Follow by Email

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ido até a outra margem



Todos os Budas, dos três mundos, devido à sabedoria completa, obtém a Correção:  "anuttara-samyak-sambodhi" que quer dizer “a iluminação completa, perfeita e universal”. Nessa situação desapareceram todos os ventos das paixões e entrou-se no Nirvana ou atravessou-se o rio e chegou-se à outra margem, a margem da sabedoria.

"Saiba que a sabedoria completa, expressão de grande divindade, grande claridade, expressão insuperável, inigualável, com capacidade de remover todo o sofrimento. Isso determina, invoque e repita: GATE GATE, PARAGATE, PARASAMGATE (em japonês GYATE GYATE HARA GYATE HARA SO GYATE BODHI SOWA KA)" e repete-se o nome do sutra – sutra da sabedoria completa.

GYATE GYATE HARA GYATE HARA SO GYATE BODHI SOWA KA – o que ele quer dizer? Chegados ou idos, todos juntos, para a outra margem, à iluminação, salve. É isso que quer dizer. É por causa disso que no meu livro, dei o nome ao personagem de “IDO”. Quem conheceu o mantra, e souber o significado do mantra, pode chegar à outra margem.

Este é o Sutra do Coração. Mas a essência mesmo é: vazio é forma, forma é vazio. Se você conseguir entender isso, resolveu o verdadeiro KOAN que é o sutra do coração.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Nirvana não é um lugar




"O Boddhisattva, devido à sabedoria completa – coração/mente – sem obstáculos, logo, sem medo, distante de todas as delusões, isto é nirvana."

Nirvana quer dizer “sem fogo”. “Fogo extinto” ou, “sem vento das paixões”. Nirvana é a mesma coisa que Samsara. Samsara é Nirvana. Samsara é o mundo da perambulação, onde andamos de lugar pra lugar, procurando a felicidade ou satisfação. Nós procuramos, andando sem fim, procurando e trocando. Uma casa nova, um carro novo, etc, procurando, procurando, sempre trocando, isso é samsara. É o mundo rodando e você procurando a solução e satisfação de problemas sempre novos. Vão sempre surgir, porque é característica desse mundo mutante.

O que faz essas sensações todas, são o “vento das paixões”. E nós somos como folhas tocadas pelo vento das paixões.

NIR é uma partícula negativa e VANA é o fogo das paixões. Então podemos traduzir como “Fogo extinto, ou sem ventos”, e, na analogia que estou fazendo, não tem vento para empurrar a folha de lado pra lado. Não tendo paixões mundanas, então de repente surge uma grande calma, porque não importa. Atrasou, atrasou, perdeu o avião, perdeu o avião, tem comida tem, não tem comida, não tem. Perdi tudo que tinha, perdi tudo que tinha. Ganhei bastante, ganhei bastante.

As paixões não estão empurrando, então o mesmo lugar que é Samsara, é Nirvana. O que mudou é a maneira de ver. Você tira os seus olhos, que vêm o Samsara, e troca pelos olhos de Buda, olha com uma mente iluminada e aí aquilo que era Samsara, virou Nirvana.

Então Samsara não é um lugar. E Nirvana também não. Não dá pra “ir” para o Nirvana. Você muda a si mesmo e aí, este lugar torna-se Nirvana.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Criaturas de sonho



Tudo dentro do vazio é assim, “sem nada”.

Sem “mundo da visão”, ou “campo da visão”. Sem “mundo da consciência”, sem ignorância, sem fim da ignorância, sem velhice, sem morte e sem fim à velhice e morte, sem sofrimento, sem causa, sem extinção e sem caminho, sem sabedoria, sem ganho e sem nenhum ganho.

Como os fenômenos não são mais do que sonhos, e aparências, na verdade, nada neles é concreto, só tem a consistência de um sonho. Na realidade o Sutra está dizendo que cada um de vocês é um fenômeno sem uma consistência real, são só uma manifestação histórica aparente. Mas, nesta unidade, não existem.

É só borbulho. Surgem e desaparecem, mas eles não são reais. Na dimensão suprema não são reais. O Sutra está falando na dimensão suprema, não na dimensão histórica. Nesta, estamos aqui falando, existindo, etc. estamos aparentemente separados. Mas, na dimensão suprema, nós não somos separados, só parece que somos. Na realidade, é como se gotas do oceano achassem que são separadas mas estão todas juntas, misturadas, e fazem o oceano.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O Vazio e o Sutra do Coração da Sabedoria



Todo vazio só se manifesta como forma. O vazio não é uma coisa independente, ou que existe por si mesmo. Todas as formas são vazias de um “eu” e é isso que o vazio é. Nós somos “o vazio”. Você ouve dizer que somos manifestações “do vazio”, mas isso faria pensar que o vazio é alguma coisa, e aí então nós damos uma realidade ao vazio que ele não tem.

A única realidade que o vazio tem é que ele se manifesta como forma. No mar, podemos dizer que a água é o vazio. Você vê ondas, superfície, é isso que você vê. Se você tirar toda a superfície do mar, embaixo tem água, que se manifesta de novo como ondas. É sempre assim. Você vai sempre ver a manifestação do vazio.

Quando você tira toda a forma, tira todo o vazio. O vazio é como se fosse uma qualidade de todas as coisas. Não teria um “eu”. O problema é que nós também não temos um “eu”. Nós e todas as coisas somos uma coisa só, e sendo uma coisa só somos apenas manifestações diferentes do mesmo. E o mesmo que se manifesta de formas diferentes. Nós não somos diferentes. Nós somos o próprio vazio. Não enxergamos a nossa verdadeira natureza, só enxergamos nossa natureza temporária, que é a dimensão histórica, que é uma coisa que começa e tem um fim. Nós nascemos, morremos, isso é a dimensão histórica. Mas existe uma dimensão suprema que está além da dimensão histórica, e essa não se manifesta historicamente. Ela tanto é uma em tempo quanto é uma como manifestação. Todas as manifestações são a mesma dimensão.

As ondas nascem e morrem na superfície do mar. O mar não nasce e morre, ele está lá. Todo o tempo. Então a dimensão suprema é assim. A dimensão histórica é que são as manifestações fenomênicas que nascem e morrem.

Vazio não é mais do que forma, forma é exatamente vazio e vazio é exatamente forma.

E aí o Sutra começa a listar: "sensação, conceituação, diferenciação, conhecimento, assim também o são." Também são vazios.

"Ó Sharishi, todos os fenômenos são vazio  forma." Não nascidos. Os fenômenos, são não nascidos, porque eles são o vazio. Eles parecem que nascem e morrem mas isso é como se fosse um sonho, uma manifestação, mas não é a essência. Todos os fenômenos são não nascidos, não mortos e não puros e impuros, não perdidos e não encontrados.

