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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Kenshô, satori, nirvana


As experiências de “kensho”, as experiências místicas de despertar, são às vezes experiências fugazes, nós as temos durante um tempo curto e elas desaparecem, juntamente com seus efeitos. E mesmo que possamos ter enxergado as coisas como elas realmente são e nos sentido invadir por uma enorme alegria, contentamento e felicidade, aquele evento torna-se uma lembrança, nós o perdemos, porque nossa prática ainda não é suficientemente forte. Chamamos assim, essas experiências de “kensho”. Experiências místicas.

Mas chamamos de “Satori” quando podemos ter experiências místicas muitas vezes, mudando a nós mesmos e, de tal maneira, que elas tornam-se acessíveis com facilidade e podem ser chamadas a qualquer momento. Quando se chega neste nível, você possui então, o “Satori”, a capacidade de estar iluminado ou de iluminar todas as coisas com uma luz clara e lúcida.

As paixões não são mais o que nos arrasta, porque nossa visão lúcida tornou tudo bem fácil de ser interpretado. Nesse estado, o Satori, há graus diferentes. Você pode obter a iluminação e ela alterar apenas alguns aspectos da sua vida, mas não todos. Pode ser uma mera lucidez, mas você pode continuar sendo movido pelas emoções normais da vida e tem que fazer algum esforço para recuperar aquela situação de iluminação. Mas o mais alto estágio, seria aquele em que tudo mudou. Seu rosto mudou, suas atitudes mudaram e suas emoções mudaram. À medida que o processo de iluminação vai se aprofundando, as emoções vão mudando até chegarmos ao ponto em que não existem mais emoções arrastando, não há mais ventos nos levando de um lado para outro. É por isso que essa situação chama-se “Nirvana”. Atingir o nirvana é não ter mais ventos nos arrastando. Nessa situação, situação de um Buda, não há sequer energia, ou karma suficiente para forçar uma nova manifestação. Você precisaria “escolher” retornar, não precisa retornar, não tem energia para retornar para esse mundo, não tem paixões suficientes para fazer com que esse mundo o atraia e, assim, não há karma suficiente para gerar um nascimento e uma identidade. (continua)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As duas grandes correntes no zen



Vamos comentar um pouco sobre o que é a prática e o que é a iluminação. Existem duas grandes correntes no Zen.

Uma delas considera que a prática em si é a iluminação. Essa corrente tornou-se bastante forte e muito popular entre monges e mestres. Ela tenta deixar de lado o que é o “kensho”,(a experiência mística) ou o “satori”(a posse da iluminação) como eventos místicos e psicológicos de grande profundidade, e essa corrente dentro da Soto Zen se concentra na prática em si. Ela diz: “não pense nada, não procure nada, não ambicione, você deve se concentrar na forma” - ou seja, entre no Zendo com determinado pé, faça o gasshô concentradamente, procure a forma perfeita, sente-se ereto, quieto na melhor forma possível, não se mova, faça seu oryoki com a máxima precisão, faça seu mudra certo, não o deixe torto, não faça nada que não seja perfeito, procure a perfeição no seu ato, conserve sua boca fechada em silêncio, pratique o silêncio da prática do sesshin, não deixe sua mente se dispersar, tente seguir cada coisa com a máxima precisão. Não é propriamente a corrente da nossa linhagem.

A nossa linhagem, de Saikawa Roshi, é uma linhagem que enfatiza e que dá ênfase num outro lado, que é do acordar, da experiência mística. O que caracteriza os mestres dessa corrente são as perguntas como – Quem sou eu? – ou – Qual era minha face antes dos meus pais terem nascido? – Essa corrente enfatiza a procura da experiência mística. Então a “forma” nessa corrente é importante, mas se há qualquer engano ou erro, ele não é tomado como capital, mas sim um erro que acontece - “não faço perfeito, ninguém faz perfeito”. Tentamos, mas não é nada trágico se alguém troca o pé e entra na sala com o outro pé. Ele se distraiu, mas a gente sabe que naquele momento a mente dele viajou e ele não fez certo, mas não fazemos disso um grande acontecimento.

Em vez de dizer – Faça certo, preste atenção  - os mestres desta linhagem dizem: Tente, se errar não tem importância, na próxima vez a gente faz melhor. Os ritos e as cerimônias são importantes, são relevantes, mas não são a essência da prática. O sentido não é “a prática é a iluminação”, mas sim “a experiência mística é a iluminação”. Então você procura a experiência, mas como é que se procura a experiência? Procura-se a experiência através do zazen e de procurar acordar, enxergar a realidade da vida através de uma experiência pessoal. Difícil de descrever, mas que é caracterizada por emoções, por percepções, insights profundos. As descrições são algo obscuras como dizer: “subitamente céus e terra desabaram com estrépito”; ou: “uma luz dourada envolveu todas as coisas”; ou ainda: “subitamente uma grande alegria me invadiu e todas as coisas que pareciam ter importância, deixaram de ter. As coisas da vida passaram a ser apenas eventos como de um sonho e enxerguei o fundo da vida. E o relevante nesse fundo da vida, é algo diferente do que pensara até então”. Descrições como: ”sinto-me conectado a todas as coisas e o receio da morte desapareceu completamente”.  (continua)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Desistir de aparentar



P: Uma vez li um livro sobre meditação que falava sobre as dores. E se referia a certas dores como “dor Dharma”, porque essa dor de alguma forma desata alguns nós. Isso é assim para o Zen?

Monge Genshô – Tradicionalmente, muitos mestres já declararam isso, nenhum caminho para a iluminação é tão rápido quanto o do sofrimento. O sofrimento físico é útil, vocês irão reparar isso no final do sesshin, mesmo com o aparente sofrimento, fica uma sensação boa. Lembro-me bem do Lucas, o Seigaku San, em seu primeiro retiro, ao final ele dizia: “foi horrível, horrível”. De alguma forma interessante, há anos seguidos ele continua vindo aos sesshins, embora tenha sido horrível a primeira experiência. Mas existe o sofrimento emocional, muitas vezes, isso é frequente, talvez alguns já tenham passado por isso no sesshin, angústia, dor emocional, remorso, culpa, muitas coisas do passado retornam, essa é uma grande oportunidade de saber de onde vem isso, porque estou sentindo, qual a origem? Esse sofrimento psicológico vale a pena, você está sozinho de frente para a parede, não há ninguém para enganar, desculpar-se. Os que são psicólogos sabem quanto esforço as pessoas fazem para enganar os terapeutas. Mas de frente para a parede, quem você irá enganar? Depois, no sesshin e na prática do Zen, nos atos, enganar com a postura da meditação, com o jeito que faz kinhin, enganar com o comportamento na cerimônia? Você não irá conseguir. Ninguém é tão bom ator que consiga enganar, chega um momento que você desaba, desiste de tentar ser bom, de tentar fazer certo, então a verdade aparece. Que bom que existe o sofrimento físico e psicológico.

