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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Alaya Vijnana



Aluno:  É impossível lembrar?
Monge Genshô – Diz-se que existe um depósito de consciência universal chamado “Alaya Vijnana” onde tudo está registrado, e isso faz algum sentido, porque o universo não tem como esquecer. Tudo que acontece, de alguma forma fica registrado, os sons, as imagens, tudo, mesmo os traços do big bang permanecem como radiação de fundo. Teoricamente seria possível acessar essa consciência e saber tudo que aconteceu. 
Quando Buda iluminou-se, diz-se que lembrou-se de suas quinhentas vidas passadas.  Mas isso não é relevante, o interessante para nós é que tudo que amamos e fazemos de bom não está de certa forma perdido.  Por outro lado, tudo que fazemos de mal também está gravado. Do ponto de vista Budista não existe ninguém lá fora para nos julgar, toda a ética Budista está construída em cima de ação e consequência. Você terá que arcar com as consequências de cada ato seu. Não existe nenhum salvador para livrar você. A melhor maneira de obter melhores resultados é fazer coisas boas que redundam em coisas boas e que retornarão para você como coisas boas. A única maneira de apagar o mal feito é praticar mais o bem, de maneira que todo o mal seja finalmente superado pelo bem praticado. Mas de forma absoluta, para o universo, bem e mal não existem, é uma questão de perspectiva. Ontem eu respondi uma pergunta sobre bem e mal da seguinte maneira: “um jacaré come um pato na lagoa, isso é bom ou ruim”? Para o jacaré foi um almoço, para o pato um tragédia. Onde está o bem e o mal? Você não consegue responder.
 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Feitiço do tempo



Mas se você puder alcançar um esclarecimento perfeito e iluminado, não precisará retornar. Retornar para cá e repetir sem parar sempre a mesma coisa é um castigo. Parece bom, não é? Mas pense. Não escapar, estar preso a repetir sem fim sempre o mesmo tipo de vida, morrer, nascer e recomeçar tudo novamente. Existe um filme muito interessante chamado “O Feitiço do Tempo”, onde o personagem se vê obrigado a repetir todos os dias sempre o mesmo dia, ou seja, todos os dias são iguais, acontecem as mesmas coisas. Após alguns dias o que é que ele mais deseja? Morrer. Ele tenta várias vezes se matar e acorda sempre repetindo o mesmo dia. É a mesma coisa que acontece conosco. Acordamos e repetimos, morremos e repetimos. Não é que a vida tenha só sofrimentos, ela tem também coisas boas e alegres, mas termina muito mal. Todos nessa sala iremos morrer, sou um condenado à morte falando para condenados à morte.

Todos os dias quando me olho no espelho posso perceber o trabalho da morte, os cabelos e os dentes caindo, a pele enrugando e a fisionomia se transformando. Outro dia mostrei minha foto com vinte anos de idade para uma amiga e ela deixou escapar, “Mas o senhor era bonito”. Cada dia que passa estamos mais perto da morte. Cada um de nós está caindo de um precipício com uma corda amarrada ao pescoço, só não sabemos o comprimento da corda. Por isso o que devemos fazer com nossa mente, ou seja, transformá-la, exige certa urgência. O personagem do filme depois de mudar sua mente é que consegue escapar. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Para escapar só com outra mente



P: O que permanece então do ser humano? A onda volta para o oceano, e o ser humano volta para onde?

Monge Genshô – O que você deseja que permaneça? Olhe sua mão. Você acredita que alguma coisa dela permanecerá?

Aluno - Não.

Monge Genshô – E do seu corpo todo algo irá permanecer?

Aluno - Também não.

Monge Genshô – Também acredito que não. O que você pensa que permanece de uma onda depois que ela quebra na praia?

Aluno - A onda ainda é mar.

Monge Genshô – Ela sempre foi mar, não passou de uma manifestação temporária. Você também é uma manifestação temporária. Você quer permanecer, não é? Por isso está perguntando e por isso os homens inventam religiões. Você não precisa acreditar no que estou dizendo, pode ir lá fora e se agarrar em qualquer crença, existem milhares.

 Qual é boa para você? Nascer de novo? Repetir tudo?

As ondas na realidade se repetem. Se você olhar, é natural que haja continuidade, se há impulsos, há nova manifestação, se há uma nova manifestação é outra vida. É isso mesmo que o Budismo pensa. Se você tem desejos e apegos, estes geram novo nascimento, mas esse novo nascimento não é esse você de hoje, porque você já esqueceu tudo quando nasceu. Você é capaz de lembrar-se de algo de sua vida passada? Mas desde a infância você tem determinados impulsos, personalidade e desejos. Se é verdade que todo efeito tem uma causa, então existe uma causa pregressa para isso, mas não é você.

Uma mangueira nasce e morre, ela produziu frutos com sementes. Se você plantar o que irá nascer? Outra mangueira, isso é natural. Não irá nascer uma figueira ou coqueiro, irá nascer outra mangueira igual, mas não é a mesma mangueira. Eu posso dizer para você como era sua vida passada. Você quer saber? Era igual. Mesmo tipo de pessoa. Se são os mesmos impulsos, mesmos desejos e apegos, nasce um ser igual. Tem memória? Não. Tem um “eu” que permaneceu? Não. Mas então o que permanece de você? Seus atos, seus impulsos, sua mente e seus desejos. É essa onda no universo que permanece. Energia não desaparece, só se transforma. Essa é primeira lei da termodinâmica. Sabemos também que todo efeito tem causa. Sendo assim, tenho uma má notícia para você: não há como escapar desse mundo. Você está preso pelos seus desejos e apegos a esse mundo e condenado a repetições infindáveis a menos que você mude sua mente. Por isso você deve mudar sua mente nessa vida, para poder ter, nessa vida, uma vida mais feliz.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Uma bola de ferro incandescente para ser engolida



Em um famoso diálogo Zen, o aluno chega para o Mestre e pergunta: “O que o senhor tem para me oferecer no Dharma?”, e o Mestre responde: “gostaria muito de lhe oferecer algo, mas no Dharma só há uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. Essa bola é: “Você que tanto se ama não passa de uma ilusão de sua mente”.

Se você deseja despertar como o Buda, tem que acordar do sonho. Por isso Sidharta Gautama era um homem comum que quando desperta passa a chamar-se Buda, “o desperto”. Como ele era um homem comum como todos nós, todos temos a mesma capacidade de despertar. Aquele que acorda livra-se instantaneamente de toda dor, ilusão e sofrimento.

Nós construímos essa individualidade e nos agarramos à ela. Olhos iluminados vêem a vida e dizem “Que linda”. Alguns podem pensar que existem pessoas morrendo e sofrendo no mundo e que isso é trágico, mas eu lhes pergunto se as florestas são trágicas? Há nesse momento folhas e árvores morrendo nas florestas, existe tragédia nesse acontecimento? Não, não é mesmo? Olhamos as florestas e não lamentamos os troncos e folhas mortas. Essas folhas se transformarão em húmus e os troncos caídos e mortos servirão de abrigo e morada para outros seres vivos. Vemos todos esses fenômenos que ocorrem nas florestas como naturais e pensamos, “Que maravilha que é a natureza”. Porque não temos a mesma visão sobre a vida dos homens? Porque a vemos com olhos iludidos. Essa é a essência do Budismo, desculpem-me se isso parece terrível.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés



Porque temos uma mente que pensa, pensamos “eu sou”. Por isso Descartes disse, ”penso logo existo”. Para o Budismo a frase correta é, “Penso, por isso penso que existo”. Somos uma ilusão ambulante com um cérebro fabricando continuamente a noção de um “eu”. Por estarmos continuamente fabricando a noção de um “eu” nos perdemos da interconexão, interdependência e da unidade de todas as coisas.