Assim é tudo dentro do vazio. Tudo dentro do vazio é sem: "forma, sem sensação, sem conceituação, diferenciação, conhecimento, sem olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente, sem cor, som, cheiro, sabor, tato, fenômeno."

Tudo dentro do vazio é assim, “sem nada”.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ver o vazio dos agregados elimina o sofrimento



Quando o Boddhisattva vê claramente o vazio dos agregados, livra-se de todo o sofrimento, ele ainda sabe como é a dor do outro. Assim como você, que vê uma pessoa  tendo um pesadelo. Ele sofre, geme, sua, você vai lá, sacode o ombro, acorda, ele leva um susto, acorda de um sonho. Ele livrou-se de um sofrimento. Mas aquele sofrimento era real. O sofrimento mesmo imaginário, é real. Os sofrimentos de todos os seres do mundo são reais embora todos eles sejam sonhos. E não adianta dizer que vai passar. Tem que trazer a pessoa para a realidade, para que ela possa acordar do sonho, que é a única solução definitiva.

Por isso às vezes o que a gente diz é muito duro. Há que trazer a pessoa para a racionalidade, mas às vezes não há como retirar o sofrimento. O sofrimento vai continuar lá porque o sofrimento é emoção e não é racionalidade.

“Sharishi” é uma forma abreviada, carinhosa, de chamar Shariputra.

Shariputra era um dos principais discípulos de Buda e famoso por sua sabedoria. Ele era mais velho que Buda e morreu antes de Buda. Shariputra já era mestre espiritual e tinha muitos discípulos. Ele ouviu Buda, se sentiu um ignorante, tornando-se discípulo de Buda e todos os seus alunos foram junto com ele.

Isso aconteceu várias vezes na vida de Buda. Eram grupos inteiros de pessoas para acompanha-lo. Mestres com seus discípulos. Este é o caso de Sharishi-Shariputra.

Aí o Sutra do Coração da Sabedoria diz: “Forma não é mais que vazio, vazio não é mais do que forma”. Saikawa Roshi diz que meditou 4 anos apenas nesta frase, para resolver isso, quando voltou da Tailândia onde por anos fora monge Theravada. Então, não é tão fácil de resolver, de sentir profundamente este conceito.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Kanzeon, Kwan Yn, Kannon



Qual a ligação de Kanzeon com Avalokitesvara? É o mesmo Bodhisattva. Ele é representado como um homem, no Budismo tibetano. E na China, Kwan Yn, e no Japão, Kanzeon ou Kannon.

Então, Kanzeon, é o Bodhisattva que representa a virtude de compaixão de Buda, é a representação visual ou corporificada da compaixão. Kanzeon sabe que ela não "existe".

BODHI quer dizer “MENTE ILUMINADA”.
SATTVA quer dizer “SER”.

Quando Kanzeon, Boddhisattva, que é um ser de mente iluminada viu claramente os 5 agregados, “praticado em profunda sabedoria, completa, claramente observou: o vazio dos 5 agregados”.
Quais são os 5 agregados? Contato, sensação, percepção, formações mentais, consciência. São aqueles que acabam formando a mente. É o conjunto corpo/mente, que dá as informações contato, sensação, percepção, formações mentais, consciência, e que geram a consciência de si mesmo.

Aí ele viu “O VAZIO” de todos os agregados. Os agregados são em si mesmos vazios. Nenhum deles tem um “eu”. Mas os 5 agregados juntos produzem um “eu”, e o “eu” é o quê? Um produto da operação da mente. Porque sua mente funciona, ela produz um efeito, uma noção, de um “eu”. Aí ele viu o vazio dos 5 agregados claramente e assim se libertou de todas as tristezas e sofrimentos.

Quando ele viu que os agregados eram todos vazios e assim ele viu aquilo que surge dos agregados, ou seja, o “eu próprio”, ele se libertou de todas as tristezas e sofrimentos, de todos os sonhos, agonia e dor.
Ele libertou-se de tudo isso, porque quando vê esse vazio, surpreende-se ao perceber que não existe substancia que gere sofrimento. Todo sofrimento que eu penso que eu tenho, na realidade é produto da minha noção de “eu”.

Quando eu tenho uma perda e sofro pela perda, é porque aquela perda é de uma coisa que eu agreguei a mim mesmo como preciosa, a um “mim” que em ultima análise é a minha noção de “eu”.

Se eu não possuo nada, porque tudo é vazio, então não tenho perdas. Se conseguir ver o vazio completo, não tem porquê ficar triste. Porque É o vazio de todas as coisas se manifestando. Todos nós somos seres de sonhos. Em ultima analise se você vir claramente, você se livra de todo sofrimento. Se você vir parcialmente, você se livra parcialmente do sofrimento. Pra se livrar completamente, tem que ver com absoluta clareza.

{Com a prática Budista, o que acontece na realidade, é um aumento da sensibilidade. A pessoa torna-se na realidade, mais emotiva. Porque ela começa a ver a dor dos outros. Mesmo que a dor que você veja no outro seja uma construção e  falsa. Você não tem mais a “sua” dor em si, mas você sabe como é a dor do outro, percebe. Eu sei que a dor no fundo é um sonho. Você sabe que o sofrimento é verdadeiro, mas onírico. O sofrimento não é falso, é real mesmo que sonhado.}.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O budismo tem uma porta de saída



O Sutra do Coração da Sabedoria começa com “Maka Hannya Haramita Shingyo”.
“MAKA” é grande e “SHIN” é coração, ou mente. Shin quer dizer as duas coisas, coração ou mente.
Na realidade, o significado de coração, não é bem coração, mas sim essência.
E nesse sentido queremos dizer não o “O Sutra do Coração”, mas “Sutra da Essência dos Sutras Prajna Paramita”.
PRAJNA é “sabedoria”.
PARAMITA é “a outra margem”.
“Sabedoria da outra margem”.
Existe uma coleção de Sutras chamada “Os Sutras Prajna Paramita”. São mais ou menos 600 volumes.
O Sutra do Coração da Sabedoria é um resumo da essência de toda a coleção dos sutras Prajna Paramitas, que não estão traduzidos. Mas eles são uma colação importantíssima de ensinamentos, de estudo do inicio do movimento Mahayana.
A idéia de Paramita - a outra margem, é que existe um rio, o rio da ignorância, nós estamos numa margem e tomamos um veículo pra atravessar o rio e chegar na outra margem que é a margem da sabedoria.
Então são sutras da outra margem, a margem da sabedoria, pra quem atravessa esse rio da ignorância.
É por isso que aquilo que se usa pra atravessar o rio chama-se “yanas”, que são veículos. “Mahayana o grande veículo”, “Hinayana o pequeno veiculo”, “Vajrayana, o veículo do raio”, etc. Yana é portanto o veículo para atravessar o rio e chegar na outra margem.
Quando você atravessa o rio de uma margem a outra, na outra margem você não sai carregando o veículo.
Este é o significado do TÍTULO do sutra, portanto, para entendermos.