P:  O senhor disse que a verdade aparece, qual a verdade de uma pessoa que está sentada e não aguenta mais?

Monge Genshô – Não aguento mais. Essa é uma grande verdade.

Aluno – Mas o que eu faço, continuo sentado?

Monge Genshô – Se você não aguenta mais, mas continua sentado é porque você aguenta. Quando você realmente não suportar mais, irá trocar de posição, levantar-se ou sentar na cadeira. Terá que fazer alguma coisa. Vai chorar e, se não aguentar, irá se manifestar. Normalmente quando se pensa, “eu não aguento mais” ainda temos um longo caminho pela frente, dizemos isso muito cedo. Uma experiência pessoal minha comprova, é muito bom quando a gente desiste. Porque desistimos de nosso orgulho, do que queremos mostrar para os outros, isso é muito bom, pois é a verdade.

Aluno - Pessoalmente, no primeiro zazen eu já desisto, a questão que fica pra mim é: mas então como faço zazen? Apilhado, chorando, rolando pela sala?

Monge Genshô – Bom, não role pela sala, mas chorar é legítimo. Talvez seja melhor contar uma história. “Akiba Roshi”, que foi meu Abade em um Angô (treinamento de 3 meses em mosteiro), deu a seguinte instrução. Em um retiro de Monges, estes se revezam passando com o kyosako; em todas as sessões de zazen tem algum monge passando com o bastão atrás. Ele disse então: “se alguém está cabeceando de sono, você se aproxima e toca nele com o bastão, apenas para chamar sua atenção. Quando você está passando pela segunda vez, ele dormiu. Então você bate nele com o kyosako. Na terceira vez que você passa, ele novamente adormeceu. Deixe-o, ele está manifestando uma verdade, deixe-o, ele está com sono”. Não é um “mau” Monge, é apenas um Monge cansado e com sono. Não há nada de errado nisso. Saikawa Roshi uma vez respondeu a seguinte pergunta: “o que eu faço, sinto muito sono no zazen?”. “Durma”, foi sua resposta.

Aluno - Só para complementar. Isso ocorre há anos, posso dizer que já suportei em outros sesshins muito mais dores que nesse, mas tomei uma decisão, não preciso sentir tamanha dor e sofrimento. Eu fico sempre patinando, fico empacado. Minha pergunta é no sentido de, o que eu faço, fico sentado, tenso, cabeça baixa sentindo dor ou simplesmente desabo e desisto?

Monge Genshô – Você é quem sabe. Se você abandonar o zafu, curvar-se, ou colocar os joelhos para cima e abraçá-los, isso só fará com que você respire com dificuldade, não é zazen, mas você está na sala junto com todos, isso é uma grande coisa, você não foi embora. Eu vejo tudo o que acontece, eu compreendo, minha perna também dói. É muito bom quando alguém desiste, pois abdicou do orgulho. Tentar ficar numa bela posição aguentando tudo pois sabe que o mestre senta de frente para as pessoas e está vendo, é bobagem. O melhor é que você realmente assuma quem você é, com suas limitações, isso já é uma grande lição.

Aluna - Para mim acontece um pouco diferente, estou bem e minha mente começa a tentar fazer com que eu me mexa. Então de repente eu mexo, mas não precisava, eu poderia suportar mais um pouco. O pior é quando isso acontece bem perto do sino...

Monge Genshô – E você se importa?

Aluna – Me sinto uma idiota.

Monge Genshô – Mas isso é tão bom. Uma vez disse à meu Mestre Saikawa Roshi: “percebi nesse angô, como sou um idiota, um estúpido”. Ele respondeu: “É ótimo quando podemos dizer, eu sou um estúpido, mas sem importar-se com isso”. Mas não se comparem, porque quando nos comparamos existe um “eu” que se compara, vejam que tudo gira em torno dessa questão do eu: “eu quero ficar com uma postura correta”, “eu não quero me mexer”, então, desistir é abdicar de seu “eu”, assumir que é um idiota é abdicar de seu “eu”, não se comparar com os outros é abdicar de seu “eu”, pois todos somos idiotas. Alguém nessa sala é capaz de levantar-se e dizer, “não, eu não sou idiota”? Lá dentro tem um orgulhoso que quer dizer que é o bom, mas você sabe que não é verdade. Nós estamos no sesshin e sentamos todos juntos, por isso sabemos que todos são idiotas, nosso companheiro do lado sabe que sou idiota e eu sei que ele também é um idiota. Isso é maravilhoso.

Aluna – Ainda sobre a dor. Existem alguns livros, inclusive livros do zen, que dizem para usarmos a dor como objeto de meditação.

Monge Genshô – A instrução é: torne-se um com a dor. Veja como você pode ser a própria dor.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Não há caminho fácil para o despertar


Pergunta: Eu poderia complementar o que senhor falou sobre os alucinógenos? Eu imaginei que se soubéssemos o que acontece no cérebro no momento que se atinge a iluminação, em tese, poderíamos gerar a iluminação artificialmente. Mas também se é uma questão de consciência, no sentido de estar separado do cérebro, talvez não seja assim...estou tentando complementar a pergunta.

