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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nós somos o céu azul



Pergunta – Estava lendo em seu blog uma resposta que o senhor deu a uma pergunta sobre almas e espíritos, o senhor respondeu com uma metáfora sobre o redemoinho. O senhor poderia explicar um pouco melhor sobre isso?

Monge Genshô – Eu penso que essa metáfora seja muito boa. O redemoinho é movimento, é todo constituído de movimento, movimento do ar que cria o redemoinho, este movimenta a poeira e as coisas ao seu redor e só então você pode ver o redemoinho. Mas, no centro, no olho do redemoinho não existe movimento. Este centro é o eixo em torno do qual tudo gira. Mas o que é esse eixo, tão claro, tão nítido e evidente? Ele é vazio. Inclusive é vazio de movimento, no centro de um furacão não existe vento, não existe movimento. Usei essa metáfora para dizer que nosso eu, que tanto amamos e desejamos vida eterna é como um eixo de redemoinho, do furacão dizemos que tem um eixo, de nós que temos um “eu”, mas esse eu é todo construído pelo movimento, o movimento dos pensamentos. Esse “eu” que tanto acreditamos e queremos que sobreviva dentro de uma alma ou espirito permanente, nada mais é que o desejo de permanência de algo evidentemente fugaz. Nosso “eu” é fugaz. Não existe uma alma ou espírito que o sustente, é tão vazio quanto o eixo do furacão e, no entanto tem todo esse movimento de vida em seu entorno. Mas um dia ele cessa e para onde vai o eixo do redemoinho quando este para? Se vocês olharem para o céu, o ar está ali, nada mudou, sempre esteve ali. O redemoinho foi um movimento da atmosfera. O que precisamos enxergar em nossa verdadeira natureza é que somos atmosfera e não redemoinho, o redemoinho é só um acidente.

Pergunta – Fazendo uma analogia com o olho do furacão. Estaria no olho do furacão a budeidade já que lá permanece como atmosfera tranquila com todos seus elementos?

Monge Gesnhô – A natureza búdica de todos os seres é auto evidente, natureza livre e desperta de todos os seres como, na analogia, a atmosfera. A atmosfera pode manifestar quantos redemoinhos, furacões, ciclones, chuvas e trovoadas que desejar, mas depois que todos os fenômenos cessarem lá estará o céu azul. Nós somos o céu azul e não raios, trovões, furacões, chuvas ou redemoinhos. Se você enxergar essa verdadeira natureza, todo o medo da morte desaparecerá. A atmosfera é eterna o redemoinho é que é temporário. Somos muito maiores do que pensamos, quando pensamos pequeno, pensamos no nosso “eu” e esse “eu” nasce e morre. Se você conseguir enxergar isso com clareza todo o medo de morrer desaparece. Da mesma forma que na atmosfera sempre surgem trovões e redemoinhos, estamos sempre nos manifestando, nos manifestamos de acordo com nosso carma. Sei que é muito difícil de entender, mas assim é o budismo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Como as estrelas no céu de dia



Pode levar muito tempo para dispormos de tamanha força e determinação como Buddha teve. Quem não está aqui é porque não tem marca para estar aqui. Ele pode estar em outro lugar que lhe seja prazeroso. Esse final de semana eu estava em Concórdia realizando um zazenkai em um local muito bonito e no terreno ao lado me disseram que havia uma festa rave. Muitas pessoas não tem carma para estar em um retiro ou zazenkai mas sim em uma rave, podem ingerir vários tipos de drogas, escutar aquele som alto e alucinante e até mesmo arriscar-se a morrer em uma overdose. É por aquele tipo de situação sensual que ele sente-se atraído.

Para sentir-se atraído pelo Dharma é necessário certa marca que não é tão comum. Buddha disse que “os seres são como as estrelas no céu a noite, mas aqueles que procuram o Dharma são como as estrelas no céu de dia”. Quando sentamos como hoje, com dez pessoas aqui na comunidade, costuma-se dizer que é alto nível. Mais de dez pessoas no Zen já é grupo de prática forte. É muito difícil, não é? A pessoa vem e dizemos que para ouvir uma palestra ela tem primeiro que sentar por quarenta minutos de frente para uma parede. É um pequeno teste, porque muitos não retornam por causa do esforço que é pedido, nos tempos antigos para encontrar um professor você tinha que subir montanhas a pé, esperar pacientemente que ele achasse que você merecia sua atenção, não admira que aparecessem alunos excepcionais.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Por quê atraídos?



Pergunta – Uma coisa muito difícil de eu entender é a questão do carma. Eu já andei por alguns caminhos de busca espiritual e finalmente, no Zen, eu encontrei um local de paz, um local que eu posso chamar de casa, minha pergunta é por que algumas pessoas encontraram, assim como eu, esse local e outras não? Por que alguns percebem e outros não?

Monge Genshô – As pessoas recebem o que procuram. Você se sente atraída por esse local, sentiu-se atraída pelo Dharma e pelo budismo e veio até aqui. Você ouve as palavras, as palestras e aquilo parece exatamente o que você queria ouvir. É como se fosse uma lembrança antiga, como se você tivesse chegado em casa e essa sensação é porque existe em você uma marca cármica anterior. No passado, muito provávelmente em outra vida, você ouviu o Dharma e por isso ele lhe é familiar. Você perguntou por que algumas pessoas sentem-se atraídas e outras não? Algumas vem, ficam por um tempo depois vão embora, isso é bastante natural, porque para treinar por longo tempo é necessário marca cármica forte e uma grande vontade.