O que Buda explicou é: se você atravessa o rio com um veículo, não tem sentido sair carregando o barco nas costas depois que chegou do outro lado. Por isso os veículos existem pra ser abandonados, o Budismo inclusive. Não são coisas pra serem carregadas pra sempre. O Budismo tem uma porta de saída. A imagem do Bodhisattva é: “ele chegou até outra margem”. Aí ele olha e vê todo mundo na margem de cá. Aí ele se apieda, se compadece, e volta pra cá pra carregar pessoas através do treino da mente.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Nada de especial mas tudo diferente



Nós estamos sonhando as nossas vidas. Não são assim tão reais. Nós somos a própria vida ou o próprio universo, só que nós não enxergamos. Só enxergamos a nós mesmos. Abrimos os olhos, olhamos os outros, tocamos nas coisas e pensamos “EU SOU”, e isso é a nossa angústia existencial, porque não queremos que esse “EU” desapareça temos pavor da morte.

Só que se você enxergar sua verdadeira natureza, desaparece o medo de morrer. E toda angústia existencial e as questões sobre a vida, todas se dissolvem, todas as respostas surgem. E isso é o KENSHO, a experiência iluminada, que pode acontecer a qualquer momento e durar muito pouco tempo. Você praticou zazen, sai, vê uma árvore, e durante alguns segundos, você “viu”, sua verdadeira natureza. Não existe separação entre você e nada, e tudo é lindo e perfeito. Tudo é maravilhoso. E aí, no primeiro pensamento, você perde. Na primeira consideração, você perde o Kensho.

Por isso é uma experiência limitada no tempo. Você viu sua verdadeira natureza, mas perde logo em seguida. Não é nada tão absurdo assim. Muitas pessoas que nem praticam, às vezes têm uma experiência de Kensho. Levantam de manhã, estão com a mente vazia, abre a janela, sentem um perfume, uma onda de felicidade, e alguém diz: “vem tomar café!”. Pronto. Perdeu tudo.  Aquilo foi Kensho. Imagine viver a vida toda com essa sensação? Isto, viver a vida toda com essa sensação ou poder recuperá-la quando quiser, chama-se SATORI, e este é o despertar verdadeiro.

Então você pratica o Zazen, pratica o Samadhi, que cria o terreno, para as experiências de Kensho, que acumuladas, tornam-se cada vez mais fortes e permanentes e nós chamamos de Satori. E isso é o despertar.

E aí ficam tranquilos, serenos, felizes, sem se perturbar com as coisas. Porque vêem a vida como ela é. Um mero jogo, um mero transcorrer do fluxo, não há nada tão importante. Tudo vai passar. Isso é Satori. É a iluminação, nada de especial mas tudo é diferente.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Samadhi e Kenshô

                                        Noviço raspa os cabelos para a ordenação monástica


Quando fazemos zazen, tentamos obter esta condição chamada SAMADHI, que é essa concentração onde você esquece o passado, esquece o futuro e está aqui no momento presente, realmente imóvel e tranquilo.

Quando você levanta do zazen, o mundo mudou um pouco, porque você foi lá e conseguiu “parar” de gerar carma. Você está sentado ali, não está gerando carma, pois sua boca está fechada, você não está pensando nem planejando e você não está agindo.  E, à medida que você apaga e vê que as coisas não têm a importância que pareciam ter, suas marcas cármicas vão sendo dissolvidas, vão sendo amenizadas, você tem uma mente que você pode reconstruir com novas energias.

Eu treinei energias ruins, depois treinei energias boas, aí, essas energias boas tomaram conta. Fui “me tornando” Monge. Qualquer lugar em que  vou: “Monge”, exclamam as pessoas. Vamos sentar, “Monge”, vamos fazer Zazenkai “Monge”, vamos fazer Sesshin “Monge”, etc. Sempre sentando com os outros porque o fato de ser Monge arrasta você. E esta é a vantagem de ser Monge, é ser “arrastado” para a prática, porque os outros estão pedindo isto de você.

Aí você  fala sobre o Dharma, fala, fala,  o Dharma está dentro de você todo o tempo, aí me deito pra dormir, e sonho, com o Dharma! Então, meu inconsciente também está mudando. Eu não sonho que estou dando tiros

. Isso não existe. Eu sonho que estou falando sobre o Dharma.

Então, SAMADHI primeiro, no zazen. Segundo, KENSHO. Kensho quer dizer: “KEN”, enxergar. E SHO quer dizer verdadeira natureza. “Enxergar sua verdadeira natureza”. A nossa verdadeira natureza não é nossa identidade, nosso corpo, nosso eu, não é. Nossa verdadeira natureza é outra coisa.

Vocês imaginam o mar e o mar tem ondas, não é? A onda passa e a água aqui não se move. Se você colocar uma cortiça sobre a água, ela sobe e desce, a água não se moveu, só passou uma energia, uma onda. Não é? Eu estou falando, faço o ar entrar, vocês ouvem. Mas, não tem vento. O ar não se moveu. É só uma vibração que se transmite de uma molécula pra outra do ar.

Nós somos uma onda no universo. Energias se movendo. Nós somos isso. Daí nós “pensamos” que isso é uma identidade. Só que a água está passando. A energia está passando pela água mas a água não está se movendo. O seu corpo é assim. Em 10 anos mudaram todos os componentes. Todo o cálcio do corpo foi embora e entrou outro. O ferro foi embora e entrou outro. Do seu corpo original não sobra praticamente nada. Foi tudo embora e está tudo reposto, reconstituído. Não é isso?

Então, nós “pensamos” que somos uma onda. Mas na nossa verdadeira natureza, não somos onda, mas sim, o oceano inteiro. Nós somos o oceano, pensamos que somos onda, porque temos uma mente funcionando, uma energia que está se transmitindo e esta energia olha pra si mesmo e diz: “eu sou”. Isto é um engano. Minha verdadeira natureza não é onda. Onda nasce e morre. Nossa verdadeira natureza está além de nascimento e morte. Não tem a ver com identidade. Nascimento e morte não existem, são ilusões de uma onda cármica se movendo no universo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O destino



Aluno - E o destino?