Monge Genshô – Não sei. Pode ser que no futuro tenhamos uma espécie de pílula, aqui está Satori B, não precisa de sesshin. Não tenho a menor idéia a respeito, acredito que agora temos um método; se podem surgir outros métodos, é uma discussão futura. Pode ser que sim, desde que seja possível anular toda a ilusão e partir para uma enorme clareza de consciência, através um estímulo elétrico, mas a grande questão é: você será proprietário dessa experiência? As drogas que existem hoje, como por exemplo o crack, provoca durante alguns segundos, um derrame enorme de dopamina no cérebro gerando uma sensação de felicidade e bem estar inigualáveis. Depois de experimentar essa sensação, a pessoa quer sempre voltar para lá, porque é muito poderoso. Se usarmos uma escala, comer provoca um derrame de dopamina equivalente a cinquenta. Sexo produz noventa. Não é de se admirar que as pessoas gostem de comer e fazer sexo. Mas o crack produz novecentos. Logo, a pessoa não come mais, não faz mais sexo, não trabalha, não faz mais nada, ela só fuma até morrer. Se fossemos capazes de, por meios artificiais provocar a sensação de iluminação, talvez tivéssemos um efeito completamente indesejado.

As histórias dos mestres e suas experiências de iluminação são muitas, como por exemplo, depois da primeira experiência, passar uma semana inteira rindo, sempre pulando de alegria. Ninguém que tenha essa experiência deseja retornar para a ilusão. Mas talvez essa experiência só seja válida através de grande esforço, pois quando ela é gratuita, acontecem os fenômenos que acontecem quando no uso de drogas. Não há como duvidar que os quinze segundos depois de fumar crack são maravilhosos, mas você nunca mais retornará aos primeiros quinze segundos, por que cada repetição da droga é apenas uma tentativa de voltar à primeira experiência, a intensidade da experiência cai à medida que o cérebro não consegue manter a quantidade de dopamina. O resultado é a destruição física. Pode ser que existam meios mais fáceis de se atingir o esclarecimento, o despertar, mas não conhecemos nada seguro. Tenho sérias dúvidas de que a experiência gratuita possa significar sabedoria.

Pergunta: Se não estou enganado, a Gnose tem uma droga que ajuda, ela na verdade não leva ao despertar, serviria mais para diminuir o controle exercido pela mente?

Monge Genshô – Desde as experiências de Aldous Huxley em seu livro “As Portas da Percepção” há quase cinquenta anos, especula-se que as drogas alucinógenas provocariam uma abertura da consciência. Mas tudo que nós vimos de lá para cá foi desastre. Fico então, com a regra de Buda, de dois mil e seiscentos anos atrás: os Monges devem assumir a regra de não usar nenhuma substância que altere a consciência. Buda, através da experiência pessoal, desencorajou inclusive o ascetismo radical, o jejum radical até prestes a morrer ou coisas que provoquem alterações físicas. Ele desencorajou tudo porque ele experimentou e concluiu que não levava ao esclarecimento, por isso sua proposta era de moderação, “madhyamika” - o caminho do meio. Ele não poderia ser mais taxativo ao dizer que de forma alguma, absolutamente nenhum meio artificial faz parte do caminho Budista. Saikawa Roshi me disse uma vez uma frase, “não há caminho fácil para a iluminação”. Ou seja, nem procure. Aqui na nossa Sangha, se alguém desejar um caminho como esse, deve se afastar. Porque não pertence ao caminho budista da nossa comunidade.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"Eu sou" , Descartes* dentro de um processador


Maitreya, o Buda do futuro
 (continuação)
Não fazemos, então, essa distinção e sim dizemos que tudo está conectado. Teoricamente, para nós Budistas, o surgimento de outro ser com um cérebro mais complexo que o nosso, ou uma conexão homem/máquina, que permita ao homem ter mais conhecimento ou ter mais capacidade de raciocínio, ou até mesmo uma máquina suficientemente complexa pode ela mesma desenvolver a noção de “eu sou”, e permitir que uma consciência se manifeste.

Pode ser que no futuro nós tenhamos uma discussão, podemos matar essa consciência que surgiu ou não podemos? Mais complexa, mais inteligente, mais consciente e até mais vital que nós? Assim como no passado nós discutíamos se os escravos tinham alma, no futuro discutiremos se consciências não humanas e aparentemente criadas por nós mesmos têm direitos legais, direitos à vida e coisas desse tipo. Discutiremos até sua psicologia e pode muito bem ser, e talvez não tarde muito, que o homem seja plenamente superado. Daqui a duzentos anos olharão para nós e se referirão a nós como seres primitivos, extremamente ignorantes. Se pensarmos bem, nós hoje olhamos para cem anos atrás e os seres humanos não tinham noção do que ocorria no mundo, não tinham o nível de informação minimamente parecido com o que temos hoje. Para comunicar-se enviavam cartas que levavam semanas, tinham idéias tacanhas sobre o mundo natural e o universo. O que poderá acontecer em cem anos à frente? Que religião irá sobreviver ao surgimento de uma entidade capaz de dizer “eu sou” dentro de um processador? Será um grande problema.

* René Descartes -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes

Possível mas raríssimo


Pergunta: Como o Budismo vê a relação mente e cérebro?  Por um lado poderíamos pensar que a mente é um reflexo do cérebro, o que poderia sugerir que somos escravos do que nos acontece. Talvez através da meditação poderíamos alterar o estado do cérebro e automaticamente a mente. Por outro lado o funcionamento do cérebro permite o uso da linguagem e é como se a mente tivesse vida própria.

Monge Genshô – Em primeiro lugar, essa colocação, “como o Budismo explica...?”. O Budismo não se dedica a dar explicações. Esse problema das explicações é com a ciência. O que a ciência faz é procurar descrições e explicações que se aproximem da realidade observada. Caracteristicamente, e por isso, a ciência é o que é, essas explicações podem ser declaradas erradas e substituídas por outras melhores e isso pode acontecer sem parar. Ou seja, não existe nenhuma afirmação em termos de ciência que possamos chamar de "verdadeira". De outro lado, o Budismo não declara nenhuma verdade. Ele usa um método para libertação e usa raciocínios para você enxergar as coisas, ou seja, tudo é demonstrável e não depende de fé. Todos os raciocínios que fiz sobre a vacuidade inerente aos “eus”, dando o exemplo da casa e do copo, não passam de raciocínio demonstrável. Qualquer um pode chegar à mesma conclusão. Isso é o Dharma em si. O Dharma de Buda não é uma exclusividade de Buda, ele está presente e pode ser redescoberto. Por isso, quando recitamos os nomes dos Budas, recitamos seis nomes de Budas míticos antes de Shakyamuni Buda. Eles não existiram, são Budas míticos. O primeiro Buda histórico foi Shakyamuni Buda. Mas então porque recitamos seus nomes? Para que todos entendam que surgem Budas e, qualquer um, pensando, meditando e despertando, pode chegar ao Dharma. Vamos dizer que a cada era surge um Buda, ou seja é possível mas é raríssimo.