Voltando à analogia da onda. Somos uma onda e não percebemos que somos mar. As ondas surgem e desaparecem, o mar não. As pessoas ficam tristes quando vêem uma onda morrer na beira da praia? Não, as pessoas olham o mar e dizem -”Que lindo”. Quando as pessoas olham as ondas quebrando, elas vêem o mar e sua verdadeira natureza, e sabem que as ondas são manifestações que surgem e desaparecem na sua superfície, sempre retornando a ser mar, a única realidade verdadeira. A dimensão suprema do oceano é o próprio oceano. As ondas vivem numa dimensão histórica, surgem e desaparecem, surgem e desaparecem continuamente. Isso é muito claro sobre o mar, não é? Mas não é igualmente claro sobre nós mesmos.

Vemo-nos como ondas, pensamos que existimos e temos medo de morrer na beira da praia. Porque não nos vemos como o próprio oceano, perdemos de visão nossa verdadeira natureza, só percebemos nossa natureza temporária, que surge e desaparece, sofremos e temos medo de morrer. Por termos esse medo e essa angústia existencial, inventamos religiões. As religiões existem para dar uma crença na continuidade do “eu”. Por isso inventamos almas e espíritos imortais. As religiões sempre fizeram isso. Os egípcios mumificavam seus corpos para sobreviver à morte. Os gregos acreditavam que após a morte os bons iriam para uma ilha onde a comida caía do céu e poderia se passar tempo discutindo filosofia. Para os Vikings o céu era uma eterna guerra de muitas batalhas e saques. Em todas as religiões há uma solução para salvar o “eu” após a morte.

O Budismo não se encaixa facilmente como uma religião porque não tem nenhuma crença desse tipo para oferecer. O Budismo lhe diz: “Você está iludido e estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés”.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sidharta Gautama era um jovem angustiado



Sidharta Gautama era um jovem angustiado. Pensava no futuro, tudo acaba em velhice, doença e morte. Quando ele viu a face de um asceta e percebeu seu rosto tranquilo, resolveu largar tudo, sua família, seus pais e seu palácio. Partiu para a floresta onde ficou seis anos praticando ioga, meditação e fazendo jejuns constantes. Mesmo assim não conseguiu seu objetivo. Após esse período ele sentou-se sob uma árvore e prometeu a si mesmo não levantar-se enquanto não solucionasse os problemas do sofrimento. Após sete dias, no amanhecer do oitavo dia ele vê a primeira estrela da manhã e diz: “Que maravilha! Eu, a grande Terra e todos os seres simultaneamente atingimos a iluminação!” Ele entendeu que seu “eu” era uma construção e diz para si mesmo: “Você não me enganará mais”. Sua descoberta é que o “eu” é uma construção de nossa mente e de sucessões de pensamentos. Porque pensamos sem parar pensamos que somos nós. Esse ser que acredita em si mesmo, nasce e morre. Ele é um fenômeno. Tudo que nasce, envelhece, adoece e morre. Ele descobre que não é isso, que é algo muito mais profundo. Vou tentar explicar com analogias.

O vento não existe por si mesmo, ele é um movimento do ar. As ondas não existem por si mesmas, são movimentos da água. Nós não existimos por nós mesmos, somos movimentos dos pensamentos.
(continua)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Felicidade está aqui, infelicidade precisa ser construída



Quando você aprende meditação, você faz um treinamento da mente. Nos primeiros estágios esse treinamento lhe aumenta a capacidade de concentração e você aprende a ficar no momento, concentrado no que é realmente importante. Quando você está viajando para passado ou futuro, nada disso é importante. A memória do passado é construída, você tem lembranças dos eventos, mas você os vê sob seu ponto de vista, em razão disso são distorcidas por suas próprias percepções. Isso é muito fácil de percebermos pois, se alguém entrar agora na sala e fizer um pequeno teatro, o relato de cada um de vocês será diferente. Não podemos dizer que o relato de um ou de outro seja verdadeiro, ele será o ponto de vista particular, carregado de emoções, um ponto de vista particular, isso é a memória. 

Hoje temos um grande numero de pessoas com depressão, tristezas ou remorsos no mundo. Esses sentimentos são predominantemente causados pelo passado. A pessoa percebe como foi sua vida passada, como se formou, como é sua mente e sua vida hoje em razão de acontecimentos passados, por isso vemos tantas pessoas tomando anti-depressivos. Nesse momento, sem passado algum, sem qualquer tipo de memória, somos plenamente felizes, pois não carregamos coisas anteriores.

Outro problema é o futuro. O que farei amanhã, dívidas que terei que pagar, problemas a serem resolvidos, tudo isso gera ansiedade. Quando você vive no futuro é ansioso, quando vive no passado é deprimido. Quando sentamos para praticar zazen, estamos treinando nossa mente para retornar para a única realidade sólida, que é o momento presente. Temos que compreender e aprender que tanto passado como futuro são construções e representações mentais e em si não são realidades.

Problemático isso, não é? Isso é porque olhamos a vida como se o presente não existisse. Observem as pessoas nas ruas e tentem perceber isso, se pudéssemos ler suas mentes veríamos passado, passado, passado, ou então, amanhã contas a pagar, problemas a resolver. Uma vez conversando com um mestre ele me disse: “Sabe o orgasmo? É o único momento em que as pessoas estão realmente ali presentes”. E não é verdade? Se a pessoa naquele momento pensar em passado ou futuro, não consegue. A experiência de viver o momento presente é uma experiência maravilhosa, é a pura felicidade. As pessoas vivem procurando a felicidade, ela está disponível, está disponível no momento presente, não no passado ou futuro. A infelicidade é que é construída, construída por nós mesmos com nossas mentes.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Mitos, metáforas, realidades



Muitas coisas que são crenças ou que são expressas através de mitologia são na verdade metáforas. Os mitos não são afirmações, mas sim metáforas e têm que ser entendidos desta forma. Se você conseguir ver os mitos como metáforas, irá aprender muita coisa. O Livro de Gênesis, por exemplo, tem a história do paraíso onde Adão e Eva viviam uma vida perfeita e Deus lhes disse para nunca comerem do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Mas, como sabemos, Adão e Eva comem da árvore e se descobrem nus, sentem-se envergonhados. Antes, eles eram inocentes e não tinham consciência do bem e do mal. Existem duas formas de ver essa história. Uma, é quando você vai a uma igreja e alguém lhe diz que isso realmente aconteceu, está escrito na Bíblia e se fizermos a contagem regressiva alcançaremos seis mil anos, portanto se alguém disser que a Terra tem mais que seis mil anos está mentindo. Isso é olhar o mito não como uma metáfora, mas sim como uma verdade incontestável. Mas o mito é belíssimo e diz que o homem era puro, não tinha consciência do bem e do mal assim como o pássaro sobre que o Léo perguntou. Quando ele come da árvore do conhecimento, descobre uma mente dual, o bem e mal, descobre a nudez e a malícia e, neste momento, ele perde o paraíso, é expulso. Na porta do paraíso é colocado um anjo para que ele não retorne. Mas ele não poderá voltar de qualquer forma, pois agora tem uma mente dual. E para o Budismo? Eu falei anteriormente: "os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, só o homem não é verdadeiramente homem". Por que não? Porque ele pensa e pensa em bem e mal, certo e errado, gosto não gosto, minha mente e outra mente e assim por diante. Por passar a pensar e pensar desta forma, perde o paraíso e a felicidade. Não consegue mais viver o momento presente como os peixes e pássaros, passando a pensar na morte, na finitude das coisas, nas coisas que possui e por essa razão ele se perde.