Monge Genshô – Então eu tenho um papel e esse papel eu não posso mudar? Se eu tiver um papel que diz o que vai acontecer e eu não possa mudar, então não adianta eu fazer nada, está tudo escrito, tanto faz olhar para os lados ao atravessar a rua, se meu destino for ser atropelado serei, se não for não serei... Esse é um fatalismo inaceitável. Eu posso mudar minha vida a qualquer instante, se eu quiser. Pode custar muito esforço, mas eu posso. Então  tudo é possível. Aceitar que alguém tenha um papel que lhe foi atribuído e que não possa escapar dele, é acreditar em destino e ser fatalista. Isso é abrir mão da liberdade do homem. Nós temos, mesmo que limitada, uma certa liberdade. Quem impede qualquer um de vocês de levantar e sair agora? Quem impede ao monge Jushin de pegar seu rakusu entregar e dizer - “Eu não sou mais monge”? Ninguém.

As prisões são criadas por aquilo em que você acredita. Você crê numa determinada idéia, fica prisioneiro dela. Mas você pode mudar de idéia e não estará mais prisioneiro. Nós acreditamos na infelicidade.  Você pode falar para uma pessoa que está deprimida, que é infeliz: “Você é infeliz mesmo, de verdade”? Eu tinha uma amiga que estava ficando cega, tinha um tumor na hipófise que estava comprimindo o nervo ótico. Ela é uma artista plástica, dependente dos olhos. Ela contou que chegou em casa, fechou os olhos e andou pela casa para sentir como seria ser cego. E achou aquilo terrível. Então numa operação, conseguiram tirar o tumor e o risco de cegueira desapareceu. Nesse momento a pessoa sente o que? Imensa felicidade, porque teve a perspectiva do que seria ficar cega, para uma pessoa para quem a visão era muito importante.

Então as pessoas muitas vezes são infelizes porque não percebem o quanto são felizes. O Michel pensou que tinha um câncer, mas, recebeu a notícia que era benigno. Depois da operação ficou esperando dez dias pelo resultado. Quando saiu o resultado ele escreveu - “Esse é o dia mais feliz da minha vida”. Certamente essa felicidade já se esvaiu,  foi absorvida. Não existe mais a ameaça da morte. Então em vez de morrer em alguns poucos anos, tinha de repente a perspectiva de viver mais uns quarenta anos.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Saber que se estava errado


Pergunta: Sobre esse monge que sumiu, será que ele não viu que estava errado, ficou com vergonha e foi embora?

Monge Genshô - Os sutras não explicam. Os sutras são muito severos com Devadhata. Infelizmente, se você prestar bastante atenção na história da humanidade, olhe os homens deste século, que criaram grandes tragédias e te perguntarei se alguns deles deixou algum documento dizendo que se arrepende, que estava errado. Hitler deixou? Pol Pot, no Camboja, que conseguiu matar um terço da população de seu país, deixou? Stalin deixou? Franco deixou? Nenhum disse que estava errado. Nem os terroristas brasileiros que mataram pessoas, espalharam bombas etc, eles também não pensam que estavam errados. Por outro lado, os torturadores, os militares que mataram e torturaram os terroristas, também não me lembro deles dizendo que estavam errados. Todo mundo estava certo. Todo mundo “pensa” que estava certo. Os terroristas diziam que lutavam pela liberdade. Na verdade, lutavam para criar outro tipo de ditadura. Os militares diziam que estavam lutando numa guerra contra subversivos, que queriam derrubar o governo, que era uma ditadura. Os dois lados foram criminosos. Mas não li nenhum texto de nenhum deles até agora dizendo – “eu estava errado”. Minto, acho que Fernando Gabeira disse que estava errado. Mas é uma exceção. É interessante essa pergunta, porque é difícil as pessoas dizerem – “Eu estava errado na minha opinião, eu escravizei meu povo”. Você acredita que Kadafi vá dizer que está errado por que provocou uma guerra civil e não quer renunciar? Ou Assad? Ou Ahmadinejad no Irã que provavelmente roubou as eleições e depois esmagou os protestos de seu povo? Todos eles se consideram certos.

Aluno: É que com relação a este monge, eu pensei que uma pessoa que tem convívio com um mestre, sabedoria, conhecimento, geralmente essas pessoas não vêem outros lados, normalmente quem vive no mosteiro vê vários lados diferentes.

Monge Genshô – Deveria...

Aluno – E esses conquistadores só olham para a frente, não olham para os lados e nem para trás, vão em frente conquistando, conquistando...

Monge Gensho - Nós temos muitas esperanças nos monges porque estão lá e lêem os textos. Mas nós também aqui na Sangha vamos ali, fazemos cerimônia e lemos os textos. Você toma refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha, você diz que a Sangha é o lugar da harmonia, você faz as cerimônias dizendo essas coisas.

Quando olhamos a história do Cristianismo, não era a religião do amor e da compaixão? Mas é a religião que fez as cruzadas. Quantas e quantas vezes os religiosos abençoaram canhões? E cada um dos lados dizia – “Deus está do nosso lado”. Mesmo você lendo textos, o que eu quero dizer é que dentro dos mosteiros você vai encontrar homens. Eles lêem, repetem as coisas. Eu estou dizendo, não estou dizendo? Então no dia que vocês perderem a paciência com os outros, vocês dirão – “Ah, o monge disse isso, mas está acontecendo assim”. E se um dia vocês me virem perdendo a paciência vocês dirão – “Ah pois é, o monge sabe, mas”... Entre saber e fazer certo, há uma certa distância.

O monge  saberia...mas a história não tem mostrado isso. Vocês já ouviram uma passagem chamada “O Remorso”, de um poema de Guerra Junqueiro "A Caridade e a Justiça"? Ele imagina Judas. E Judas vai fugindo pelo caminho, depois da prisão de Cristo e encontra um vulto de  gigante e Judas lhe pergunta - Quem és tu?

"Convulso de terror, fugiu... Mas nesse instante
Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
Que bradou:
-É chegado enfim o teu castigo!
O traidor teve medo e balbuciou:
-Amigo, que pretendes de mim? Dize, por quem esperas? Quem és tu?
-“O Remorso, um caçador de feras
Disse o gigante. Eu ando há mais de seis mil anos
A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,


Do traidor, do ladrão, do vil, do celerado;
E depois de as prender tenho-as encarcerado
Na enormíssima jaula atroz da expiação.
E quando eu entro ali na imensa confusão
De tigres, de leões, d’abutres, de chacais,
De rugidos febris e de gritos bestiais,
Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto:
Caim baixa a pupila e vai deitar-se a um canto.
E quando em suma algum dos monstros quer lutar
Azorrago-o com a luz febril do meu olhar,
Dando-lhe um pontapé, como num cão mendigo.
Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!”

Então Judas pega o dinheiro e dá para ele. E o Remorso lhe diz - “Não, não Judas, guarda esse ouro, guarda que eu quero derretê-lo e pingar-to gota a gota na tua consciência pútrida e execrável durante toda a eternidade ilimitada e calma, vem Judas, anda comigo”.

