse carma anterior, se não houvesse movimento anterior no universo. Houve movimento e esse movimento redunda em você, pois não existe efeito sem causa. Se você se mata nesta condição em que está agora, tudo o que vai conseguir é uma nova manifestação, com os mesmos problemas e alguns anexados, porque você cumpre um ato bastante egoísta se matando, pois seus pais, amigos, parentes serão impactados pelo seu ato e sofrerão. Além disso, tal atitude não soluciona nada; você só consegue repetir tudo. Existe a possibilidade do suicídio altruísta, para salvar outros por exemplo em situações limite, mas não é o caso que estamos examinando.

Existe um filme bem interessante, "O feitiço do tempo". O personagem central se vê preso ao mesmo dia, que se repete incessantemente. Todos os dias ele acorda e vive o mesmo dia com os mesmos acontecimentos, porém, só ele sabe disso. Depois de alguns dias, cansado, ele resolve se matar, e todas as vezes que ele se mata acorda novamente no mesmo dia. É um filme bem interessante que reflete a experiência humana. Nós repetimos vidas. A cada vida, há um novo “eu”. O pior de tudo, é que ninguém se lembra de suas vidas passadas. É como alguém que corta um dedo quando criança: apesar de ter feito isso de forma ignorante e inocente, a conseqüência fica com ele. Você não tem o dedo quando adulto porque uma vez, na infância, mesmo que sem querer, mesmo que não se lembre de como aconteceu, você cortou o dedo. O quer que você faça, o carma gerado gravará e manifestará em novas vidas, mesmo que você não lembre o porque de seus méritos ou deméritos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Porque as ideologias fracassaram

                               China impõe seu conceito de "felicidade" aos monges tibetanos



Pergunta – Esse “eu” a que o senhor está se referindo é, digamos, quem produz nossa personalidade humana, a parte humana material que existe dentro da gente, uma vez que ainda não atingimos a parte espiritual...

Monge Gensho – Esse “eu” é tudo isso. Tudo isso são atributos deste “eu”. Mas não existe um “eu” para atingir algo. Quando afirmamos: “Meu ‘eu’ vai atingir a espiritualidade”, também isso é um engano. É justamente por acreditar no meu “eu”, que não me tornarei espiritualizado. Esse é um erro até econômico, como vimos no século vinte, onde grandes ideologias surgiram tentando levar o homem a uma espécie de felicidade.

Inevitavelmente, todas as tentativas de criar felicidade através de um sistema ou de uma ideologia, fracassaram. Porque o que sempre vimos foi que quando um pequeno grupo de pessoas conseguia o poder e acumulava privilégios, ficando em melhor situação que os outros, este grupo começava a ter coisas que os outros não tinham. Essa é a historia dos nossos últimos cem anos. Esses grupos que tomavam o poder sempre degeneraram no uso de todos os artifícios possíveis para conservarem seu privilegiado status quo. Essa é a história dos sistemas de felicidade, não importando serem de direita ou de esquerda, ou de qualquer outra ideologia; não existe exceção. Só o que houve foi a criação de nomenclaturas, aristocracias, partidos únicos, partidos dominantes e ditadores cruéis, todos querendo manter o poder para seu grupo a qualquer custo, mesmo de corrupção. Essa é nossa história, porque os “eus” e o egoísmo superaram sempre todas as ideologias e sonhos. O budismo diz há dois mil e seiscentos anos que “a solução para a felicidade começa dentro do homem, e não fora dele”. Na verdade, qualquer sistema funcionaria maravilhosamente bem se não fosse o egoísmo.

A esse respeito, me foi enviada uma notícia muito interessante que falava de um grupo de idosos japoneses que se ofereceu para limpar Fukushima, que está radioativa. Como a radiação provocará câncer e morte em vinte anos, eles se ofereceram para limpar a cidade, pois morrerão, muito provavelmente, antes disso. Tenho dito desde aquele acontecimento do tsunami, que a influência do budismo no Japão transparece nos valores da sociedade. Foi essa larga influência que criou um comportamento diverso. Pessoas em fila, em ordem, sem tumultos, todos aceitando sua cota, sem saques ou roubos. Ao invés dos preços aumentarem nos mercados, os donos decidiram baixá-los para que todos pudessem adquirir alimentos e bens essenciais. Essa é a confirmação de que uma sociedade com menos egoísmo funciona melhor. Não importa qual seja o sistema, importam as atitudes individuais. Em outros países em que já aconteceram desastres semelhantes, a primeira coisa que ocorre são os saques, pessoas correndo com televisores nas costas, arrebentando vitrines e carregando o que podem. Ainda levaremos bastante tempo para educar estes povos.