O Budismo também não é dono do Dharma, nem detém uma verdade exclusiva, nem o Zen. É apenas um método e um método apropriado para algumas pessoas, outras não. Sobre a pergunta sobre mente e cérebro, eles estão ligados, assim como mente e corpo estão ligados. Não separamos isso. Se você interferir no seu corpo, sua mente se alterará, se você comer mal seu cérebro e sua mente serão atingidos, se você come muito, fica sonolento. Se tomar uma substância alucinógena, seu cérebro será perturbado e poderá ter alucinações confundindo isso com realidade ou iluminação, o que não é nem uma coisa nem outra. Estamos procurando clareza e não obscurecimento, não fantasia. Já temos fantasias demais. Para quê tomar qualquer substância que altere a consciência?  É absolutamente vetado para o praticante Budista tomar substâncias que alterem a consciência, é um grave erro que não levará a lugar algum. Só pode levar a mais confusão e já somos confusos o suficiente.
(continua)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Vazio é a forma


Hoje à noite recitaremos o Sutra do Coração em português. Ele é o “Sutra do Coração da Sabedoria”. O que ele diz é que a forma - nós somos forma - é o vazio. O vazio se manifesta como forma. Não existe uma entidade que chamamos “o vazio” não existe uma entidade além da forma, o grande ser é vazio de um si mesmo. O vazio é a qualidade de todas as coisas serem vazias de um “eu”.  Lemos “vazios de um eu”, tudo em volta são formas, tudo é vazio de um “eu”, tudo é uno. Não existe em cima ou embaixo, direita ou esquerda, surgimento ou cessação, tudo é simultaneamente vazio e forma, porque o vazio só se manifesta como forma e as formas,  somos o próprio vazio. Não existe propriamente uma intenção, um plano ou uma história; simplesmente todo tempo está contido em um único ponto, passado e futuro estão contidos em um presente e esse presente é a única coisa que podemos realmente agarrar  a cada instante que se esvai. Se você conseguir mergulhar no presente plenamente, você é dono de passado e futuro e, se esquecer de si mesmo pode abarcar o universo inteiro. Como diz o Sutra, aquele que atinge isso, a perfeita e completa iluminação, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento. Esse é o texto que recitamos, toda dor e sofrimento desaparecem se você esquecer a ilusão do “eu”, mergulhar no presente e abarcar todo o vazio com todas as suas manifestações.

Entendendo, nada está separado, você e todas as coisas são uma única coisa. Os pássaros lá fora são você. Os sons são você. As árvores são você. O riacho é você. Você não é você. Você é tudo isso, só está perdido nesse instante pensando que você é você, abrindo os olhos e vendo tudo separado. Mas esse fenômeno que vivemos ao abrirmos os olhos e vermos tudo, que é como se fôssemos um pequeno olho, um pequeno senso do universo que permite ter uma grande experiência. Essa grande, maravilhosa e complexa experiência que nós como seres humanos temos, é linda, não pode ser desperdiçada, uma fantástica oportunidade que permite ouvir, cheirar, olhar e provar. Essa experiência maravilhosa é o dom da vida. Mas ela é um instrumento para um passo maior. Nós podemos atingir uma consciência maior e, ao atingi-la, não seremos mais pequenas ondas na superfície do universo, mas nos perceberemos como o próprio mar. Nós mergulhamos no mar das paixões, mar das angústias, sensações, amores, todas as paixões. Porque o Bodhisattva mergulha no mar das paixões, ele pode colher as pérolas do fundo. É através dos caminhos equivocados que o Bodhisattva encontra as jóias da vida. Não se perturbem porque mergulharam no mar das paixões, essa é a grande oportunidade para encontrar as pérolas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Vazio


Um dos conceitos mais difíceis de entender no Budismo é o conceito de vazio, vacuidade.

É freqüente que pessoas cometam um erro básico quando, ouvindo falar do vazio, pensem por exemplo, que o fato da ciência ter mostrado que a maior parte do que vimos como matéria é vazio, e que se tomarmos um átomo e o imaginarmos como do tamanho da cúpula de uma catedral, o seu núcleo terá o tamanho de um grão de sal e os elétrons estarão na periferia da cúpula, e em seu entorno não haverá coisa alguma. Por esse motivo, os neutrinos podem atravessar a terra sem bater em nada. Só alguns deles se chocarão com o núcleo.

Somente porque interagimos com a matéria, temos a sensação de que seja sólida. A minha matéria é uma nuvem de energia muito rarefeita que interage com a nuvem extremamente rarefeita do braço da cadeira e, dessa forma, uma não penetra na outra.

Algumas pessoas pensam, então, que esse vazio físico é uma comprovação de que as declarações de Buda a respeito da vacuidade das coisas estão certas. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. Vacuidade no Budismo é o vazio de um “eu”. As coisas são vazias de um “eu”, um “eu” inerente, alguma coisa própria e exclusiva de um fenômeno.

O que Buda tentou dizer com “vazio” é que todas as coisas são vazias de um “eu”, porque todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Parecem algo porque nós atribuímos a esse algo um conceito. Quando vemos um copo cheio de água, o que é o copo em si? É um cilindro fechado na base, constituído predominantemente, no caso desse copo de vidro, de silício, que é um átomo muito comum na crosta da terra. Mas o copo, essa entidade copo, ela existe realmente como entidade separada ou é uma projeção de nossa mente? Na realidade se nós partirmos o copo em pedaços e tivermos os cacos na minha mão, tudo que constitui o copo ainda está aqui, não é? Está inteiro aqui, mas nós podemos dizer que é um copo? Não, pois não serve mais para colocar água. Mas se tudo que o constitui ainda está aqui, onde está o copo? Afinal de contas o que é isso que chamamos de copo? Isso que chamamos de “entidade copo” é uma organização dos cacos de silício numa forma adequada para guardar água, então a entidade copo está na nossa mente. Talvez o copo seja simples demais.

