sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Dharma em muitos lugares



Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.