Por isso a instrução do Zazen é não pensar no passado ou futuro, certo e errado, bom ou ruim e culpa ou mérito. Apenas fique no momento presente, treinem isso agora porque essa é a mente que retorna ao paraíso. Isso é muito bonito, mas temos que entender as metáforas pode ser uma belíssima metáfora, mas se você ler como uma verdade explicita, estará cometendo a mesma ignorância dos fundamentalistas que interpretam os mitos como se fossem realidades.

(Final, palestra proferida em Florianópolis, decupada da gravação por Chudô San, revisada por Rachel San)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Budismo popular e budismo monástico



P: Não sei quanto ao Zen, mas em outras formas de budismo, por exemplo, se fala em demônios, inclusive com uma série de práticas para afastá-los, então existe algum ente de fora que está sendo considerado.

Monge Genshô – Isso funciona da seguinte forma: Existe um Budismo popular e um Budismo mais elevado. No Budismo Tibetano esse estágio mais elevado chama-se “Dzogchen” que é como o Zen, mas, o Zen, é o “caminho direto” tende a desprezar o lado popular, ao menos em sua teoria. O Zen dá respostas diretas descartando tudo que veio antes porque foi criado para monastérios e sua forma popular só surgiu mais tarde como uma espécie de concessão.

Como o Budismo Tibetano foi criado, com grande generosidade,  para atender às necessidades de toda uma nação, precisava criar recursos para atender aos analfabetos e ignorantes. O modo mais fácil de lidar com ignorantes é dar a eles um rosário e instruí-lo a dar voltas em torno do templo recitando mantras com o intuito de atrair boas energias, entidades benéficas e afastar os demônios. Como o povo tibetano tinha uma tradição xamânica com entidades e demônios, essa era a melhor solução. Isso é uma constante na história do Budismo - em vez de se jogar contra a cultura local, ele a adota e tenta transformá-la.

Vou dar um exemplo bem fácil de entender. Chega uma pessoa aqui na Sangha e diz que fará uma viagem de avião e está com muito medo de morrer. Como Monge , eu lhe daria um amuleto, “Jizo Bosatsu”, protetor dos viajantes e diria que a viagem dele estava protegida e nada aconteceria. Ele se agarraria ao amuleto confiante, feliz e tranquilo. Nesse caso, eu teria feito o bem que poderia ter sido feito para aquela mente. Estaria usando o mesmo que as formas de budismo que você cita fazem.

Mas, se chegasse um Monge, que se pressupõe estar num nível mais alto de compreensão, com o mesmo problema de medo, minha resposta seria outra, eu perguntaria – “de onde vem o medo”? “Isso vem da minha mente, estou criando esse medo” - poderia ser uma resposta, e então eu diria - “Mas por que você esta criando isso, de onde surge o medo? Você não está praticando sua meditação corretamente, vá sentar-se e livre-se da sua imaginação, de suas expectativas de futuro e viva o presente e assim você poderá fazer a viagem sem hesitar”. São duas maneiras completamente diferentes de tratar o mesmo problema.

O Budismo tem esses aspectos, mas o Zen foi criado como treinamento monástico e surgiu na China no século VII como um treinamento muito lúcido e claro, destinado a Monges. Já havia o Budismo há pelo menos quinhentos anos na China quando o Zen chegou. Isso que estamos presenciando aqui, leigos ouvindo ensinamentos dados a Monges, é uma invenção ocidental. Esses ensinamentos são muitas vezes desconfortáveis, muitas pessoas não querem ouvir isso. Outro dia li uma carta onde uma pessoa se dizia desconfortável e arrasado sem ter onde se agarrar pelo fato de ter ouvido meus ensinamentos. É assim mesmo, eu sou um professor do Zen e não um professor de Budismo devocional para falar sobre deuses, demônios e espíritos. Se for para alguém se agarrar em uma divindade protetora, porque irá sair do Cristianismo devocional? Se a crença desta pessoa funciona para ela, não há porque procurar por algo diferente e de outra cultura. Não vejo motivo para uma pessoa largar sua tradição devocional e ir atrás de outra. Se o que ela acredita está bom para ela, deve ficar com suas crenças. O único motivo para você ir atrás do Zen é se você não se sente confortável com crenças. Se você precisa de uma crença para se agarrar seu lugar não é aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Criado de dentro para fora



Aluno - E quem controla essa manifestação? Se não sou eu quem controla, de onde vem esse controle?

Monge Genshô – Quem controla a gravidade, a chuva e os ventos? Nós sempre desejamos um “quem” por trás de todas as coisas, mas nem em você existe um “quem”. Quem dentro de você pensa? Você saberia me dizer? Quem é essa dentro de você que pensa?

Aluno – A mente.

Monge Genshô – E quem é essa mente? Quem controla essa mente?

Aluno – Eu ou aquilo que a gente pensa que é.

Monge Genshô – Você pensa que controla sua mente. Mas se é sua mente que pensa, que mente que pensa e que mente que controla o pensamento? Você tem duas mentes? Uma controladora e outra pensadora?

Aluno – Não. Penso que seja uma manifestação maior que eu, que está por trás e que criou...

Monge Genshô – E quem controla essa manifestação?

Aluno – Deus?

Monge Genshô – E quem controla esse Deus? Se ele parar e pensar, “Eu penso, mas quem me controla”? Qual seria a resposta que ele encontraria?

Aluno – Não, ele é a expressão de tudo.

Monge Genshô – E por que você não é a expressão de tudo?

Aluno – Eu quero ser a expressão de tudo, mas tenho que me livrar desse “eu”.

Monge Genshô – Mas então por que você atribuiu esse “eu” a alguém fora de você e por que esse “eu” fora de você não tem o mesmo problema que você? Ele teria, não é mesmo?

Aluno – Não.

Monge Genshô – Por que não? Se ele tem uma mente e pensa, perguntaria: “quem me criou”?

Aluno – Não vejo dessa forma. Ele é, logo já sabe tudo...

Monge Genshô – Mas então por que você não é?

Aluno – Alguma coisa aconteceu que mudou tudo isso...

Monge Genshô – Não poderia ter acontecido a mesma coisa com ele?

Aluno – Não.

Monge Genshô – Por que não?

Aluno – Porque ele já é tudo, ele cria...

Monge Genshô – Você está querendo atribuir isso a uma definição. Existe alguém atrás de mim que sabe tudo, pensa tudo e que sabe o motivo de tudo.

Aluno – Não acredito que ele, por exemplo, fosse criar o sofrimento. Se eu soubesse que sou parte dessa célula, não iria criar sofrimento para eu própria sofrer...