Esta casa, o que é? Pedaços de madeira, carbono, reboco, vidro nas janelas, não temos dúvida alguma que é uma casa. Chegamos e imediatamente nos admiramos com sua beleza. Mas a casa só é a casa, organizada de determinada forma, seus agregados juntados a partir de uma idéia que é “a casa”. A coluna tem que estar em pé apoiando a trave pois, se não estiver nessa posição, a casa cai e não será mais uma casa, será como no caso do copo, cacos de casa. Onde está o “eu casa”, o que nós chamamos casa, o “eu” que está nas nossas mentes e que nos permite chamar de casa? Não está em lugar algum; o copo e a casa não são nada mais que matérias organizadas de determinada forma a qual atribuímos uma identidade.

Agora olhem para si mesmos. Nós somos constituídos de agregados - carbono, ferro, cálcio, água que é oxigênio e hidrogênio, tudo organizado de determinada forma. Comparados conosco, a casa é simples, o copo simplório, cada um dos corpos de vocês é altamente complexo, tem até um programa em cada célula dizendo à ela como agir. Esse programa e esta organização fazem de nós um conjunto de agregados que funciona. Como esse conjunto de agregados funciona e consegue pensar, ele diz a si mesmo: “eu sou”. A casa não consegue dizer a si mesma “eu sou”, pois ela é simples, nós é que dizemos “a casa”. Mas nós somos suficientemente complexos para olharmos para nossa organização de agregados, para nossa soma funcional e como estamos pensando dizermos “eu sou”.

A ciência já comprovou que alguns animais conseguem se reconhecer no espelho e até apagam sinais pintados em seu rosto, pois reconhecem a si mesmos. À medida que pegamos animais mais primitivos, eles não são capazes de se reconhecer. Um cão late para si mesmo no espelho, mas um chimpanzé faz caretas pois é capaz de se identificar, um golfinho também. Nós não temos dúvidas que a figura no espelho seja nós mesmos. Quando eu trabalhava organizando departamentos de telemarketing, colocamos espelhos em todas as mesas das operadoras de telemarketing, de modo que as telefonistas vissem a si mesmas. Imediatamente as operadoras começaram a trabalhar mais maquiadas, mais bem vestidas e passaram a sorrir para si mesmas quando falavam com as pessoas, ao sorrir seu tom de voz mudava, dessa forma tornavam-se mais simpáticas. É muito interessante que tenhamos essa noção de nós mesmos.

Mas voltando ao vazio, esses agregados - copo e casa - são vazios de um “eu”, isso é fácil de entender, eles não possuem nenhum “eu”, são só uma soma de agregados. Mas nós também somos uma soma de agregados vazios de um “eu” inerente, não temos um “eu” que seja exclusivo nosso, também somos um fenômeno construído e que pode ser desfeito em cacos. Imediatamente esse eu, com que nós nos identificamos, desaparece. Quando desfazemos em cacos a casa e temos só material de demolição, não existe mais casa. Mas quando desfazemos o homem, com a morte por exemplo, não existe mais um “eu” ali. Toda essa análise foi feita para dizer que o “eu” que tanto queremos que seja permanente e para ele criamos a idéia de uma alma eterna, que, por exemplo, pode reencarnar e carregar aquele “eu” consigo, não é mais que mera ilusão imaginada e nós também somos vazios de um “eu”.

O “eu” que existe dentro de nós é o que cada um acredita, tem a mesma consistência que o “eu” da casa ou do copo. É só um conjunto de agregados funcionando. Todo o universo é vazio de um “eu” inerente. Todos os fenômenos funcionam interconectados e interdependentes. Nós não existimos sem as plantas e sem o sol. Basta tirarmos qualquer um dos elementos e em muito pouco tempo nós estaremos completamente acabados. O problema da iluminação é, como é que eu acordo para o fato do meu “eu” ser uma ilusão e me reintegro, me reincorporo ao grande ser ao qual eu evidentemente pertenço, abdicando dessa ilusão de ser uma entidade separada, independente, com nome e que deseja permanecer para sempre. Como me livro disso? Como retorno e me livro de mim? Ao retornar ao grande ser, nascimento e morte desaparecem. Nascimento e morte são fenômenos deste “eu”. Esse “eu” nasceu, esse “eu” que morre. Ao nos livrarmos da ilusão do “eu”, somos instantaneamente eternos e livres desse ciclo repetido. Perceber isso é livrar-se de todo o sofrimento e angústia existencial.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

É extraordinário mas não é nada extraordinário


Aluno:  Faz pouco tempo que estou praticando, mas tenho uma sensação e gostaria de saber se isso é verdadeiro. É uma questão de energia. Sinto que com a prática, principalmente aqui na sangha, está despertando uma energia em mim, um tipo de calor nas mãos. É verdadeiro isso, a prática permite o despertar desta energia?

Monge Genshô - A prática produz coisas extraordinárias, mas nenhuma é extraordinária. São consequências naturais da prática e não as olhamos como coisas excepcionais e sim como naturais. Sentar em zazen, por exemplo, produz calor. Se você pesquisar na internet irá ver monges praticando sentados em locais com muita neve, temperaturas abaixo de zero e eles no lado de fora do Zendo com suas cabeças descobertas, sem luvas ou meias. Algumas pessoas podem pensar que isto seja milagroso ou extraordinário, mas não é, é simplesmente o resultado normal de uma prática de longo tempo. Eu próprio já experimentei e não achei nenhum tipo de tortura. Em um lugar onde as pessoas sentam para praticar, quando você chega, logo sente essa energia a que você se referiu.

Aluno – Não estou nem pensando em algo sobrenatural, é apenas uma energia boa.

Monge Genshô – Não existe nada sobrenatural. Isso é simplesmente natural. Em uma casa onde todos brigam, onde há xingamentos e palavrões, onde as pessoas atiram coisas umas nas outras, quando você entra, logo sente a atmosfera pesada e o clima ruim, por outro lado em um local de prática como o nosso, rapidamente se cria essa outra sensação que você percebeu. Mas isso não é só no Zen, quando viajo gosto muito de entrar em igrejas, elas também podem ser lugares agradáveis e com este tipo de energia, afinal de contas, as pessoas entram nas igrejas para orar. Por isso temos que evitar colocar nossos pés onde os sentimentos mais baixos surgem, por exemplo, no carnaval vamos para nosso retiro em uma reserva florestal onde só se ouvem pássaros e cachoeiras, mas há outras pessoas que festejam com drogas, procuram relacionamentos fugazes com pessoas que nunca mais verão e ficam todas as noites acordadas ouvindo sons altíssimos. Quando nosso retiro acaba todos estamos felizes e nos abraçamos emocionados, enquanto eles estão de ressaca e com sentimento de vazio, por isso o nome é “quarta-feira de cinzas”, a festa acabou e todos estão meio que doentes. Quando você vê o cenário de pós-carnaval percebe sujeira, pessoas feridas em razão das brigas que sempre acontecem e a gente se pergunta: o que realmente ficou de bom?