Todos os crimes têm dentro de si sua própria tortura e castigo. Isso é a própria lei do carma. No final do poema Cristo fala com ele e o perdoa, e Judas diz – “Não quero teu perdão, sou mais justo do que tu” - e enforca-se. Mesmo naquele momento, se julgava mais certo, mais justo do que Cristo.

Talvez Devadhata tenha a mesma idéia – “Sou mais certo e mais justo” – e talvez todos esses que a gente vê, esses homens que nós estamos vendo hoje matando seus próprios concidadãos, são pessoas que se julgam certos, mais justos que os outros, esse é um grande problema.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quem é esse que não consegue se calar?



Também aconteceu uma vez de um primo de Buda pensar que ele era melhor que Buda, mais certo que Buda. Como ele tinha uma opinião melhor, ele pensava que a Sangha não estava bem gerida, que os monges eram relaxados, queria regras mais duras para os monges, por exemplo, os monges comiam pela manhã e ao meio dia e ele dizia - Para quê? Basta comer uma vez só! – E este homem, chamado Devadhata, de tanto criticar, de tanto acusar Buda de excessivamente tolerante, criou um problema e seiscentos monges concordaram com ele, as regras deveriam sim, ser mais duras e que Devadhata deveria ser o líder. Então deixaram Buda e foram com Devadhata. Depois de algum tempo, após tudo dar errado, Devadhata ficou como símbolo do discípulo que pensa ser maior que o mestre e quer que a coisa seja feita de forma melhor, mais rígidamente.  A lenda diz que a terra se abre e o engole. É muito provável que ele tenha sumido, desistido. E Shariputra, aquele personagem do Sutra do Coração, é que foi até o local onde estavam os monges e mostrou à eles que  estavam errados.

O ensinamento de Buda é o “Caminho do Meio”, da moderação e não o caminho do radicalismo. Mas dentro disso, na essência, o que havia em Devadhata era a inveja. O que ele queria na realidade era derrubar o líder.

No caso dos evangelhos Cristãos, Judas queria que Cristo assumisse seu papel de líder de uma revolta contra os romanos. Que era o que as antigas profecias de Isaias, diziam: que chegaria um messias e que libertaria o povo do jugo dos estrangeiros. Era isso que eles imaginavam, que ele lideraria uma revolta e seria vitorioso. Outros líderes acabaram levando o povo judeu a uma revolta contra os romanos. Em 70 D.C. essa revolta se realizou e o imperador  mandou suas tropas, que derrotaram os rebeldes judeus definitivamente. E já cansado de tantas revoltas dos judeus, ele decidiu que eles não ficariam mais juntos e ordenou que os judeus se espalhassem no império a isso chama-se diáspora, para enfraquecê-los, dividiu-os. Cada um num canto do império. Não podiam ficar mais juntos e nem ser uma nação. Situação que só mudou, quase mil e novecentos anos depois em 1948, quando novamente foi fundado um estado judeu, que não tem paz, pois foi fundado num lugar que já estava há quase 1900 anos sendo habitado também por outros povos, os palestinos. Então cada um defende seu direito histórico – Essa terra é minha! – são incapazes de se juntar e viver em paz e tolerar um ao outro, então criaram uma cultura de ódio.

No fim, nós podemos ver que isso tudo está baseado em egos, em “eus”, porque cada um assumiu uma identidade. Se eles perdessem a memória hoje e ninguém mais lembrasse quem é, olhassem uns para os outros e vissem seres humanos, que são da mesma raça, que são idênticos, todo conflito cessaria. Ninguém veria a necessidade de dar tiro no outro, nem de fronteiras nem nada assim, porque afinal de contas, seriam apenas seres humanos sem memórias. Então, isso ocorre porque foram condicionados a acreditar – eu sou diferente, eu, eu, eu – e, porque tem “eus” , tem conflito.

E essa é a grande lição de Buda quando diz – “Você não me enganará mais” - e ele então estende a mão, toca na terra e diz: “Tomo a terra como testemunha, você não me enganará mais”. Então o tema da palestra de hoje é: “Nós devemos olhar para dentro de nós mesmos” e a cada vez nos perguntarmos - Quem é esse que se irrita, quem é esse que perde a paciência, quem é esse que pensa que tem razão, quem é esse que tem opiniões, quem é esse que não consegue se calar? - Esse que vocês podem identificar, é nosso maior inimigo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os que tem certeza que estão certos



Filhas de Mara. Mara é quem representa alegoricamente o “mal”. E as filhas de Mara são essas paixões que arrastam Buda. Ele recusa todas as paixões, mas no fim tem uma maior que todas, um problema, e este problema surge perante Buda com o rosto dele mesmo e ele diz – “Tu não me enganarás mais” – e quando ele diz isso, essa figura com o rosto dele mesmo, se transforma em Mara, o senhor do mal.

Então esse grande mal que está dentro de nós e que frequentemente derrota os homens, é ele mesmo, o “eu”, o ego, o amor a si mesmo. Por isso Dogen diz – “Estudar o zen é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo, esquecer de si mesmo é ser iluminado por todas as coisas”. Então, enquanto nós temos um “eu mesmo” dentro de nós, ele nos atrapalha demais, por que esse “eu”, esse ego, é ele quem se ofende com o que os outros fazem, é ele quem quer impor sua opinião, é ele quem pensa que sabe o que é o certo e que pensa que os outros estão errados.

 Os que mais causam mal à humanidade são os que têm certeza que estão certos. Eles estão dispostos a qualquer coisa para provar isto. Kadafi (palestra ministrada antes de sua queda N.A.) está disposto a qualquer coisa para preservar seu poder, as suas idéias, os seus livros, a sua família, não importam as mortes, não importam os bombardeios, quantas pessoas irão morrer, quantos ficarão aleijados, não importa que o país inteiro seja destruído, desde que ele se conserve no poder. Porque ele está convicto de que  tem razão e que é amado por seu povo.

 Assad na Síria, ontem, fez suas tropas matarem cento e doze pessoas. Hoje foram os funerais. Suas tropas atiraram nas pessoas que estavam nos funerais. Mais cedo ou mais tarde, Kadafi e Assad vão sair do poder, serão depostos, talvez enforcados, talvez queimados vivos, quem sabe o vai acontecer com eles? Talvez fujam e sejam acolhidos em algum outro lugar para poder viver com seu dinheiro, mas atrás deles fica um grande rastro de destruição, por que eles têm grandes egos e têm certeza que estão certos.