Monge Genshô – Mas então por que esse ser atrás de você criou o sofrimento?

Aluno – Não sei se foi ele quem criou. Pode ter sido algo...

Monge Genshô – Ah, então existe outro além dele capaz de criar e que criou o sofrimento?

Aluno – Não sei, é o que eu gostaria de saber.

Monge Genshô – A resposta é não. Isso é uma regressão sem fim. Se eu criar alguém extremamente bom atrás de nós, precisarei criar alguém extremamente mau para poder explicar a existência do mal.

Aluno – E sobre o véu de Maya, o véu da ilusão?

Monge Genshô – O véu da ilusão é que cria todas essas armadilhas. Nós criamos soluções através de regressões, por exemplo, como não sei como isso surgiu, eu crio algo atrás de mim para explicar o surgimento disso. Veja bem, os gregos não sabiam o que era o sol, então criaram o Deus do Sol que era Apolo e guiava o carro do sol todos os dias. Dessa forma, eles atribuíram à Apolo a solução do sol. Mas alguém poderia perguntar: “Mas e Apolo, de onde surgiu”? Para resolver esse problema, Apolo é filho de Zeus. Mas Zeus é filho de quem? Então criaram um Deus que era pai de Zeus a quem Zeus matou. E assim por diante.

Quando você cria uma explicação, tem que criar uma regressão para explicar o surgimento da explicação. Para resolver esse problema o Budismo nunca fala sobre essas coisas. Nós estamos raciocinando para ver como é a historia do pensamento, mas o Budismo não tem esse tipo de respostas ou perguntas, “quem foi que fez isso”? Ninguém controla sua mente, ela é sua. Você tem o poder de ser senhor de sua mente, completamente, não existe ninguém comandando sua mente do lado de fora. Você pode induzir sua mente a se sintonizar e trabalhar com outras coisas, por exemplo, você falar palavras boas e criar um mundo bom ou pode viver a reclamar e insultar e criar um mundo semelhante a isso, atraindo pessoas com energia semelhante. Você cria seu mundo. No Budismo o mundo não é criado de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Não atribuímos nada a uma força externa.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Mais perto porque não sabe



P: De certo modo, uma ave que é simplesmente uma ave, está mais próxima de sua natureza búdica do que os seres humanos?

Monge Genshô – Por não saber de si mesma está. Por sabermos de nós mesmos, nos perdemos. Imaginem que fôssemos pássaros. Se eu fosse um pássaro, chegasse à beira do ninho e pensasse, “nunca voei, mas posso voar”, teria um grande medo. Pelo fato de pensar no vôo e na queda, teríamos medo. Uma águia na beira do ninho não pensa, e por isso alça vôo.

Estava ouvindo um concerto de “Rachmaninoff”, o concerto numero três, que é um dos concertos mais difíceis de ser executado, é uma espécie de terror dos pianistas. Extremamente complexo, com uma tempestade de notas. Quando prestamos atenção no terceiro movimento e vemos as mãos voando no teclado, logo entendemos que não pode haver um pensamento por trás. Se em algum momento o pianista pensar na próxima nota, é impossível tocar.

Há uma piada Zen em que alguém pergunta para uma centopeia: “Qual é a perna que você mexe primeiro”? Desde então ela não conseguiu mais andar. Isso está presente em nossas vidas o tempo todo. Mesmo que não prestemos atenção, pode aparecer alguém com uma crise de ansiedade e dizer que tem medo de esquecer-se de respirar, coisa que uma pessoa sadia não pensaria. A mesma coisa acontece com uma pessoa que, ao deitar-se, deseja ficar bem atento ao exato momento em que irá adormecer. Há este momento em que acontece uma mudança no cérebro e a pessoa adormece, se você prestar muita atenção não irá dormir, porque para dormir precisa esquecer. Em geral estamos perdidos e não conseguimos viver completamente, em razão desta questão. Então a resposta é sim, o pássaro está mais perto porque não sabe.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os pássaros são verdadeiramente pássaros...



Por que o Dharma é raramente encontrado? Primeiro porque mesmo que existam muitas oportunidades de vida no universo, na Terra nós estimamos - mesmo que a ciência tenha dificuldades em estimar - que trinta bilhões de formas diferentes de vida já surgiram. Dessas formas de vida, 99,9% já se extinguiram e, desta forma, restam muito menos espécies do que já existiram em nosso planeta.

Esse não é um evento de agora, já tivemos várias extinções de vida na Terra. O primeiro grande momento de explosão de vida foi o período Cambriano, onde surgiram os “trilobites” e dos quais hoje não sobra nada. Das grandes florestas do período carbonífero também não restou nada. Já tivemos na Terra uma atmosfera redutora que não era baseada em oxigênio. Quando a Terra produziu muito oxigênio e a atmosfera começou a ter cada vez mais O2, este era um gás muito venenoso para as espécies anaeróbicas e extinguiu praticamente toda a vida no planeta. Tivemos a extinção do Período Cambriano, depois a extinção dos dinossauros e dos animais de grande porte. Os únicos animais que sobraram foram os muito pequenos que viviam em tocas e não foram afetados pelos meteoros que atingiram o planeta mudando seu clima. Dentre esses pequenos animais encontravam-se alguns mamíferos e desses descendem os mamíferos que hoje habitam o planeta.

Uma única espécie de hominídeo sobreviveu entre várias, com um cérebro melhor dotado, foi povoando o planeta. Então, desses trinta bilhões de espécies que já habitaram o planeta, uma única conseguiu desenvolver uma civilização. Ainda assim, é uma história muito recente de apenas dez mil anos, se contarmos a história da agricultura, frente aos quatro e meio bilhões de anos da Terra.

Os faraós morriam em média com trinta anos de idade. Nesse momento em que estamos, vivemos o dobro do que vivíamos em meados do século XX. E isso aconteceu dos anos quarenta pra cá, antes disso havia mais homens que mulheres porque as mulheres morriam no parto. Mas isso é para ilustrar que cada pessoa dessa sala é descendente direto de uma linhagem de vida que começa por volta de dois bilhões e meio de anos atrás. Somos descendentes daquele início de vida. Parece que a matéria inorgânica no universo tende a formar vida. O mais extraordinário é que cada um de nós pode traçar uma genealogia até um ser unicelular, até dois bilhões e meio de anos atrás. Pode ser que alguns de vocês não tenham descendentes e a linhagem morra com vocês.

Somos descendentes dos que ganharam guerras, cometeram crimes, estupraram e dos que fizeram com que seus genes fossem adiante. Não somos uma linhagem de pessoas boazinhas e sim daqueles que ganharam a batalha da sobrevivência. Não é de se admirar, portanto, que olhemos para dentro de nós e vejamos sentimentos agressivos e muitas coisas que vêm dessa linhagem herdada.

Tudo que foi dito é para chamar atenção para o fato de que, mesmo que exista vida em bilhões de mundos, é muito provável que existam mundos com vida estuante, mas sem que uma única espécie tenha desenvolvido a capacidade de criar civilização e que isto seja um acontecimento muito breve na história de um mundo ou universo e, mesmo assim, somos prodigiosos no sentido de nossa sobrevivência.