Vi uma reportagem sobre o carnaval do Rio de Janeiro onde as pessoas reclamavam do cheiro de urina, do lixo, da violência e também de coisas que haviam sido quebradas, isso foi o que sobrou do carnaval e é completamente diferente da nossa prática.

5) O senhor falou sobre o sentimento de raiva e de colocar outro sentimento em cima para substituir e não deixar que a raiva surja, como é isso?

Monge Genshô – Imagine alguém insultando você. Sua reação pode ser de raiva, mas se você o olhar com compaixão pelo fato de ele estar tomado de sentimentos ruins, você não irá reagir da mesma forma. Se você olhar para a pessoa que o agride e o vir como uma criança ignorante que não sabe o que faz, não sentirá raiva e sim compaixão pela ignorância. Às vezes é muito difícil e se você não consegue controlar, é melhor se afastar. Se você não controla, ficar em silêncio e ir embora é a melhor solução.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sou exatamente igual a você


Pergunta:  Se aceitarmos que existe o inconsciente, o zazen pode ser uma porta de abertura para ele?

Monge Genshô – Ele é, mas no Zen não falamos em consciente e inconsciente, falamos em “mente”, mas por que no Zen nunca se dividiu a mente em consciente e inconsciente? Porque qualquer praticante senta e o inconsciente surge. Surge tudo, seus sonhos e desejos mais básicos e não há ninguém para enganar. Não existe um terapeuta a quem enganar, você de frente para a parede, vai mentir para quem? O pensamento está surgindo na sua mente e é seu, você programou sua mente, você alimentou esse tipo de pensamento e colocou essas coisas lá dentro, por isso elas surgem.

Tudo que surge na sua mente é o retrato de quem você é. Por isso não existem santos e quando aparece alguém com ar de santidade, dizemos que “o monge tem um mau cheiro de santidade”. No Zen não queremos santos, desejamos pessoas despertas e as pessoas despertas naturalmente se comportam de maneira diferente. Como sentamos e vemos nosso lado ruim surgindo não acreditamos em nossa santidade. Por isso um professor do Zen senta junto e no mesmo nível de seus alunos, porque quando alguém lhe disser que sente raiva, sua resposta será: “eu também, sou exatamente igual a você”. “Mas nunca vi o senhor com raiva”. “Bom isso é outra coisa, mas a raiva está dentro de mim, eu só não coloco água nela, não deixo que se manifeste, nem penso nela e, se por acaso ela surgir, eu coloco no lugar um sentimento de compaixão fazendo com que ela perca a força. Mas dentro de mim existe este sentimento, por isso sei o que você sente”.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estava escrito


Pergunta: A pessoa deseja mudar seu destino através de sua vontade, mas às vezes a gente ouve falar que nascemos com um destino e assim será até morrer. A simples vontade é suficiente para mudar isso? Não falo só da iluminação, mas de tudo. Como fazer para que essa vontade modifique verdadeiramente sua situação?

Monge Genshô - Primeiro temos que compreender que destino não existe. Essa coisa de que “está escrito e assim será”, não existe. É frequente ouvir as pessoas dizerem quando alguém morre, que quando chega a hora não tem jeito ou então “foi Deus quem quis”, todas essas idéias são profundamente erradas. Se algo estivesse escrito e houvesse destino, não haveria responsabilidade alguma por parte das pessoas. Por exemplo, um criminoso poria a culpa no destino pelo seu crime e diria não ser possível evitar o ato cometido, pois já estava escrito. Não haveria culpa. Por outro lado também não haveria o mérito, por exemplo, alguém que faça algo muito bom, também estava escrito que ele faria isso, mérito zero. Não existiria nada de bom ou ruim, seríamos como autômatos seguindo uma peça já escrita por alguém, na verdade escrita muito mal, não é verdade? Pois este mundo está cheio de sofrimentos.

O que existe nas pessoas é carma, mas o que é carma? Carma são as energias de hábito e o acúmulo das consequências dos nossos atos pregressos, ou seja, aquilo que causamos. Eu tendo a agir em uma determinada situação de acordo com meu carma. Uma pessoa que seja muito brigona e que nada possa ser dito que ela já começa a se exaltar, o que é isso, destino? Não, é carma. Ela tem esse impulso e acredita que essa seja a maneira de resolver seus problemas, é possível mudar? Essa é tua pergunta. Claro, basta que mude sua mente. É fácil mudar a mente? Não, para mudar a mente precisa um treinamento, por exemplo, meditação. Para que praticamos meditação? Para perceber o que surge em nossa mente. Por isso não desperdicem todo o sofrimento de ficar sentados durante quarenta minutos de frente para a parede. Percebam o que surge em suas mentes, isso que surge é o retrato de seus condicionamentos mentais. Querem mudar suas vidas? Mudem suas mentes. Mudando suas mentes, seus sentimentos e ações mudarão, até mesmo o mundo muda, pois interpretamos o mundo de acordo com nossa mente. Como no exemplo do ciúme, porque uma pessoa sente ciúme e sofre? Por um condicionamento mental, porque dentro de sua mente existe a crença num “eu”, existe a crença de posse e desejos. É muito trabalhoso e difícil, mas toda mente pode ser mudada. Se alguém transformar totalmente sua mente e passar a ter sentimentos de alegria, compaixão, paciência e equanimidade, será um Buda. Terá condições e comportamento de um Buda.