Na realidade, falar sobre isso me entristece, mas eu vejo isso sempre se repetindo em todos os lugares. A convicção do “eu”, “meu eu”, “meu ego”. Meu ego se ofende se irrita quando não concordam com ele. Meu ego quer impor sua opinião, meu ego quer que os outros se dobrem ao que eu penso. E não há medida no esforço e na violência que as pessoas estão dispostas a empregar para isso. E essa é a história da nossa humanidade, história das ditaduras. Nós sabemos o que é o melhor, nós sabemos o que está certo. E não importa se são ditaduras de direita ou de esquerda. O mal, os horrores continuam, são os mesmos, porque  tem certeza que tem razão. Então se têm razão, podem impor sua opinião, e todas as revoluções acabam dando no mesmo, donos de poder que não o largam.

Cada um de nós deve, quando pensa que tem razão, fazer um exame, olhar para dentro de si e perguntar – “Quem é esse que pensa que tem razão, quem é esse que está disposto a discutir, que é esse que se ofendeu, quem é esse que está irritado, quem é”? Daí vocês irão olhar dentro de si e verão Mara, vão ver a pior parte de si, cheia de vaidade, cheia de orgulho e disposto a destruir o mundo em prol de si mesmos.

A Sangha também tem todos esses males, afinal, é constituída de pessoas. E as pessoas às vezes se irritam, perdem a paciência, se encantam com qualquer título ou poder. Desde o tempo de Buda, aconteceram sérios problemas. Uma vez Buda estava com seus discípulos e eles se desentenderam tanto, brigaram tanto que Buda se levantou e disse – Eu vou embora! – Então se levantou e foi embora para outro lugar. Disse – Se vocês querem brigar, então fiquem aí - e foi embora. E seus discípulos perceberam que sem Buda eles ficavam sem liderança, estavam perdidos. Então foram atrás de Buda e pediram desculpas.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Bodhisattvas


P: O senhor falou que todos podemos nos tornar Budas. Entre os votos do Bodhisattva há aquele em que ele se compromete a salvar todos os seres, mesmo que sejam incontáveis. Isso não é contraditório partindo do pressuposto que os seres são inumeráveis?

Monge Genshô – É uma bela contradição. É um paradoxo. Como o Bodhisattva fez esse voto, ele não torna-se Buda. Mas isso não significa que ele não tenha um grande grau de iluminação, que não consiga despertar e realizar-se. No último degrau, na extinção completa, o Bodhisattva abdica para retornar por compaixão. É um voto muito bonito. “Bodhi” significa “mente iluminada”. “Satva” é ser. Então Bodhisattvas são aqueles seres que alcançaram um grau de iluminação e se dedicam a salvar os outros seres. “Maha” significa “grande”, então “Mahasatvas” são grandes seres.


P: Foi Buda quem disse que em vidas anteriores ele era um Bodhisattva?

Monge Genshô – Sim.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Incorporações culturais no budismo


P: Nesse sentido então, o Zen como conhecemos hoje, tão direto e não tão místico, mais cético, mais pé no chão, assumiu essa forma na China? Pois o Hinduísmo é mais místico, com deidades, é mais esotérico.

Monge Genshô – Sim, é verdade, o Zen sofreu uma grande influência chinesa. Ele chegou à China perto do ano 600 d.C. com Bodhidharma, muito provavelmente vindo de uma das escolas primitivas do Budismo.

Na época do segundo concílio, 300 anos após a morte de Buda, já se contavam dezoito escolas, a maioria desapareceu. Uma escola que ainda permanece descendendo de alguma daquela época é a Escola Theravada, mas que também é uma escola com incorporações de vários tipos. O Zen, não por acaso, se parece bastante com a Escola Theravada, mas se caracteriza por ter um grande numero de incorporações culturais dos vários lugres por onde passou. Da Índia para a China, depois para o Japão e agora para o ocidente. Nós já temos incorporações culturais ocidentais. Isso que fazemos aqui já é uma incorporação. Pessoas sentadas ouvindo palestra do Dharma já é uma incorporação cultural. Batizados Budistas e casamentos Budistas também são incorporações, pois no Budismo original não existiam. Havia festas de casamento no oriente onde os monges eram convidados, mas iam para comer. Já o batizado de crianças é um fenômeno dos últimos cem anos, totalmente ocidental. Como as famílias querem que haja uma cerimonia para o bebê, criou-se uma “cerimônia do nome” que funciona como se fosse um batizado. Não tem a função de limpar os pecados originais, salvar de uma possível condenação ou evitar que a criança seja pagã, mas satisfaz a todos e deixa todos felizes, que é o que o Budismo deve fazer.


P: Quando há essa adaptação para culturas diferentes, não se perde a essência do propósito para se adequar às pessoas? Não seriam as pessoas que deveriam se adequar ao ensinamento?

Monge Genshô – O ensinamento em si permanece. Estamos falando de adaptações cosméticas. Rituais e cerimônias que originalmente no Budismo não existiam. Foram cerimônias que cada escola foi criando com a função de treinamento. Não vamos sentar à mesa e simplesmente comer, vamos fazê-lo de forma ordenada, com certa delicadeza e profundo respeito, etc. As tradições foram criadas ao longo do tempo pelos mestres, que as vão modificando e adaptando. Mas isso não pode ser feito de forma rápida e pedindo opiniões. Se não cada um diz uma coisa que desejaria ver nas cerimônias.

Uma pessoa vem à Sangha pela primeira vez e diz que não gostou da recitação em língua arcaica. Ele não entendeu nada. Para ter condições de fazer esse tipo de crítica ele teria que ser um praticante de muitos anos. Ele ainda não sabe, não descobriu a essência, está criticando uma recitação que é feita a dois mil anos da mesma forma, passando por diferentes línguas. O ritual foi sendo codificado ao longo de séculos, não podemos jogar fora algo que está sendo feito a mil e duzentos anos da mesma forma. É preciso haver respeito. Por isso as adaptações têm que ser feitas com grande cuidado e muito lentamente.

Há que se separar o que é cultural, o que é útil, o que é meio útil, o que é um meio hábil de ensinamento e o que é simplesmente uma forma que pode ser modificada. Por isso essas modificações só podem ser feitas por mestres autorizados. O pior defeito seria a pressa, ou o julgamento instantâneo de opiniões. Muitas coisas já fazemos em português, esse talvez seja o ponto mais fácil para ser mudado. Agora, mudar roupas, reverências, tradições de muitos séculos como o Rakusu, isso não é simples.

Um dia uma pessoa me disse que não gostava da argola do Rakusu. Essa argola é uma lembrança de um antigo adereço com o qual se prendiam os mantos. Por isso ela foi preservada. Saikawa Roshi disse que tem que ter a argola e não discutimos o que o mestre diz. Quando formos mestres, poderemos dar nossa opinião.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Longas orelhas



Em Páli, Trikaya significa “OS TRÊS CORPOS”, nesse caso os três corpos de Buda.