As escrituras antigas dizem assim, “treinar como se seus cabelos estivessem pegando fogo”. Ou seja, com desespero pelo despertar, como foi o caso de Buda, ele desesperadamente queria encontrar a resposta, então treinou duramente para isso. As histórias dos mestres antigos são as mesmas, longo tempo de procura e treinamento duro, árduo. Por que você não desiste? Porque cria uma marca cármica profunda que faz você persistir na busca. Se essa marca não fosse suficientemente forte você ficaria um pouco e iria embora, mesmo assim a semente fica e em outra vida se manifestará. Mas isso poderá levar muito tempo. Como Buda falou, “Em outra vida quando eu ainda era um bodhisatva...”. Existe uma historia mítica que diz assim, “um Buda do passado vinha caminhando e havia uma poça de lama, então um jovem atirou-se na poça, curvou-se e colocou as mãos para cima, de forma que o Buda pôde pisar sobre suas mãos e costas e atravessar a poça, então se virou para o jovem e disse, daqui a quinhentas vidas você será um Buda”. Esse jovem era Shakyamuni Buda. Há quinhentos anos ele já era capaz de jogar-se aos pés de uma pessoa para ajuda-la a atravessar uma poça, mesmo assim levou quinhentas vidas como bodhisatva. Assim nasceu a prostração budista com as palmas para cima afim de receber os passos de Buda.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Atravessar o primeiro portal



O portal a nossa frente começa, assim, a abrir-se. Uma pequena fresta poderá nos mostrar a luz do outro lado da porta, nossa intenção é atravessar o portal, mas só o faremos se o merecermos. Não existe um ritual, uma roupa ou mestre que possa abrir o portal para você. Só você pode passar o portal. E esse portal implica não em um engrandecimento pessoal, mas em um apagar da consciência pessoal para integrar-se à dimensão suprema. Para enxergar a dimensão suprema. O resultado disso é abandonar toda a dimensão histórica, quem perde a dimensão histórica e penetra na dimensão suprema não nasce nem morre mais, porque ele engoliu a eternidade.

Pergunta – Me veio a mente a famosa frase de Descartes, “Penso, logo existo”, o senhor poderia falar um pouco sobre essa frase sob o ponto de vista budista?

Monge Genshô – Esse é na verdade o erro de Descartes. “Cogito, ergo sum”. Assim ele começa seu Discurso do Método. Descartes queria transformar tudo em plena lógica e raciocínio. Então à pergunta, “como sei que existo?”, ele responde, “penso, logo existo”. Do ponto de vista do Zen a frase estaria mais correta dessa forma, “penso, logo, penso”, apenas porque penso, a única coisa que posso dizer de quem pensa é que pensa, do ponto de vista do Zen, porque ele pensa ele pensa que existe, a frase de Descartes cristaliza a ilusão. Ele não percebeu que pensar é que constrói a noção de um eu. Porque eu percebo ouço e vejo, porque eu penso, então eu acredito em mim. Essa é nossa verdadeira tragédia. Porque ao fazer isso e acreditarmos em nós mesmos, perdemos a dimensão suprema, porque acreditarmos em nós mesmos é a perdição do homem. Ela está oculta em muitos mitos e metáforas. Na tradição judaico-cristã o homem come, no paraíso, do fruto de uma árvore. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesse mito a metáfora é que para o homem perder-se do paraíso ele toma consciência da dualidade e começa a pensar, porque o pensamento é dual, é dessa forma que ele funciona, bem e mal, certo e errado, gosto e não gosto, direita e esquerda, toda nossa linguagem é construída dessa forma, em pares de opostos.

Quando o homem começa a mergulhar nessa questão, ele deixa de ser o Adão do Éden, é expulso do paraíso e para que não retorne é colocado um anjo na porta com uma espada flamejante. Por que ele não pode ficar? Porque ele começou a pensar a dualidade. Tornou-se, como diz o Gênesis, como os deuses, conhecedor do bem e do mal. Na mitologia Budista os deuses estão perdidos, os deuses não estão libertos, eles acreditam em si mesmos. Alguns se crêem tão poderosos que acreditam que criaram mundos. Nessa dimensão tudo passa pela ilusão de acreditar em sua separação e perder-se da dimensão suprema. A libertação é retornar, abandonar o pensamento dual, o raciocínio, a distinção, bem e mal, gosto e não gosto e retornar para a dimensão suprema.

(Final da palestra em sesshin de 7 de setembro 2012, realizada pelo Rev. Genshô e decupada da gravação por Chudo San.)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Monge Tokuda - Igarashi Roshi



Monge Tokuda, hoje Igarashi Roshi, foi quem me apresentou o Dharma 40 anos atrás, realizou extenso trabalho de difusão no Brasil fundando numerosos centros. Todos nós que o conhecemos nestes tempos guardamos enorme gratidão por seu ensinamento. Abaixo um trecho de palestra sua que mostra sua abordagem integradora do ocidente com o oriente:


"Nós precisamos mergulhar para nos encontrarmos conosco mesmo, naquela noite escura do espírito. Quando uma pessoa quer ter aquela experiência religiosa, ela precisa ter uma preparação. Rezar, afastar-se dos demais e começar a meditar em silêncio. Dentro de qualquer religião nós podemos encontrar aquele silêncio bem profundo, através deste silêncio é que começamos a nos preparar para uma purificação, para poder chegar até aquele estado místico. Como disse São João da Cruz: a noite dos sentidos, a noite do espírito, a noite da alma. Através desta viagem interna começamos a nos afastar do mundo exterior e começamos a trabalhar sobre o mundo interior, mergulhando, mergulhando dentro da nossa subconsciência, da inconsciência. Quando chegar ao fundo desta escuridão, há aquela união com Deus, com o amor. Para esta experiência, a escola Zen coloca uma palavra, a Iluminação, o satori.