A primeira idéia então, é que destino não existe, tudo é causa e consequência. Tudo tem um motivo ou uma causa anterior. Vocês estão bebendo chá porque alguém colocou água no fogo e fez chá, chás não surgem do nada. Na minha vida aconteceram grandes sofrimentos, mas quando olho para trás não enxergo culpados, eu fiz por onde me meter em situações das quais surgiram aqueles sofrimentos. Ninguém, além de mim, tem culpa. Temos que ter vontade de mudar nossas vidas e somos capazes de fazê-lo. Esse é o ensinamento do budismo, não existem Deuses lá fora ajudando os homens,   se houvesse um Deus ajudando os homens na Terra seria necessário pedir? Se ele fosse um onipotente e se fosse bom, não haveria miséria ou sofrimento. Então mesmo que exista um Deus uma coisa é certa: ele não interfere no mundo. Só quem pode mudar nossas vidas somos nós mesmos. O budismo está baseado nesse tipo de raciocínios e não em crenças.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sem professor não há Sangha



Pergunta: O senhor sempre fala sobre o Dharma, eu gostaria de tentar entender o que é o Dharma.

Monge Genshô – Nós temos três jóias no Budismo. O Buda, o Dharma e a Sangha. Temos uma cerimônia em que tomamos refúgio nessas três jóias. Tomar refúgio é como retornar e abrigar-se nas jóias. Buda não é uma pessoa, um Deus ou um salvador, Buda é essencialmente uma idéia, a idéia de que todos podemos acordar como Sidharta Gautama Shakyamuni acordou. Quando ele fez isto foi chamado de Buda, “aquele que despertou”. Todos os homens estão sonhando sonhos de ilusões, se acordam de suas ilusões, livram-se de seus sofrimentos. Sentimentos comuns como, por exemplo, ciúmes, por que ele existe? Porque somos apegados, inseguros, porque queremos possuir pessoas ou coisas, então surge esse sentimento que é, em essência, egoísta, que nasce da noção de um “eu” e este “eu” é a ilusão mais importante. É deste “eu” que Buda se livrou, acordou, livrando-se dos apegos. Esta é então a primeira jóia. Refugiar-se no Buda significa abrigar-se nessa idéia e confiar que mesmo sendo um ser imperfeito e cheio de problemas, apegos e paixões, pode-se despertar com a prática correta.

A segunda jóia é o Dharma, que significa “a lei” ou “doutrina”. Quando digo que me refugio no Dharma, estou afirmando que busco nos ensinamentos, minha libertação. Se sofro, é porque não compreendi corretamente os ensinamentos. Talvez intelectualmente os tenha entendido, mas não os levei até meu coração. Se conseguir entender o Dharma com minha mente e intelecto e através da prática, esforço e meditação me modificar, então realmente eu realizo o Dharma. Realizar no sentido de tornar real o Dharma dentro de mim, incorporar ou entender profundamente. Incorporar o Dharma é torná-lo real dentro de si e modificar-se. Se eu conseguir abdicar de meu egoísmo, por exemplo, o sofrimento que provém do ciúme desaparece.

A terceira jóia é a Sangha, que é a comunidade. A prática sem a comunidade é muito difícil. Tentar aprender sem um professor é muito problemático e um grande sinal de vaidade, nem Buda treinou sem professor. Antes de se iluminar ele teve vários professores. É freqüente escutar pessoas dizendo que não necessitam de professores ou instituição, que sozinhos e com leituras e estudos alcançarão a iluminação. Se fosse tão simples, não haveria necessidade de treinadores esportivos ou professores de música, não existe nenhum exemplo de pessoas que se desenvolveram em qualquer setor que seja sem um professor em algum momento. Podemos até superar nossos professores, mas no início precisamos de um guia. Precisamos que alguém que nos ajude, corrija e interprete nossas idéias, senão corremos o risco de ficar batendo a cabeça com pensamentos errados. Em mil novecentos e setenta e três eu conheci o Dharma, isso já faz quarenta anos e ainda hoje eu tenho um professor a quem apresento minhas dúvidas e perguntas. Tenho ciência de minha dependência de seus ensinamentos e em razão disso tenho medo que ele morra, pois seria o mesmo que perder um pai. Não vejo quando poderei prescindir de alguém para me ensinar o Dharma. É extrema vaidade pensar que sozinho sou suficiente, é uma grande tolice. Na sangha nós nos apoiamos, ensinamos uns aos outros e incomodamos uns aos outros. Quando alguém faz algo errado, é nosso mestre de tolerância. Quando alguém é chato, é nosso mestre de paciência. Se alguém diz uma bobagem, é nossa oportunidade de olhá-lo como um sábio. A sangha precisa de um professor, se não houver um professor autorizado e responsável é um clube de meditação e não uma Sangha.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A felicidade contemplativa



Pergunta – O senhor fala de acalmar a mente, mas como fica a questão, por exemplo, como eu que muitas vezes faço várias coisas ao mesmo tempo e se tento mudar isso, fico desmotivado. Me sinto mais vivo quando estou agitado fazendo três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Como agir?

Monge Genshô – Eu compreendo e muitas pessoas procuram por essa forma de aceleração como uma maneira de sentirem-se estimulados. Em um dos extremos, as pessoas usam drogas estimulantes. Porém a felicidade vem de uma atitude contemplativa. Você pode ter uma vida agitada, mas precisa saber quando é o momento de cada coisa e precisa saber transitar facilmente entre estas situações. Minha vida é de certa maneira assim também, quando estou viajando tenho reuniões uma atrás da outra e tenho que resolver muitas coisas rapidamente. Mas quando chego ao hotel não ligo a televisão. É outro momento e você precisa saber quando agir de uma forma e quando agir de outra sem se deixar arrastar por essa aceleração, pois isso não é da natureza do homem. Observe uma pessoa fora das grandes cidades, como é seu ritmo? Muitíssimo mais lento, não é verdade?

Essa história de tempo é muito recente, os primeiros relógios não tinham ponteiros de minutos, muito menos de segundos. Foi a partir da industrialização que começamos a correr, nos apressar e marcar o tempo com essa precisão. Não é de se admirar que as pessoas estejam cansadas e que tomem tantos calmantes, são muitos estímulos. Quando você fala em parar, sentar numa almofada e meditar as pessoas pensam que é loucura. Quando estamos acelerados não estamos no presente, ficarmos realmente no momento presente é muito difícil.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Saber estar aqui



Pergunta – Não há uma contradição quando o senhor diz para vivermos no agora, mas sem pensar na questão de causa e consequência, já que essa consequência será no futuro, mas não tenho que viver o agora, como é isso?