Buda deriva do verbo “Bud”, despertar. Buda não é nome de uma pessoa, mas sim a qualidade de ser desperto. Por isso dizemos que todas as pessoas têm a capacidade de serem Buda ou, que somos Budas em potencial, pois temos um Buda escondido dentro de nós. Se acordarmos das ilusões, nos tornamos automaticamente Budas. Portanto, somos Budas em potencial, mas não de fato, porque enquanto formos sonâmbulos andando na vida, somos pessoas de sonhos, seres do Samsara, o mundo da perambulação.

Então temos três corpos de Buda. O primeiro é o “Dharmakaya”, o “CORPO DA VERDADE”. Para entendermos a figuração disso, o corpo da verdade é imanente por todo o universo. É como se imaginássemos o céu azul. Podem aparecer nuvens e tempestades, chuvas etc., mas quando tudo passa, lá está o imutável céu, ele não desaparece. Ele está sempre presente, embora possa estar totalmente obscurecido. O corpo da verdade de Buda é o Dharmakaya, portanto. Todos somos manifestações no Dharmakaya.

O segundo kaya é o “Sambhogakaya”, o “CORPO DA FALA DE BUDA”, o corpo do esclarecimento, da luz que ele traz. Imaginemos um lugar completamente escuro, uma noite escura onde nada se vê. Quando acendemos uma luz, ela instantaneamente revela todas as coisas, lhes dá cor e todas as coisas começam a ser visíveis a partir desse instante em que levamos o Sambhogakaya até esse local. É o corpo do ensinamento de Buda.

O terceiro é o “Nirmanakaya”, o “CORPO DA MANIFESTAÇÃO”, o corpo físico com o qual Buda se manifesta no mundo. Como ele possui um corpo físico e esse lhe é útil para iluminar todos os seres, para se deslocar, comer, aparecer e ensinar, esse corpo é então o corpo da manifestação física.
Na verdade, Buda é os três corpos. Quando falamos no Buda transcendente, não no homem, estamos falando nos três. O Buda é sempre o Dharmakaya, Sambhogakaya e é sempre o Nirmanakaya, e se manifesta cada vez que se torna necessário para salvar os seres do sofrimento.

Esse tipo de ensinamento tornou-se bastante popular à medida que o Mahayana e suas visões transcendentes de Buda se tornaram mais importantes, porque eles retiravam de Buda o aspecto humano. Mas o Zen não tem tanto essa característica, é como se estivesse escondido. Recebemos esse influência do Mahayana, assim como outras influências de adaptação, por exemplo, quando o budismo apareceu na China, a atitude de Buda de deixar a família, o filho e a esposa e ir ensinar, pareceu muito chocante aos chineses. Havia um questionamento sobre os antepassados e os valores familiares, que eram preciosos em razão da tradição Confucionista na China. Foram criados, em razão disso, inclusive um dos capítulos do Sutra do Lótus, que é dedicado a enfatizar os antepassados e a devoção filial, para que o Budismo fosse palatável para a cultura chinesa. Isso foi uma adaptação.

Os rituais de retorno e homenagem aos antepassados entraram no Zen nessa época e dessa forma foram para o Japão. Por isso não tem tanto sentido trazermos o peso de toda essa tradição para o ocidente, onde isso não foi tão importante. Nossas adaptações tendem a ser diferentes das que o Budismo sofreu na China. Estes conceitos pertencem à tentativa de transformar o Buda/Mestre/ homem em um ser transcendente. Por essa mesma razão aparecem nas estatuas de Buda longas orelhas, um sinal no meio da testa e uma saliência no topo da cabeça, são sinais de perfeição que pertencem à uma tradição Hindu de 32 sinais de perfeição. Na tentativa de fazer o Budismo palatável aos Hindus, os mestres do inicio do Budismo deixaram que a crença popular incorporasse determinadas características à figura de Buda. A estatuária de Buda surgiu somente três séculos após sua morte. Um dia destes uma pessoa escreveu na internet que Buda usava alargador de orelhas. Isso é uma não compreensão de todos esses fenômenos históricos. Buda é representado com grandes orelhas porque essa é uma das virtudes da compaixão, ser capaz de ouvir os lamentos do mundo. Temos que separar com cuidado o que é o ensinamento de Buda das incorporações culturais que lhe foram imputadas através dos tempos para torná-lo mais palatável às diferentes culturais as quais ele foi passando.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A melhor prática é secreta



Pergunta – Sobre o esforço correto...Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre o esforço correto.

Monge Genshô – Com relação a isso é muito fácil ocorrerem erros. Se você fizer um grande esforço para se iluminar, isso pode tornar-se uma grande ambição e consequentemente um grande obstáculo. Essa ambição é um materialismo espiritual, um desejo de obter algo para si mesmo e destacar-se dos outros. Mesmo um esforço brilhante, como alguém que estude o Dharma e fale muito bem sobre o budismo, ou alguém que trabalhe denodadamente pela Sangha. 
 Uma pessoa, por exemplo, vem à Sangha e faz uma grande faxina e após isso fala para todos o que fez. A prática correta seria ele realizar a faxina sem ninguém saber e não comentar nem com ele mesmo. Essa é a prática e o esforço corretos, fazer algo com o único objetivo de beneficiar os outros. Mas geralmente não é isso que ocorre, as pessoas fazem as coisas e esperam reconhecimento. Ou seja, seu bom ato está pleno de motivações egóicas. Mas isso não é exclusividade do Budismo, Jesus Cristo criticava os Fariseus que entravam na Sinagoga com as roupas cheias de sinetas para que todos pudessem ver que eles estavam ali orando. Jesus então dizia: “Ele já ganhou seu Galardão”. O que o fariseu desejava era o reconhecimento social.  Desde esta citação farisaísmo passou a significar este coração desviado. A melhor prática é secreta.


(Palestra na Comunidade de Florianópolis decupada da gravação por Chudô San, revisada por Rachel San, jan 2013)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A solução que Buda ensinou



Pergunta - O senhor falou em más noticias...

Monge Genshô – Antes havíamos falado sobre as más noticias, não é? Que são na verdade as realidades da vida. A boa noticia é que é possível ser feliz e despertar das ilusões. Você deve treinar sua mente para obter outra ótica da vida e poder viver mais feliz. Quando você observa os grandes mestres, eles estão sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Você pode pensar mas como em mundo como que temos eles podem estar de bem com a vida? Isso é obtido através do esforço e da meditação, não através de milagres ou fé.

Pergunta – Lendo um texto seu sobre as Quatro Nobres Verdades e estudando outras escolas, pude perceber que as Quatro Nobres Verdades estão em todas as escolas. Gostaria que o senhor explicasse porque as Quatro Nobres Verdades são a essência do Budismo.