 Este estado, um mestre o expressou da seguinte maneira: numa noite escura, quando escuto a voz do corvo sem cantar, tenho saudades do meu pai antes que eu tivesse nascido. Este verso mostra aquele encontro no fundo com o verdadeiro eu, a união com Deus. Numa noite escura, totalmente escura, não dá para ver nada, escuto a voz do corvo sem que este cante. O corvo é um pássaro preto, dentro da escuridão não se vê nada e ainda por cima, ele está sem cantar. E quando escuto a voz do corvo sem que ele cante, tenho saudades do meu pai antes que eu tivesse nascido. Pai é masculino, não tem aquela força de fazer nascer, só a mulher é que pode fazer isto. Mas quando escuto a voz do corvo sem que este cante, tenho saudades do meu pai. Esta experiência é muito especial, é uma coisa sagrada, uma coisa para nós seres humanos. 

Nos discursos de grandes místicos cristãos, podemos encontrar vários tipos de expressões parecidas. Eles falam sobre essa dificuldade de expressão: inefabilidade, difícil de expressar com palavras. Mas quando há aquela experiência, aquela felicidade, aquela alegria, a pessoa não pode manter-se calada, tem que procurar transmitir aquilo para os outros. O estado do êxtase, a dificuldade de expressão é momentânea, mas é muito forte e muito marcante, e, mesmo assim, os sábios não ficaram calados e sempre começaram a falar para outras pessoas; felizmente isto foi transmitido até hoje através de seus sermões e atos.  ( Trecho de palestra de Monge Tokuda)"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Buscando a experiência



Não há movimento em nós, não precisa existir, se pararmos esse movimento e apenas refletirmos, o que não significa não pensar, mas sim estar além do pensar e não pensar, então refletiremos a dimensão suprema. Esquecendo de nós mesmos, mergulhando na dimensão suprema, nós seremos o próprio universo, entenderemos a natureza dos deuses, seremos indestinguíveis dos deuses porque, ao morrermos para nós, permitiremos que a dimensão suprema se manifeste.

É essa nossa tarefa no sesshin, por isso não desperdice o sesshin com palavras vãs ou pensamentos tolos, não permitam que sua mente critique e julgue, não interprete, aceite tudo como vem, como vai acontecendo, cada um está sozinho no sesshin, o professor não pretende arrastar carismaticamente nem liderar as pessoas. A ambição do Zen é libertar. Libertar-nos de nossa própria ilusão. Toda a técnica e o ambiente do Zen foi concebida dessa forma, para estarmos conscientes dos momentos presentes, calarmos nossos pensamentos e aprendermos profundamente sobre nós mesmos.

Todos somos iniciantes, também sento e me vem pensamentos, deixe-os passar isto nunca cessará completamente. O que precisamos é de experiência de momentos de dimensão suprema. Dessa forma sentamos e lutamos para ter lapsos de dimensão suprema, para enxergamos a dimensão suprema, esquecermos de nós mesmos, se tivermos lapsos de dimensão suprema não precisamos de fé alguma, e ninguém precisará acreditar no Budismo, pois trata-se de uma experiência, simplesmente sente e experimente, se você vir um lapso da dimensão suprema você saberá que ela existe e assim poderá aprofundar essa experiência, fazendo com que seja mais prolongada através do treinamento, da insistência e da prática continuada, então, em vez de segundos, você terá centenas de segundos, minutos. Até que um longo samadhi se estabeleça.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Surgindo e desaparecendo



Hoje andamos na praia e vimos os restos de conchas, milhões de restos de conchas. Andamos em cima deles ouvindo-os crepitarem. Alguém se entristeceu pelas mortes dos habitantes das conchas? Não, porque sabemos que surgem constantemente moluscos que habitam as conchas, quando morrem seus restos chegarão à praia e viram parte integrante da areia, é o fluxo normal desse mundo, sempre surgindo e desaparecendo, mas o que está atrás é a dimensão suprema, resta que olhemos para nós mesmos e percebamos que esta noção de eu que nós temos, que surge quando estamos sentados em zazen ( meditação zen) através do fluxo dos pensamentos, é pura ilusão, um sonho, e por estarmos sonhando o sonho de nossos pensamentos, sonhamos uma existência particular. Mergulhados nesse sonho tão nítido deixamos de perceber nossa dimensão suprema e nossa dimensão suprema é como a dos moluscos, dos ventos e das ondas, sempre surgindo e desaparecendo, não há nenhum eu nela.

Nós não existimos por nós mesmos, também somos movimento, se percebermos que somos movimentos, treinamos sentados em zazen não cogitar mais, parar esse fluxo e refletir o universo em volta com a perfeição de um espelho que não critica ou julga, que não pensa “o que surge na minha frente é bonito ou feio”, o espelho somente reflete sem nenhuma consideração. Sentados em zazen, sem qualquer consideração, ouvimos o pássaro cantar e refletimos, nós somos este fenômeno.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dimensão histórica, dimensão suprema



Todos nós assim como as ondas, os ventos e as xícaras somos surgimentos e manifestações na dimensão suprema. Todos temos uma dimensão histórica. A onda surge e desaparece, tem um antes e um depois. O vento, a xícara e nós homens também. Nossa tragédia e nosso sofrimento é que não vemos nossa dimensão suprema. Olhamos para a dimensão histórica e pensamos que ela é tudo que existe. Pensamos que uma pessoa nasce e morre, surge e desaparece, e nos entristecemos ou nos alegramos. Mas quando olhamos os outros fenômenos da natureza, aos quais não somos tão ligados, e vemos que surgem e desaparecem, que são uma manifestação contínua e infindável de surgimentos e desparecimentos, então aí, vemos a dimensão suprema.