Devemos nos perguntar então, como surgiu a espiritualidade, como surgiram as perguntas “por quê estou aqui? Como surgiu minha consciência? Como é que desenvolvemos uma consciência tal que compreendeu sua finitude e se viu em um beco sem saída”? Os pássaros, os peixes, os micróbios, nossos corpos cheios de vida, não são nossas próprias células; mais da metade do nosso peso são de bactérias que coexistem simbioticamente e nos ajudam a sobreviver. Como aconteceu algo tão complicado, como cada célula tem um código de vida tão longo que estendido chegaria a dois metros? O que é isso que aconteceu conosco? O que é essa mente que pensa dentro de nós? Quem é esse que diz “eu sou”? Por que tememos uma morte que sabemos ser certa?

Os pássaros e os peixes não pensam nessa morte que para eles também é certa. Apenas vivem. Então, "os peixes são verdadeiramente peixes, os pássaros são verdadeiramente pássaros, só os homens não são verdadeiramente homens". Existe algo dentro de nós que pensa fora disso, “não somos verdadeiramente seres humanos”. Algo dentro de nós deseja mais, por isso nos angustiamos com nossa finitude e queremos descobrir um sentido para nossa vida.

Buda teve o mesmo problema e ele sentou e meditou, para resolver esse problema. Mas ele resolveu de forma diferente de todos os outros que apresentaram à humanidade crenças e esperanças de sobrevivência eterna de seu “eu”. Ele descobriu que o “eu” construído por ele é que é a ilusão e libertar-se dessa ilusão, é voltar-se para a verdadeira natureza. O universo inteiro sou eu mesmo. Ele entendeu que essa expressão de vida que falamos aqui é mera manifestação, não é uma criação. Somos fagulhas do universo. Não temos como sair do universo, estamos sujeitos a nascimento e morte, aliás, essa ilusão de um “eu” pessoal é que está presa a nascimento e morte. Tão logo passo a pensar, eu penso: “eu sou”, e esse “eu sou” sabe que é função desse corpo e desse cérebro e por isso surge e desaparece, essa é a tragédia do homem, essa consciência do “eu sou”.

A iluminação da qual Buda falou, é libertar-se completamente do “eu sou” e voltar a perceber-se como o todo abrangente, o grande ser que está além desta manifestação pessoal. Esse grande ser que nós e todos os outros seres somos, não está sujeito a nascimento e morte. Embora seja cíclico, surja e desapareça, ele é a própria vacuidade e dele surgem todas as coisas, não é um algo do qual surgem todas as coisas, mas é a própria natureza de todas as coisas e todos os seres. Serem vazios de um “eu” inerente.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O compromisso cria bom carma


P: A impressão que tenho é que antes de praticar eu não tinha muitas escolhas, parece que eu era conduzido...

Monge Genshô – Isso é verdadeiro. No brasão de São Paulo tem uma frase em latim, “Non Ducor Duco”, que significa “Não sou conduzido, conduzo”. Isso serve para nós. Temos que passar a conduzir. Isso significa ganhar a liberdade da escolha. Se somos escravos de nossos impulsos, nós só os reforçamos. Temos que criar condições para que eles mudem. Como estava falando para o Monge Tokushi, você “escolhe” ser Monge, então cria um carma que arrasta você, não pode mais fazer certas escolhas, se quiser fazer o que quiser, deixe de ser Monge. Agora que colocou o manto, tem obrigação de ir à Sangha, tem que assumir compromissos, tem que estar nos sesshins. Se falhar em seus compromissos eu o repreenderei, pois ele assumiu o compromisso, não pode falhar.

Essa é a maneira de criar o carma que ele pediu. O leigo que costura seu Rakusu é a mesma coisa, fez os votos, não fez? Então como você fala mal dos outros? Ou observa os defeitos dos outros em vez de olhar os seus próprios? Está lá, o voto diz explicitamente que você deve evitar falar das falhas dos outros, que você se comprometeu a ajudar a Sangha e seu professor nas dificuldades e não procurar erros e comenta-los,  você disse na frente de seu mestre, “eu me comprometo”.

Quando você faz os votos, cria carma, colocar o Rakusu, cria carma. Você pode ignorar, mas você se comprometeu.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Tivemos escolha ?


P: Eu sei que cada um é responsável, mas e as pessoas que aparentemente não tiveram escolha?

Monge Genshô – Na realidade a pessoa aparentemente não teve escolha porque construiu carma, então fica preso naquela circunstância. Existe uma história Budista de um homem que está no inferno. Um sofrimento terrível. Ele passa todo tempo juntamente com outras pessoas, empurrando um carro pesado enfiado na lama. Sofrimento e dor contínuos. Ele só consegue pensar nisso, dor e sofrimento. Um dia alguém do lado dele cai na lama e ele, cedendo à um impulso, que dentro de seu egoísmo não lhe é natural para resolver sua dor, vê o outro, larga o que está fazendo e sem se importar com as chicotadas ele se inclina e ajuda seu companheiro a se levantar. Nesse momento ele sai do inferno. A única maneira de escapar de onde estamos metidos é mudar nossa mente. Mudando a mente, muda tudo. Parece que a pessoa não teve escolha, mas teve no passado, não acontece nada conosco que não mereçamos. Nada. Tudo que acontece, merecemos de alguma forma, no mínimo, por termos nascido neste mundo, por termos escolhido esse mundo, essas casualidades, guerras, terremotos, ódio, egoísmo.

Mas porque escolhemos esse mundo? Porque nos sentimos atraídos por ele. É a mesma coisa que acontece com as pessoas na cidade. A pessoa chega em uma cidade e pode fazer o que quiser, várias coisas. Ela chega à essa cidade desconhecida, pode se sentir atraído a entrar numa igreja, museu, parque, mas também pode perguntar “onde tem um boteco que eu possa beber?” As escolhas são dele. Ele vai para o lugar onde se sente atraído. Nosso carma se sente atraído para se manifestar num mundo em particular, numa família em particular, um país em particular, onde existam as condições parecidas com aquilo que nos atrai, que sempre nos atraiu, com corpo e impulsos daquilo que já nos atraiu. Estamos presos aos nossos impulsos e não conseguimos escapar. Então a vida que vivemos é construída por nós mesmos e quando dizemos, “não teve escolha”, sim, teve, talvez não agora, agora parece uma grande injustiça, mas existe uma causa passada, porque não existe efeito sem causa. Quando algo cai no chão podemos dizer que nada criou a condição para que ela caísse? Todos os efeitos têm causa, mesmo os que parecem injustos.

Procure as coisas elevadas


P: A idéia de que todos os seres se iluminam, não seria uma idéia desse tempo que transcorre?