Monge Genshô – As Quatro Nobres Verdades são a apresentação de um problema e sua solução. O primeiro discurso de Buda foi sobre as Quatro Nobres Verdades. A vida é insatisfatória, instável, insegura e cheia de altos e baixos, essa é a primeira Nobre Verdade. Existe uma tradução que fala em sofrimento, mas é apenas uma tradução fácil, ele fala que a vida é cíclica. Se a vida é dessa forma, existe uma causa para isso, a segunda Nobre Verdade. Se existe uma causa, essa pode ser removida, a terceira Nobre Verdade. E no quarto passo Buda dá a solução, a maneira, o caminho para remover o sofrimento e logo em seguida apresenta o Nobre Caminho Óctuplo, que é uma forma de conduta e forma de prática que o conduzirão ao despertar, a libertação do sofrimento que ele apresentou nas Quatro Nobres Verdades. São eles; compreensão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena e meditação correta. Importa salientar que só a meditação correta não é suficiente, você precisa observar todos os sete anteriores de forma plena. De nada adianta você praticar meditação e sair falando palavrões, fazendo críticas aos colegas e professor ou fazer fofocas. Não adianta meditar e praticar furtos ou roubos.

terça-feira, 4 de junho de 2013

É possível não pensar?



Pergunta – Eu tenho uma questão com relação ao zazen. Quando sentamos qual deve ser a intenção? Existe uma técnica para o não pensar?

Monge Genshô – Você não deve pensar em esvaziar a mente ou em não pensar. Isso não funciona. Tem até uma historinha Zen sobre isso, um aluno pergunta ao mestre o que deve fazer e ele responde: “Fácil, não pense em macacos”. No final do dia o aluno retorna e diz, ”Por favor, mestre me livre dos macacos”. Existe uma mente operacional e uma mente verificadora, esta fica o tempo todo checando: “No que você está pensando, em macacos?” o que torna impossível pensar em não pensar.

A instrução para sentar é não seguir os pensamentos, deixe que eles venham e passem, não os agarre. Quando estamos começando a praticar, normalmente os pensamentos que aparecem são o retrato de nossa mente. O que surge é fruto, produto daquilo com que alimento minha mente. O mesmo acontece com os sonhos. Você irá sonhar com aquilo com que você alimenta sua mente. Isso é uma verificação. É preciso muito tempo de prática para chegar ao ponto de repouso, uma serenidade, os pensamentos chegam e vão sem perturbar sua mente. Você passará a maior parte do tempo repousando, simplesmente sendo o momento presente.

Pergunta – Eu li em alguns livros sobre o “não sei” e isso me parece um tipo de condicionamento, como se desapegar e manter esse não sei, mas ao mesmo tempo me parece também que isso é apenas um apego disfarçado.

Monge Genshô – Uma mente “não sei” significa eu aceito que não sei as coisas. É muito comum as pessoas me perguntarem: - O que acontece após a morte sob o ponto de vista do Budismo? Minha resposta é não sei. Eu ainda estou vivo não sei o que se passa após a morte. Existem várias teorias sobre isso, mas não sou testemunha do que acontece após a morte, não sou um fantasma. Às vezes as pessoas querem respostas sobre suas vidas, sobre decisões das mais variadas, relacionamentos, mudanças ou projetos profissionais. Minha reposta é a mesma, “não sei”. Podem acontecer muitas coisas entre a tomada de decisão e seu projeto, como eu posso saber? Não sei.

No Budismo não revelamos profecias, não jogamos cartas, não lemos fundos de xícaras ou os astros, aliás, isso foi proibido por Buda no Parinirvana Sutra. No Zen não existem respostas fáceis. O que o Zen tem para lhe oferecer é um método para a libertação e esse método exige esforço. Temos milhares de anos de experiência para saber que esse método produz ótimos resultados, mas o resultado é mais sabedoria, não mágica ou milagres. Não existe ninguém lá fora para lhe ajudar, não existem santos ou deuses, aqui não há socorro. Por não ter socorro é que podemos nos reunir numa sala pequena como essa, se o Zen oferecesse milagres poderíamos ter um templo com dez mil lugares.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Naquilo que é "meu" estará meu sofrimento



O Zen é uma escola muito antiga e que não mudou o seu propósito e declara que a iluminação é possível nessa vida, agora mesmo, só depende de seu empenho. Por isso o treinamento Zen é duro e desconfortável, seu principal instrumento é o zazen, a meditação sentada. Enquanto formos movidos pelos ventos das paixões, orgulhos e vaidades, desejo de aparecer, de ser melhor que os outros e desejo de destaque dentro da Comunidade não conseguiremos despertar. Esses são motivos suficientes para fazer com que nosso ego cresça e nos perturbe. Se nos esforçarmos muito, mas dentro desse esforço existir um sentimento egóico, esse é suficiente para servir de pedra de tropeço. Por isso a harmonia é tão valorizada. Esse é o caminho do Zen.

Pergunta – O apego se remete a todos os sentidos da vida?

Monge Genshô – Sim. Em tudo que você colocar seu coração lá estará seu sofrimento. Não vivemos aqui impunemente. Com nossos corpos nós amamos e temos filhos, dessa relação surge um apego muito forte e difícil para o ser humano se desligar. Mas quando olhamos a nossa volta podemos perceber uma grande quantidade de sofrimento causada por outro tipo de apego. O apego a coisas materiais, apego a fama, a honra e apego ao desejo de agregar ao seu “eu” coisas, dando origem então, a palavras como “meu” e “minha”. Nesse “meu” é que vai estar seu sofrimento. Porque esses objetos de posse nos quais depositamos nosso afeto e amor material, serão as coisas pelas quais sofreremos. O amor verdadeiro que você tem por um filho, por exemplo, não aprisiona, não deve ser apegado. Você pode incentivar seu filho a fazer um estudo no exterior mesmo sabendo que quando ele embarcar no avião você entrará no seu quarto e irá chorar.

Pode ser também que o filho não se torne aquilo que desejávamos, nossas expectativas com relação a isso é que são a fonte de nosso sofrimento. O mundo está cheio de sofrimento, em tudo que colocarmos nossos olhos e dissermos “meu”, haverá fonte de sofrimento. Mesmo no caso de um amor verdadeiro como de mãe para filho, se dissermos “meu filho”, será fonte de sofrimento. Isso acontece porque as coisas não são estáveis, estão sempre mudando, dessa forma nada é seguro, nada é para sempre, tudo irá desaparecer, inclusive nós mesmos. Olhamos no espelho e nos admiramos, nos achamos bonitos e jovens, mas isso também é temporário, ficaremos velhos e tanto a juventude quanto a beleza passarão. Se nós pensarmos “meu” corpo, ele também será fonte de sofrimento.