Vemos a dimensão suprema do mar, surgem e desaparecem as ondas, não nos alegramos nem nos entristecemos porque sabemos que o mar se manifesta desta forma. Esse ano vemos as baleias no mar aí em frente, no ano que vem novamente estarão aqui, até que as baleias ou a Terra desapareçam. Surgirão todos os anos. É a mesma baleia? Não sabemos. Sabendo que existem e surgem baleias não nos preocupamos se é a mesma baleia ou não. Apenas vemos seu espetáculo. Mesmo que elas em si tenham uma dimensão histórica nós as vemos como quem vê a dimensão suprema.

Olhamos para o mar como quem vê a dimensão suprema. O que falta é olharmos para nós mesmos é vermos a manifestação, que somos também a dimensão suprema. Se olharmos para os homens e virmos a dimensão suprema, perceberemos que eles não nascem nem morrem, não surgem nem desaparecem. Nós somos a própria dimensão suprema, livres de nascimento e morte. Se enxergarmos a dimensão suprema na nossa própria vida e em toda a vida humana, toda a angústia existencial desaparecerá como por encanto. Estamos apenas brincando de surgir e desaparecer. É como se fossemos participantes de um grande jogo do universo, um jogo de esconde-esconde.

(continua)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A xícara existe por si mesma?

         Xícaras com arte de Claudio Miklos (Monge Kômyô) Disponíveis em www.daissen.org.br

A nossa maior dificuldade é perceber que nosso eu é construído completamente, nossas infelicidades são construídas por nossos pensamentos. Sobre o passado por arrependimento e por memórias, ou sobre o futuro por imaginações, expectativas e ambições. Nós construímos um eu e suas infelicidades e angústias com esses pensamentos. Se conseguirmos jogar fora todos eles e sentarmos aqui e esquecermos, penetraremos na dimensão suprema. A dimensão suprema mostra que todas as coisas surgem dela e nenhuma tem um eu ou uma existência própria. Tudo que julgamos como um eu ou existência própria é atribuído, não é verdadeiro.

Essa xícara foi construída com barro, forma e cozida num forno. Tornou-se uma xícara. Nós olhamos para ela e a chamamos de xícara. Ela funciona no mundo e contem chá. Mas a xícara ela existe por si mesma? Não. Para que ela seja uma xícara é necessário que haja barro, oleiro, forno, esmalte e mais do que isso é necessário um ser que olhe para ela, veja sua utilidade e diga “xícara”. Esse que olha para ela enxerga sua utilidade de conter o chá, que a chama de xícara é quem faz com que ela tenha uma identidade.

Nós, de forma muito mais complexa, também somos assim. Surgimos da dimensão suprema e como manifestações da dimensão suprema. Então nos manifestamos nesse mundo de forma histórica e temporária. Voltando a analogia da onda e do vento. Estes fenômenos surgem no ar ou na água e não existem por si mesmos, são manifestações. Nós que acreditamos em nós mesmos, na nossa consciência e em nosso eu, somos manifestações dessa consolidação de pensamentos, confundimos o fluxo dos nossos pensamentos como uma identidade separada. Confundimos esse fluxo com um eu. A xícara parece um ser separado e existente por si mesmo, dizemos xícara e somos capazes de nos entristecer se ela cair no chão e quebrar. Se for antiga e tiver pertencido a nossa avó e tivermos atribuído a ela um determinado significado, ficaremos entristecidos ao vê-la quebrar. Mas onde existe a xícara? Só na nossa memória e mente ela pertenceu a nossa avó. Só no nosso aprendizado do que é uma xícara ela tornou-se uma xícara. Só por a concebermos como receptáculo é que ela é uma xícara. Para um ser primitivo que jamais viu uma xícara ela não seria nada. Se eu der a xícara para minha cadela, ela pensará que é um brinquedo, morderá, e se conseguir quebrá-la, pegará seus cacos e espalhará pelo jardim, porque para ela uma xícara não é uma xícara. A xícara só existe na mente de quem a entende como receptáculo, e olha para ela e a transforma com sua percepção e mente. É fácil entendermos isso sobre a xícara, mas difícil entendermos isso sobre os outros seres.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A construção do "Eu sou"



O tema de nossa palestra é A Dimensão Suprema. Gostaria de repetir mais profundamente algumas palavras que disse quando estávamos iniciando o sesshin. Uma onda não existe por si mesma, não tem um eu próprio. Uma onda não existe por si mesma porque ela é movimento na água. O vento também não existe por si mesmo. O vento é um movimento do ar. O vento movimenta a água. Nossa mente, nosso eu, também não existe por si mesmo. Nossa mente e nossa consciência são movimentos de nossos pensamentos. Porque existem pensamentos, percepções e formações mentais, existe consciência. Nossa consciência, que confundimos com nosso eu, é o movimento de nossos pensamentos. Tal como a onda que é um movimento na água, interdependente, que não existe por si mesma e que precisa da água para existir, tal como o vento, que é um movimento do ar, interdependente, que não existe por si mesmo e necessita do ar para existir, nossa mente precisa dos nossos pensamentos, percepções e formações mentais para formar uma consciência de si mesma, e aí diz “Eu sou”. Então nós não existimos por nós mesmos. Somos o resultado de um movimento, que é o movimento de nossos pensamentos. Somos profundamente agarrados a essa percepção, completamente ancorados nela.