Monge Genshô – Mas um tempo muito, muito longo. A duração de um universo. Então, o fato de haver uma tendência à um aumento de consciência e de clareza, a longuíssimo prazo, no âmbito que nós olhamos, de nossas vidas, ou de poucas vidas, é imperceptível. Não é muito difícil destruir sua vida. Existem pessoas com vidas maravilhosas, talentosas, tornam-se artistas, começam a ganhar dinheiro, fama e alguém lhe oferece drogas. Em pouco tempo temos uma pessoa totalmente drogada, sem trabalho, sem amigos e que ninguém quer por perto. Então essa pessoa morre, morre de overdose. Essa pessoa tinha tudo e perguntaríamos, “mas porque”? Tinha tudo que alguém poderia ambicionar, talento, beleza, saúde. Nasceu com excelentes condições cármicas, nasceu para ter uma vida divina, com tudo que quisesse, pelo menos em termos materiais. E essa pessoa consegue destruir tudo, morre numa péssima condição, basta você se deixar arrastar, então, é fácil destruir sua vida ou causar grande sofrimento às pessoas que estão a sua volta, é muito fácil, é só ceder a prazeres fugazes. A longuíssimo prazo pode-se sair disso? Sim, mas quantas vidas você terá que repetir fazendo a mesma coisa se você constrói um carma assim? A mente com que a gente morre é muito importante para a próxima vida. A tradição diz que o mais importante é o impulso final, o que acontece agora na hora da morte, que mente eu tenho? Isso é a coisa mais importante e, como você não escolhe a hora da morte, é melhor ter uma mente preparada. O melhor é se sentir atraído pelas coisas boas, quem se sente atraído pelas coisas elevadas irá nascer em um ambiente onde as coisas elevadas estão disponíveis. Agora se você procura o fugaz, o baixo, o maldoso, irá nascer numa vida cercada por essas condições, pois se sentirá atraído por isso.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Com os olhos abertos



Mas voltando ao tema inicial, construímos o sofrimento e fazemos os votos de Bodhisatva não apenas para escapar do sofrimento, mas para diminuir o sofrimento de todos os seres, mas isso pode ser um caminho bem complexo, cheio de idas e vindas e temos que aceitar com tranquilidade o fato de que existe mudança. Essa pessoa que me disse que o sofrimento que existia “desapareceu”, simplesmente ela está dizendo que, quando frente à um problema, ela pensa e só depois resolve, e aí lhe perguntam: “Mas você não vai reagir?” ao passo que ela responde: “Depois eu resolvo, agora vou dormir”.

Se você conseguir dormir frente à um grande problema, fico muito feliz com esse fruto da prática, sinal que você aprendeu a comer a frutinha vermelha, doce, e depois vai pensar no tigre lá embaixo, afinal de contas ele é inevitável, completamente inevitável. Já estou no precipício, a vida é um precipício. Melhor ainda se for capaz de saltar com os olhos abertos.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Uma ambição e um obstáculo



Às vezes as pessoas se perguntam, “qual o sentido da vida?” elas querem respostas para perguntas como, “por que estou aqui?”, “para onde vou?”, “de onde eu vim?”, são perguntas centradas no “eu”. “De onde eu vim?” pressupõe que existia um eu antes que me desse conta. “O que estou fazendo aqui?” tem que haver um propósito para minha existência, um propósito dado por algo superior. “Para onde eu vou?” meu “eu” tem que continuar para sempre, desejo a estabilidade do “eu”, mas nem o “eu” é estável, ele também está em contínua mudança e, como Buda explicou, é tudo uma ilusão, o “eu” é uma construção.

Mas, isso tudo não quer dizer que não vivamos as consequências dos nossos atos, sim vivemos, porque na verdade não somos um “eu”, somos um carma se manifestando e o fruto dessa manifestação, um ser, ele é que diz “eu sou”. Então o “eu” é produto de uma operação mental, só isso, e por isso ele é construído e ilusório. Se temos tal fluxo que vai mudando tudo e mesmo esse “eu” não é sólido, mas carma, tudo o que provocamos, fazemos e tentamos, produz movimento e esse movimento continua gerando novos “eus”, por isso existe renascimento, porque geramos carma.

Se queremos nascer melhor, termos vidas melhores, então basta mudar o carma, mas se queremos escapar desse ciclo precisamos ambicionar mais alto, precisamos ambicionar uma iluminação completa, aí sim, a iluminação completa nos tiraria do ciclo. Mas isso é um trabalho de longo prazo, e veremos que a própria ambição é um obstáculo pois é a ambição de um eu. Quando Buda se iluminou, lembrou-se de quinhentas vidas. Quinhentas manifestações com “eus” diferentes do seu carma, quinhentas vidas como Bodhisatva antes de ser Buda. Por isso não se admirem que quando a gente senta é tão difícil, porque para pararmos essa energia que nos move e podermos ser como Buda precisamos de um longo trabalho, e aí eu lhes pergunto, em que ponto vocês estão dessas vidas? Já são Bodhisatvas?

O que é um Bodhisatva? Alguém que se manifesta nesse mundo porque quer, porque sente compaixão pelos outros seres, então tem que ter uma vida de Bodhisatva. Quando costuramos o Rakusu e fazemos os votos, esses votos chamam-se “Votos de Bodhisatva”.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Vivendo na mudança


(continuação)
Nós corremos dos sofrimentos, porque fugimos dos sofrimentos, (do tigre) e caímos em um precipício. Nos agarramos tenazmente à vida, mas se prestarmos atenção, o dia e a noite, roem as raízes da existência e nós vamos cair, é só uma questão de tempo. Na verdade a vida é doce e bela se soubermos aproveitar o momento. Percebam, é muito bom estarmos sentados nas cadeiras agora, não é maravilhoso? Sintam essa maravilha, agora os joelhos não doem e podemos nos encostar, não é uma felicidade isso? Então, o sofrimento que nós enxergamos na vida é temporário, impermanente e é construído por nós.

Como? Ele é construído como Buda nos ensinou dentro das “Quatro Nobres Verdades”. Existe uma causa, a causa é nosso apego. Nos agarrarmos à coisas flutuantes querendo que elas sejam estáveis; nos agarramos ao arbusto querendo que ele seja firme e sólido e nunca caia. Mas isso é impossível, pois não é da natureza da vida, a natureza da vida é ser instável, nada é certo. Para sabermos viver temos que olhar nossos projetos como instáveis, nossos negócios como vendáveis, como falíveis, nossos empregos como passíveis de se perder, nossa saúde como passível de ser perdida.

Se virmos que a vida é toda instável e não sólida, então, não poderemos construir nossa felicidade nos agarrando  à fantasia de uma estabilidade. Temos que considerar todas as coisas como findáveis, amores, pessoas, filhos, casas, empregos, negócios, empresas, todas as coisas são flutuantes e a felicidade não está em esperar que elas sejam boas, estáveis e firmes, pois elas não serão.

A vida é um fluxo cheio de coisas boas e ruins acontecendo. Podemos olhar para nosso país e nos perguntarmos: “por quê tanta corrupção, por quê as coisas não funcionam, por quê?” Mas estamos perdendo de vista o fluxo da vida. Este país começou com um genocídio, começou com os europeus espalhando roupas de pessoas infectadas com varíola aos índios, para os verem morrer em grande quantidade. Nações inteiras, como os Tamoios, foram liquidados assim. Existe um quadro do Vitor Meirelles, “O Último dos Tamoios”, que quando eu era criança olhava e pensava: “por que o último dos Tamoios”? Simples, porque não sobrou nenhum.