Estamos aqui para olhar para a verdadeira dimensão dessa percepção. Sentamos em meditação e vemos a turbulência de nossa mente, pensamentos que se apresentam um após o outro. Mesmo que o professor diga, “sentem em zazen, voltem para cá, para o momento presente, ouçam o som do mar, os pássaros, janelas batendo, um espirro, ouçam o que está acontecendo, esqueçam suas considerações e julgamentos, não cogitem sobre o passado, não pensem sobre o futuro, não se angustiem por um futuro que ainda não existe, não criem imaginações sobre coisas do amanhã, isso que nos dá ansiedade e angústia, insegurança, pode ser completamente diferente do que imaginamos, amanhã pode acontecer um evento que mude tudo em nossa vida. Para o bem ou o mal você não sabe, até porque mesmo essa divisão entre bem e mal não passa de pensamento. Você não sabe, não pode classificar se é bom ou ruim.” Se não imaginamos um futuro que ainda não existe e não elaboramos sobre um passado que já se foi e ficamos aqui com uma mente atenta plenamente ao momento presente, buscamos essa experiência, então, nessa experiência nós esvaziamos as cogitações desse eu construído.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ninguém para enganar



Desde que você transforme sua mente, não há ninguém para enganar. No Zen você vai enganar a parede? Vai enganar o professor com suas palavras? Nem nos importamos muito com o que um aluno diz. Nós olhamos suas costas, observamos como toma chá, como trabalha, como fala e como responde. Ele produz harmonia na Sangha? É cuidadoso? Isso é que mostra quem a pessoa realmente é, e não o que ela diz ser. Quando fazemos um retiro temos a oportunidade de praticar a essência do Zen, sem palavras, sem comentários, sem brigas nem discussões.

Os conflitos nas sanghas surgem quando as pessoas resolvem tecer comentários, julgamentos e opiniões. O retiro é uma ótima oportunidade para mergulhar em si mesmo e fazer descobertas espirituais internas. Essa é a verdadeira experiência mística. Depois de experimentar vemos que não é tão difícil ficar quarenta minutos em silêncio. Será que é difícil ficar oito horas por dia assim? É porque cada vez mais você vai mais fundo dentro de sua mente que tudo que estava escondido surge. Um retiro pode valer por uns três anos de prática. Não existe ninguém para enganar. É só você e a parede. Não usamos palavras, usamos a própria experiência.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sonhos



Pergunta – Gostaria que o senhor comentasse um pouco sobre os sonhos. Como e se os sonhos podem ser usados como uma ferramenta. Desculpe se não tem muito a ver com o assunto abordado hoje.

Monge Genshô – Como que não tem a ver? Os sonhos são produzidos pelos conteúdos de nossa mente, cheios de simbolismos muito explicados pela psicanálise. Mas nada muda com relação ao que os budistas e os mestres já haviam analisado há muito tempo sobre os sonhos. Nas experiências meditativas temos muitas experiências com sonhos. Já tive a experiência de passar a noite acordado em meditação sem dormir. No fim você só consegue sentar por quinze minutos, levanta, anda um pouco, senta novamente por mais quinze minutos. E as vezes quando sentado você instantaneamente sonha. Abre os olhos para voltar ao momento presente, fecha os olhos e novamente sonha. O cansaço é muito forte.

Essa não é uma prática do Soto Zen. É uma prática da Escola Son (zen coreano). Muitas vezes os sonhos podem nos dar respostas porque usam a linguagem do inconsciente. Sentado em Zazen você entra em frequências cerebrais que pertencem aos sonhos de modo que consciente e inconsciente se misturam e você tem acesso à profundidade de sua mente. Os sonhos são provocados com aquilo com que você alimenta sua mente. Se você tem medo de perder seus filhos, poderá sonhar que eles são sequestrados ou com sua morte. Se tem medo de ser roubado, sonha com roubo. Tem desejos sensuais, sonhará com eles. Tudo que você possui dentro de você aparece livremente nos sonhos. O que devemos fazer? Apenas observa-los e reconhecer que é dessa forma. Sem culpas ou remorsos, apenas reconhecer que tem medo, raiva, desejos, que é como todos os outros seres humanos.

Posso mudar os sonhos? Claro. Se você pratica o Dharma e fala dele, você acaba sonhando com o Dharma. Já tive muitos sonhos com o Dharma e acordei extremamente feliz. No sonho eu agi como eu penso que se deva agir. No momento do conflito fui pacificador. No momento da morte fui tranquilo e feliz. Que maravilha, se você tem  um sonho Dharmico, sua prática está funcionando!Se você tiver absoluta e plena liberdade seu sonho será o próprio paraíso.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Mitos sobre o expressar e sobre os mestres



Pergunta – Me intriga essa questão...O senhor deu o exemplo da internet, dos meios de comunicação, que são um canal para esse tipo de abertura...Sempre pensei que o que fica trancado, proibido, um dia aparece. O melhor exercício seria sofrer as conseqüências do ato de falar. Me parece que essa possibilidade de expressar é positiva...

Monge Genshô – É uma excelente pergunta. Existe uma escola psicológica que diz que se você não se expressar isso fica guardado dentro de você e isso lhe fará mal. Do ponto de vista budista essa escola está errada. Se você tiver raiva, e expressar essa raiva, ele não diminuirá, quando você a expressa e fala sobre ela você a alimenta, coloca energia nela e com isso ela torna-se mais forte.

Podem observar as pessoas que começam a discutir. Um diz uma coisa, o outro diz outra, o primeiro retruca. Não é a lei da ação e reação, que diz que a cada ação corresponde uma reação de igual força e sentido contrário. Isso nos relacionamentos humanos não funciona. Nos relacionamentos a cada ação corresponde uma reação duplicada, triplicada, quadriplicada, etc. todos sabemos que é assim, todos nós já discutimos.

Experimente quando alguém começar a lhe insultar, não dizer nada, ou melhor, experimente dizer, por favor, fale mais, que preciso mesmo escutar isso tudo. Se não for alimentada com oposição, os cartuchos acabam. Todo mundo tem experiência de família e sabe instintivamente que isso é verdade. Difícil é ficar quieto, não responder. Mas a melhor maneira de retirar a força de uma discussão é não se opor.

Eu posso falar enfaticamente, não é verdade que colocar para fora é bom. Em termos de relacionamento humano o melhor seria você ir até o fundo de uma floresta e insultasse as pedras, as árvores e esvaziar-se...Mas em lugar de você esvaziar-se, do ponto de vista budista, seria ainda melhor você sentar e imaginar a situação e a transformar numa situação de amor, afeto, perdão e compaixão. Deveríamos pensar, “isso não é assim, não é proposital, há um motivo para as pessoas agirem dessa forma, essa pessoa fez muitas coisas no passado que a levam a agir dessa forma comigo hoje, mas eu não devo alimentar”.

Os professores do dharma sofrem com isso freqüentemente. É frequente em conversas entre professores descobrirmos que todos temos os mesmos problemas com alunos que o veneram em um momento e no momento seguinte se transformam em seu maior inimigo. Isso acontece porque existe uma idealização do professor como um homem perfeito, um ser maravilhoso em seu manto de monge, cheio de sabedoria. Eles o julgam sem defeitos, choram em sua frente emocionados.

Mas a sua primeira falta real ou imaginária, tomados por sentimentos de desilusão e raiva, muitas vezes tentarão voltar toda a comunidade contra o professor, dizendo que ele não era o ser perfeito que todos imaginavam. O problema está justamente aí, o ser perfeito estava em sua mente.

Diferentes escolas têm diferentes atitudes. Nas escolas tibetanas há um ditado que diz, “More dois vales distantes de seu mestre”. Na escola Zen o professor senta no mesmo nível dos alunos, não senta em um trono. Cada vez que um aluno o procura dizendo sentir raiva e perder a paciência frequentemente, ele responde que também tem os mesmos sentimentos. Os problemas de todas as pessoas também estão presentes na vida do professor, ele também é homem. É um milagre que ele consiga andar mais ou menos reto. É uma coisa maravilhosa que minha esposa consiga sentar ao meu lado para ouvir palestras e praticar zazen. Ninguém no mundo me conhece mais profundamente do que ela. Ela sabe quando fico irritado, quando perco a paciência, sabe de minhas dores, ela está comigo há muitos anos. Ela sabe o quão humano eu sou. O fato de ela vir praticar sabendo de tudo é realmente maravilhoso.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Comunidades e identidades



As pessoas olham as comunidades religiosas e ficam admiradas que ali existam divisões e luta pelo poder, ciúme e fofocas. Mas todos que procuram as comunidades religiosas são doentes. Ao chegar à uma comunidade pensa-se que tudo é maravilhoso, muitos vêem um mundo maravilhoso, mas é um mundo de pessoas comuns. Se formos até um hospital, seria tolo lermos “Casa de Saúde” e ao entrarmos estranharmos vermos muitas pessoas doentes e perguntar: - Como nesse lugar onde existem tantos médicos as pessoas adoecem? Todos que procuram a prática espiritual procuram por alguma inquietação. Se existe inquietação e angústia existencial é porque dentro de nós as coisas não são tão boas assim.

Na semana da pátria teremos um retiro. Considero “pátria” um grande engano. Quando pensamos em pátria, terra dos pais, nos distinguimos dos outros. Nós brasileiros nos distinguimos dos argentinos, uruguaios e bolivianos. Se não tivéssemos pátria não teríamos necessidade de exércitos, não gastaríamos tanto dinheiro em máquinas de guerra. Eu tenho uma experiência sobre isso. Na copa do mundo de futebol na França eu estava em Paris e uns amigos me convenceram a colocar uma camiseta da seleção brasileira. Fomos à um restaurante e assistimos o jogo no meio dos franceses. No final do jogo fomos muito bem tratados pelos franceses. O dono do restaurante não nos deixou pagar a conta e nos diziam que éramos o povo mais maravilhoso do mundo. O metrô não funcionava e tivemos que ir andando até o hotel. Ninguém havia nos insultado, até encontrarmos um grupo de argentinos. Eles iam atrás de nós gritando, “vocês voltarão a pé até a América do Sul”. Nesse momento foi possível sentir nitidamente o que é ter uma pátria. Mas essas sementes foram plantadas em nós por quem? Quem nos convenceu que somos brasileiros? Quem nos convenceu que somos árabes, cristãos ou xiitas? As sementes foram plantadas com ensinamentos, cultura e coisas que nos disseram. Depois, como ficamos permeados, "vachana", impregnados dessas informações, pequenos eventos podem fazer brotar as sementes do carma e estas tolas identidades nacionais.

Isso é o carma, por isso um mau ato pode não florescer nessa vida, pode não germinar, um homem que fez coisas ruins nessa vida pode morrer bem, mas isso não significa que a semente desapareceu. Isso responde a pergunta das pessoas que vêem uma pessoa jovem sofrer e não entendem. São as sementes germinando. Se queremos que o mundo e nossas vidas, nossa continuação seja boa, temos que cuidar muito com o que nos impregnamos e que sementes criamos dentro de nós, porque elas germinarão se houver condições propícias. E nós que sabemos que temos sementes más dentro de nós temos que tomar muito cuidado para evitar que elas germinem. É simples assim.