Sim, o mundo hoje não é bonito nem bom, mas só podemos entender como é melhor se olharmos para trás e vermos como foi e como agíamos no passado. Hoje há indignação com o mal, antes não existia. Era visto com natural. Então, não é um mundo bom, mas melhorou algo. Se olharmos o fluxo das coisas poderemos entender que há uma mudança contínua e temos que viver na mudança, pois está tudo mudando e nós mudamos junto, estamos aceitando toda a mudança sem lágrimas, porque é assim, este é o fluxo da vida e tudo que nos resta realmente na vida é comer os doces frutos vermelhos.(referência ao conto zen do precipício contado na postagem anterior)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Há frutos a serem saboreados



Ouvindo uma pessoa hoje, estávamos falando sobre a prática e ela me contou sobre a sensação do sofrimento, um sofrimento que havia no passado e que no momento não existe mais, mas o interessante é que as condições em si são as mesmas, a mesma vida, os mesmos problemas, as mesmas doenças, as mesmas pessoas.

Talvez na verdade eu possa adivinhar, que dado que o tempo passa , na realidade as condições são piores. No entanto surgiu tranquilidade e o sofrimento desapareceu, essa é uma coisa maravilhosa, porque mostra a capacidade da prática Budista de mudar a perspectiva com relação à vida.

Porque o sofrimento é construído, nós o construímos de acordo com as condições, mas a felicidade está disponível. A felicidade está plenamente disponível. Tem uma famosa história Zen de um homem que cai em um precipício, ele estava sendo perseguido por um tigre. Ao cair, ele se agarra à um arbusto que havia na beira do precipício, olha para baixo e vê outro tigre. Percebe, então, dois ratos roendo a raiz do arbusto, um rato preto e outro branco. Ele observa que no arbusto existem umas frutas vermelhas. Então ele segura-se firmemente com uma das mãos, com a outra estende e pega uma das frutinhas e coloca na boca. “Que gostoso” ele diz. Alguém arrisca me dizer o que representam os ratos preto e branco? 

O rato branco é o dia, o rato preto, a noite.
A cada momento, eles, dia e noite, roem a raiz de nossa vida. O arbusto irá se romper e nós vamos cair com ele, onde o tigre nos espera. O que nos resta fazer senão comer as frutas doces da vida? Existe a famosa pergunta, “qual o sentido de existir?”, “para que tudo isso?”, a resposta é: “Porque há frutos vermelhos doces para serem saboreados”. 
(continua)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Explicação não é budismo, é ciência


P: Fico me perguntando: qual a explicação que o Budismo dá para o surgimento do ser humano de forma tão “perfeita”, pois no cristianismo existe a figura de uma “cabeça pensante” que fez tudo isso. Como aconteceu essa evolução no Budismo? Qual a explicação?

Monge Genshô:  Em primeiro lugar o Budismo não se dedica a dar explicações. Segundo lugar, a ciência hoje, tem explicações bastante boas. E, pessoalmente, eu acho que a evolução das espécies está muito bem comprovada historicamente. Como  acontece? Através do tempo. As pessoas dizem assim: “Ah, mas eu não vejo evolução acontecer”. Como você não vê? Estamos criando novas raças de cachorros todos os dias. Temos animais e plantas que sem o homem nem sobreviveriam. O trigo atual se você deixar sozinho ele desaparece porque a semente não cai, porque escolhemos selecionar sementes que não caem porque são melhores pra colher. E assim por diante. E assim também com os seres humanos. A nossa “matriz” é toda africana. Nossos antepassados de 200 mil anos atrás, você olharia e diria: não, não é um ser humano.

Em algum momento, nós começamos a parecer humanos, mas, se você recua no passado, não é tanto tempo. 200, 300 mil anos atrás, ocorreu o surgimento da espécie do homosapiens. Então, houve evolução lenta, e nós dizemos que nosso corpo é magnífico, perfeito, etc, mas, é não olhar bem pro corpo. Ele funciona muito mal, espinha fraca para andar em pé, pelos corporais diminuindo porque não são mais necessários, calvície, 5% das pessoas tendo episódios alucinatórios na vida etc...

Pergunta: não, mas não foi este o contexto do “ser humano perfeito”, e sim, que em algum momento, pra termos chegado nessa evolução, temos que ter sido no mínimo uma ameba, e alguém tem que ter criado isso ou isso veio de “poeira das estrelas”?

Monge Genshô:  Não, mas isso não é budismo, ok? Tem um experimento famoso dos anos 60, quando alguém colocou num vaso substancias que ele deduziu que eram presentes na terra inicialmente. Metano, carbono,  outras substâncias. Colocou num vaso e com  faíscas elétricas,   essa experiência foi repetida muitas vezes em outros lugares. Essas substâncias químicas, depois de algumas horas, começam a  formar na parede do vaso uma película marrom. Essa película marrom é constituída de aminoácidos, os prercurssores da proteína. A experiência é a “sopa primordial”, bem conhecida. Então, o que quero dizer é o seguinte: ao que parece, dado o tempo e determinadas condições, você juntando elementos corretos, a vida começa a surgir expontâneamente.  E a vida vai fazendo experiências assim, de existência. Mutações, surgimentos, cada vez mais complexos. Nós vemos os surgimentos agora, vírus novos surgem a todo instante. Esse processo continua na vida. Você levando este processo a 2 bilhões e meio de anos que é um tempo inimaginável pra nós, surgem indivíduos suficientemente complexos. Cada vez mais complexos. E vão mudando. Nós estamos mudando. Os testes de Q.I. mostram que, do início do Século XX pra cá, há uma mudança de 20 pontos. Aquelas pessoas que eram consideradas normais em 1920, hoje são consideradas lentas, têm Q.I. 80. As pessoas que eram consideradas de inteligência superior, com 120 pontos, hoje são consideradas normais. Interessante isso. Nós viemos mudando rapidamente.

Na verdade a humanidade vem mudando tanto que por ex,  as cesarianas,( nós estamos no limite da capacidade da mulher deixar passar na pélvis uma cabeça do feto). Se você deixa livremente, há uma mortalidade por enquanto discreta mas que seria proibitiva com um crânio maior. Porque a cabeça foi crescendo e está num ponto quase limite para o parto normal.

E isto é evolução chegando nos seus limites possíveis. O corpo feminino já foi sacrificado no seu funcionamento para privilegiar a reprodução, problemas que o homem não tem. Caso da articulação de ninar, nas pernas, ao correr, as mulheres as jogam para fora por causa da largura do quadril.

Então tem um monte de coisas a serem consideradas a este respeito mas eu posso te dizer, que ao que parece, a vida surge expontaneamente e vai caminhando em direção a uma maior complexidade. O Budismo surge porque há sofrimento. Aí surge a descoberta do Dharma. O que o Budismo é pra mim ou o que Buda foi pra mim, foi um grande gênio. Porque ele teve a coragem de quebrar TODOS os paradigmas e dizer: eu não sei, não acreditem em mim, vou ensinar não baseado em fé, etc, e ensinou baseado em raciocínios, nessa maneira de pensar. Me sinto muito bem dentro do Budismo porque posso dizer assim: “eu não sinto conflito com a ciência, que é o que eu sentia todo o tempo quando estive em outras religiões”. Um conflito tremendo com a ciência. E isso o Budismo não tem. Ao contrário, a ciência está cada dia mais se aproximando do budismo. Cada coisa que acontece dizem: “ah, mas o Budismo já dizia isso no passado”. Aconteceu com a física quântica, psicologia etc.