(devido ao retiro de carnaval o blog só retornará dia 12/2/2013)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sementes e crenças

                         Thomas Merton, monge trapista e o Dalai Lama monge budista

Voltando às sementes dentro de nós. Temos sementes adormecidas de tudo, potencial assassino, potencial para o ódio, potencial para a raiva, ambição desmedida, potencial avarento, todas as maldades do mundo estão dentro de nós. Costumamos pensar que somos bons. Dia destes vi uma declaração no facebook, que uso como instrumento para espalhar textos do Dharma, que dizia mais ou menos assim, “Eu queria que o mundo fosse como as pessoas do facebook, em todos os perfis as pessoas dizem que amam os animais, detestam a falsidade, amam a verdade, a honestidade, detestam a corrupção, é um mundo de pessoas maravilhosas”. Se o mundo fosse formado pelas pessoas que postam mensagens no facebook, seria um mundo perfeito. Pelo menos até lermos os comentários... Eu li uma vez sobre uma radio na Itália há alguns anos, que se propôs para o horror e vergonha do país, a permitir, por trinta dias, que todos os comentários e criticas feitos por telefone fossem divulgados ao vivo. Apareceram todo tipo de preconceito, racismo, ódio, insultos, palavrões... os sentimentos mais baixos dos seres humanos, todos expostos por todas as classes sociais e diferentes tipos de pessoas.

Hoje podemos ver isso na internet. Sem a censura, nos comentários, todos podem dizer o que pensam, surge a alma humana exposta. Na melhor hipótese, desde que sabemos que existem essas sementes e pensamentos dentro das pessoas, seria melhor que eles não fossem expressos, melhor que não fossem ditos, porque quando são ditos é como colocar água na semente, elas se tornam mais fortes, outras pessoas lêem e pensam a mesma coisa. Quando esse meu amigo falou sobre o ódio no Oriente Médio e, é claro ele pertencia a uma das facções, eu lhe escrevi dizendo que não era dessa forma que se deveria pensar, a questão era que enquanto as pessoas pensarem que existem Alauítas, Cristãos, Sunitas, Xiitas etc., enquanto eles acreditarem na diferença haverá luta e oposição. Se amanhã todos perdessem a memória, se cada um de cada grupo esquecesse tudo, olhariam uns para os outros e veriam que são todos iguais, semelhantes, habitantes da mesma região, comem o mesmo tipo de comida, falam línguas parecidas, a paz surgiria no mesmo instante. Nada saberiam de religiões passadas nem de identidades nacionais. Seria um único e grande país.

Deste modo vemos que as sementes são criadas pelo fenômeno da energia do hábito, da repetição e da crença. Se acreditarmos numa determinada diferença ela se consolida, como uma semente. As sementes estão dentro de todos nós. Boas e más sementes. Quando dizemos a prática do Zen, “a prática” significa regar as boas sementes e deixar as más sem água, sem terra fértil, de modo que não consigam germinar. Por tanto tempo, que fiquem esquecidas, de maneira que seja muito difícil faze-las despertar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

As sementes do carma



Um dos melhores símiles a respeito de como o carma funciona é a símile da semente. A palavra em sânscrito para impregnar e permear é Vachana. Imaginemos como se faz um chá de jasmim. Colocamos flores de jasmim dentro de uma caixa misturado com folhas de chá, e deixamos durante semanas. Desta forma o perfume do jasmim impregna as folhas de chá e quando vamos tomar o chá ele possui perfume de jasmim. Quando cultivamos energia de hábito, esses hábitos integram a nossa vida e impregnam sementes, essas sementes dentro de nós ficam aguardando o momento propício para despertar.

Nós temos sementes de todas as nossas existências ou existências de toda a humanidade, não importa, não importa muito o que pensamos a esse respeito, o que importa é que dentro de nós existem sementes guardadas prontas para despertar. Existem dentro de cada um de nós, sementes de raiva e sequer imaginamos isso. Habituamo-nos a praticar bondade, cultivar pensamentos de compaixão, amorosidade, perdão. Mas um dia alguém vai lá e diz a palavra certa. Muitas vezes as pessoas com quem se convive muito, a família, os cônjuges, aprendem exatamente o que fere. E nesse momento em que a palavra certa é dita, a raiva explode, surge. E pensávamos que estava adormecida, estava, mas era como uma semente em uma terra seca que ao colocarmos água brota. Quanto mais água e adubo colocarmos, quanto mais cuidarmos da semente, mais a arvore cresce, fica forte e poderosa.

As sementes da raiva são consideradas no budismo como as piores, o pior veneno da mente. Quando ela desperta pode destruir o mundo em sua volta. Como vemos no oriente médio hoje em dia. Cultivamos muitas sementes de raiva, ódio e diferença. Dia destes um amigo me escreveu, “Por que os judeus são isso e aquilo outro, os árabes, sunitas e alauítas, vivem brigando por que uns invadem as terras dos outros e etc”. na Síria hoje (2012) nós temos alauítas, sunitas e cristãos e todos tem medo uns dos outros, e esse medo faz com que nenhum deseje que o outro assuma o poder. Esse medo gera uma guerra civil. Matam. Isso cria raiva, ressentimento, ódio. Mais medo. Mais raiva, mais ressentimento e mais ódio. E isso não tem fim, só cresce. E nos perguntamos como podem há tantos séculos estarem brigando? Esse ódio vai sendo passado de geração em geração, onde são narrados os casos de assassinatos dos avós, irmãos, tios e pais, construindo assim uma mente vingativa. Como a única maneira de resolver as coisas que eles enxergam é através da vingança e da vitória final com a aniquilação dos oponentes, e como essa aniquilação nunca é conseguida, o ódio e a raiva nunca tem fim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vendo sua verdadeira natureza



Pergunta – O senhor disse que o primeiro passo é a virtude, sendo o caminho os preceitos, que o caminho para o segundo passo ( a compassividade) é o zazen e para o terceiro passo (a não dualidade) é o zazen de uma forma mais profunda. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso?

Monge Genshô – A medida que nos aprofundamos no zazen, e vamos mais fundo na nossa compreensão, ultrapassamos a noção de eu e os outros, eu e o universo e vai chegar um momento em que tudo se dissolve. Quando o eu puder ser abandonado, mesmo que por alguns momentos, você experimentará o que é não dualidade e esse será um momento de kenshô (ken = ver, sho= verdadeira natureza), um momento iluminado. 
Na medida que você conseguir ter mais experiências como essa, talvez um dia você consiga obter o domínio sobre esse tipo de experiência, isso seria o satori ( a iluminação), você será proprietário da experiência da não dualidade e pode chamá-la a qualquer momento. Não significa que você fica transitando nesse mundo sem um eu, porque precisamos de um eu para fazer as coisas, para falar, trabalhar, agir. Mas para obter a iluminação você precisa ser capaz de descartá-lo a qualquer momento da mesma forma que você tira uma camisa. Você precisa da camisa, mas você não é a camisa. Você precisa de seu eu mas você não é seu eu. Perceba que a vida diária é pura dualidade.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Não desista



Pergunta - Então a dor na perna é um fenômeno?

Monge Genshô – Sim. Você também não achará nada que esteja fora da vacuidade. Nenhum fenômeno está fora da vacuidade. Todos os fenômenos são a própria vacuidade.

Pergunta - Mas então Buda deixou de ser fenômeno quando ele se iluminou?


Monge Genshô – Quando ele se iluminou, deixou de ter um eu e por isso não gerava novo carma para si mesmo. Porque para gerar carma você precisa ter uma identidade a qual o carma possa aderir.

Pergunta – Existe um senso comum para eu parar o zazen, uma vez que não esteja suportando a dor física e o desconforto, ou nesse momento sou eu só, só eu determino?

Monge Genshô – Não podemos abandonar nossos companheiros, todos estão sofrendo. Você pode mudar de posição, pode pegar uma cadeira, apenas não podemos deixar nossos companheiros, pois nós os abandonaríamos e eles estão pensando a mesma coisa, “Não suporto mais”. Todo mundo pensa, “ninguém pode estar sofrendo mais que eu, porque se estiver sofrendo um pouco mais que eu ele iria embora, tenho certeza que meu sofrimento é o maior de todos”. Você pode estar certo, minhas pernas estão doendo, mas como sou o professor não posso sentar mais confortavelmente, tenho que ficar sentado corretamente para que vocês sintam mais força. Então se você não suporta, troque de posição, apenas não abandone seu companheiro do lado. Desertar é o pior dos crimes, porque todos os outros serão atingidos, por isso fazemos tudo juntos e não podemos faltar a nenhum zazen no retiro. 

 Uma pessoa foi embora, mas ela teve uma crise hipertensiva e é uma pessoa muito doente. Semana passada esteve internada com uma irregularidade cardíaca. Mas isso é outra situação. Sempre conto uma história de uma praticante que me procurou alguns anos atrás. Ela me procurou em janeiro e disse “tenho câncer pela terceira vez e irei morrer nesse ano, provavelmente. O que eu faço?”, eu lhe disse, “Vamos nos preparar, você pratica zazen conosco e vamos tentar ter a melhor mente possível para morrer bem”. Dei à ela meu rakusu (símbolo do manto budista que se porta sobre o peito) no final e ela morreu com ele dez meses depois. Ela fez sesshin conosco fazendo quimioterapia, sem cabelos. Quando não suportava mais as dores ela deitava no zabuton, mas não saía da sala. Você está pior que ela?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O zazen e a vacuidade



Pergunta – O zazen,  de que maneira ele instrumentalizaria esse caminho?

Monge Genshô – Quando você senta em zazen, já está fazendo mais do que os preceitos, você está criando uma mente ampliada, uma consciência ampliada, você senta com todos os seres, e por isso, você sentando e esquecendo de si mesmo, você começa a abranger o universo, por isso o zazen instrumentaliza o segundo passo. O primeiro passo pode ser praticado sem o zazen, poderia ser simplesmente seguir regras e isso seria apenas uma parte da prática. Alguns crêem que a prática, ou a mera prática, a repetição dos rituais e da forma é a própria iluminação, o sentar é a própria iluminação. Na nossa linhagem a iluminação não é conseguida com a simples prática da forma, mas sim através da tentativa de ir mais fundo na prática do próprio zazen. Para nós sem o zazen é impossível chegar ao terceiro passo.

Pergunta – O terceiro passo é o último?

Monge Genshô – Sim. Se você realizasse a não dualidade completamente e compreendesse o vazio completamente, você teria uma mente inteiramente iluminada. Mas isso implica em esquecer completamente seu eu.

Pergunta – Reconhecer fenômenos, o vazio é fenômeno?

Monge Genshô – Não.

Pergunta – Mas o vazio é forma?

Monge Genshô – A forma e o vazio são a mesma coisa. O vazio não é algo, a vacuidade não é uma coisa, ela não pode ser reificada, transformada em algo real. A vacuidade é a qualidade de todas as coisas serem sem um eu. O vazio é aqui e agora, esse chão, esse teto e cada pessoa sentada nessa sala. Isso tudo é a vacuidade. A vacuidade é vazia de um eu. Porque nós pensamos que temos um eu, cada um de nós aqui sentados pensamos que temos um eu sofrendo com a dor nas pernas, essa é nossa ilusão principal. Estamos sonhando que temos uma identidade e porque estamos perdidos nessa identidade, então, nesse sonho, acreditamos que somos um eu.