Mas isso não é Budismo, é ciência. E espero que seja útil este pensamento racional, porque nós Budistas não precisamos entrar em conflito com a ciência e dizer: “ah isso é dogma, é crença”, e é assim porque é, ou é mistério”. Mistério não nos interessa. O que a gente não sabe dizemos: não sei. O budismo não se dedica a dar respostas sobre assuntos não verificáveis.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A grande realização mística


P: Esse vazio, o seu sentido é esta interconexão? Não é que não é nada não é?

Monge Genshô: Não. Não é que não é nada. É só que todas as coisas, tudo que existe, é vazio de um “eu” separado. Tudo é composto, agregado, interconectado, uma coisa só existe porque outra existe, porque outra existe, e outra e etc. A vida continua. Você, filhos, a vida tá sempre continuando. Você morreu e a vida continua, você vira adubo e a vida continua. Nada cessa. Mesmo que cessasse toda a vida na terra, ainda existem átomos de carbono, de cálcio, de ferro nossos espalhados e, um dia, mais cedo ou mais tarde, constituirão uma outra coisa.

Na realidade, nós mesmos que estamos aqui, não somos originários deste sistema solar. Não estou falando nada sobrenatural ou sobre alienígenas. Estou falando simplesmente um fato científico bem conhecido.

Vocês sabem de onde veio o ferro que está dentro das veias de vocês? Do ferro que está na terra. Nós só funcionamos com ferro. Você come alimentos com ferro, ele vai para seu sangue, pras hemoglobinas, elas viajam pelo seu corpo, vão para seus pulmões e enferrujam. Quando enferruja esse ferro, vai até suas células, larga o O2 lá, pega dióxido de carbono, volta, você exala, e as plantas reciclam, e fazem madeira, e frutas, etc. Você vai lá, come, e tudo volta de novo. Está só girando.

Mas de onde vem este ferro? Não é do sol. O sol é uma estrela de 5 bilhões de anos que só tem hidrogênio e produz hélio. Não viemos de lá. Os planetas que giram em torno da terra têm substancias pesadas como ferro, carbono, etc. De onde eles vêm? De outras estrelas do passado, que colapsaram. Grandes estrelas, com tamanho suficiente para supernovas, que colapsaram e explodiram. No momento do final da vida de uma supernova, quando ela vai sendo comprimida, ela vai mudando. Primeiro de hidrogênio pra hélio. Depois de hélio pra outro elemento. A estrela vai mudando, até que cai dentro de si mesma e nos seus últimos instantes ela comprime átomos e faz átomos mais pesados, começando primeiro o carbono e o último o ferro. E aí a estrela explode e lança no espaço o resto dessas substancias, que, agregados com o lixo estrelar, vão formar planetas que depois girarão em torno de uma estrela como o sol e que, no nosso caso particular, permitiu o surgimento de vida e o surgimento de manifestação inteligente na terra. Provavelmente coisa raríssima, considerando a quantidade de vidas que já existiu na terra, só uma espécie que esteve quase por desaparecer, pois sabemos que  descendemos todos de apenas 16 mulheres, então, houve um momento que a humanidade inteira era tão pequena que só tinha 16 mulheres. E aí conseguiram sobreviver a este momento de crise e crescer e se espalhar até agora. E isso a gente sabe, examinando as mitocôndrias, etc.

Nós somos restos de estrelas que morreram bilhões de anos atrás e esse ferro que esta sendo reciclado no nosso corpo é resto de uma supernova do passado. Então nós somos feitos de lixo estrelar. Mas quem quiser ser mais poético diz que “nós somos poeiras de estrelas”.

Mas é só isso. Esse fato aqui, mostra como tudo que está dentro de nós está sendo reciclado constantemente, sendo transformado, e, basicamente, não dá pra sair daqui. Nós só estamos continuando.

É muito interessante que a humanidade tenha esse desespero religioso de querer que suas identidades permaneçam pra sempre, e tenham inventado as religiões pra isso. A única religião que conheço que joga na cara que não é assim é o Budismo. É a única que diz: “não, não é assim, não se engane”. Você “É” o próprio universo e a grande realização mística é perceber isso de verdade. Além da nossa dimensão histórica, ver a nossa dimensão suprema. Isso é a verdadeira libertação. Vendo esta libertação, todos esses eventos que nos entristecem nessa vida, começam a perder este grande significado. Os amores, as desilusões, o dinheiro etc. Tudo no fundo é risível, dentro dessa grande perspectiva. Mas se você sabe que existe sofrimento, prepare sua mente, pra que na sua próxima manifestação, continue trabalhando ajudando os seres e sendo mais feliz, senão você vai continuar repetindo vidas, cheias de problemas e sofrimentos. É isso. Muito simples.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Não pensar e o Vazio


P: Eu sei que não existe uma fórmula pra isso, mas como é complexo não pensar não é?

Monge Genshô: Não pense em não pensar. Quando se está fazendo zazen, não se trata de “não pensar”, mas sim de ficar prestando atenção completa a este momento presente, que é uma forma de pensar, não elaborando, não julgando, não conversando consigo mesmo, não usando palavras nem nada, apenas percebendo. Mas não é um “não pensar”. É pensando além do pensar e não pensar. Não se trata de não pensar, porque o cérebro continua funcionando. Ele está ali, vigilante e atento. Não é pra dormir. Quando você dorme, outra parte do cérebro toma conta e você começa a ter sonhos, que são uma atividade que não permite o zazen. O zazen precisa de vigília, de atenção.


P: A relação entre o vazio e a forma que os diferenciam do nada ou o vazio por si já é diferente do nada?

Monge Genshô:  O Budismo não é niilista. Nem niilista nem eternalista, que é o seu oposto. Ele não disse “nada existe”. O vazio não é nada, porque o vazio é forma. O vazio é tudo, simultaneamente. Entao ele não é nada, certo? Não pode confundir. E não é eternalista o Budismo, porque ele não diz que as coisas duram para sempre, ou que há almas  eternas. Não existe nada eterno. Absolutamente nada é eterno. Tudo está em constante mudança e mesmo o universo está em mudança e um dia desaparece e depois surge outro universo, porque essa é a característica das coisas. Outro dia universal surge.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Analogias tem limites


P: Podemos ficar levando questões para o zazen?

Monge Genshô:  Você pode, mas não raciocinar no zazen. Você tem uma questão, você faz zazen. Ela continua lá, rodando inconscientemente, não com sua mente racional. Aí, você vai resolver num estalo, de repente achará a resposta. Mas não é através de raciocínio. Os problemas são resolvidos não por pensar, mas por não pensar. Os problemas normalmente são ligados à emoção, não à razão. As verdadeiras grandes questões, são ligadas à emoção. Assim só podem ser resolvidos com a intuição. 
A percepção dessas coisas eu posso explicar, mas se explicar resolvesse, não teria sentido o “vazio é forma e forma é vazio”. As analogias tem limites, elas tem obstáculos, chega um momento que elas não funcionam mais. Você vai sofisticando a pergunta e a analogia não ajuda mais.
 Porque ainda, a água é uma “coisa” e daí na analogia  a água é uma coisa e o vazio seria como a água e aí eu “reifiquei” o vazio, exatamente o que eu disse que não se podia fazer. Porque no vazio  não existe um substrato que sustenta todos os outros ou que é a origem dos fenômenos. Não é assim. O vazio não é isso. Por isso a analogia tem um limite claro. Só serve até determinado ponto. E depois deste ponto é uma dificuldade se a pessoa ficar agarrada na analogia.