Monge Genshô – Não. Viva o agora, perceba o agora, mas saiba que você é responsável por tudo no futuro, da mesma forma que tudo que acontece com você agora é consequência de um passado. A proposta não é não pensar nas consequências, viver o agora implica em “saber estar aqui”, é como beber chá. Provavelmente quase ninguém hoje bebeu chá. Beber o chá é segurar a xícara, sentir seu calor, sentir o aroma do chá, colocar o chá na boca, sentir o sabor e engolir e, mesmo depois de engolido, senti-lo descer pela garganta, isso é beber o chá e exige grande presença, sem presença você não bebe o chá verdadeiramente, apenas executou um ato automático e é assim que a maioria das pessoas vive hoje em dia, ligadas no automático e por essa razão não vivem, apenas passam pelo mundo como uma espécie de zumbi.

Observem as pessoas nas ruas, são sonâmbulos e alguns até falam sozinhos. Sequer sentem o chão abaixo de seus pés nem escutam os pássaros, não estão vivos realmente. Muitas pessoas logo ao chegar em casa ligam a televisão, elas precisam de algum tipo de ruído. Eu tenho esse tipo de experiência a todo o momento. Quando pego um taxi, por exemplo, o motorista está sempre com o rádio ligado, mas ele deseja conversar com você, se eu peço que desligue o rádio, em poucos minutos ele automaticamente liga novamente, não pode ficar sem o ruído de fundo.

As pessoas usam a desculpa da distração ou da diversão, mas na realidade é não viver o agora, é viver alguma embriaguez. Nos mosteiros Zen é o oposto, não tem música, televisão ou celular para se distrair ou divertir. Se você pega um instrumento para trabalhar deve estar totalmente presente na sua obrigação daquele momento. Por quê o zazen é de frente para a parede? Para diminuir até o último grau, qualquer distração ou diversão. Imobilizamos o corpo com o objetivo de parar a mente, fazê-la ficar ali naquele momento.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Libertar das ilusões



Pergunta – Quando meu corpo físico morrer meu carma continua?

Monge Genshô – Sim, o carma não cessa. Seus impulsos, paixões e apegos é que continuam, mas seu “eu” não tem como sobreviver. Nada do que você costuma amar, assim como você mesma, vai continuar. Todas as religiões foram construídas para dar às pessoas o consolo da continuidade do seu “eu”, inventando uma alma ou espírito e um “eu” que continua de alguma forma. Por isso poucas pessoas ficam no Budismo, pois ele não tem esse consolo para oferecer, todos querem escapar da morte e por isso as religiões falam em salvação, mas o Budismo não é um ensinamento para salvar  da morte através de uma ressurreição milagrosa e sim para libertar.  Libertar do quê? Libertar das ilusões. O Zen não fala em depois, as pessoas querem muito pensar no depois, no que acontece após a morte. O Zen se preocupa com o agora, por isso a orientação no zazen é não pensar em futuro ou passado. Não se preocupem com o que acontece depois da morte, sobre isso todos saberão. Por estarem tão preocupadas com o que acontecerá , é que as pessoas não vivem de fato o momento presente. Esse é o significado da frase de Saikawa Roshi, “Os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, só os homens não são verdadeiramente homens”.

Só os homens vivem angustiados com o fato de que irão morrer. Reconheça, seu “eu” não pode sobreviver à morte, ele não sobrevive a uma doença cerebral, um Alzheimer, como esperar que ele sobreviva à morte? O que não cessa e que deveria ser realmente alvo de preocupação são os pensamentos, atos, palavras, paixões e apegos. O que você é agora vem do seu passado. No futuro, alguém que não é você, mas é você, viverá as consequências de tudo que  construiu nessa vida.

 Até os quatro anos de idade, normalmente, nos esquecemos de tudo vivido antes. Vamos supor que antes dos quatro anos você  fazendo uma arte, perca um dedo. Na sua vida adulta você olha e não vê seu dedo, você não lembra o que aconteceu, é como se não tivesse sido você, mas o dedo está faltando. Você sofre as consequências e não vê sua culpa, pois não era você adulto. As consequências estão ali, mesmo que não fosse você. O que se faz agora terá consequências no futuro, será você, mas não será você.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Era você mas não era você



Pergunta – O que seria esse tempo perdido, o que significa?

Monge Genshô – Significa que você tem uma vida curta para toda sabedoria que deveria tentar alcançar. Não é como fazer um curso e receber um diploma. Você irá precisar de muitas vidas e tem o agravante de que a cada vida você esquece a passada, inicia do zero, só carrega seus impulsos, tendências, paixões e apegos. Você é responsável pelas coisas pelas quais se sente atraído, pois construiu uma mente assim. Todos aqui já fizeram grandes coisas em vidas passadas, senão não se sentiriam atraídos para sentarem-se para meditar e para ouvir palestra do Dharma, criaram mérito para isso.

Pergunta – Quando o senhor fala em carma isso significa que é de outras vidas ou pode haver um carma desta mesma vida?

Monge Genshô – Sim, de outras vidas, mas não era você. Porém nesta vida você também está gerando carma continuamente.

Pergunta – Eram meus avós, meus ancestrais?

Monge Genshô – Não. Era uma vida passada sua, mas não era você. Esse seu “eu” é construção do agora, desta vida. Você é como falei antes, uma herdeira de carma, mas não de seus ancestrais e sim de você mesma, só que não era você mesma. Confuso? O “eu” é que é uma ilusão, não o carma.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Portais do Dharma



Pergunta – O senhor poderia falar um pouco mais sobre os “Portais do Dharma”? Eles teriam alguma ligação com os sentidos, audição, olfato etc.?

Monge Genshô – Não. Existe uma antiga tradição de considerar o conhecimento como o “atravessar de portais”, porque se parece muito com isso. Cada vez que você abre uma porta de conhecimento é como se tivesse aberto um portal e tomasse conhecimento de uma multidão de novas coisas. Porém, logo após essa compreensão, você percebe que há mais passos a serem dados e à medida que você vai abrindo essas portas de compreensão, outros degraus de conhecimento surgem.

Os portais do Dharma são uma espécie de metáfora. Não é algo físico, mas sim uma imagem metafórica dos passos da sabedoria e esses portais são incontáveis e infindáveis, cada vez que você abre um e se admira do conhecimento adquirido, descobre sua própria ignorância. Quanto mais você progride e sabe, mais você se sente ignorante. Quando você inicia no Zen, há uma grande satisfação, uma espécie de libertação dos deuses, demônios e crenças, é uma grande descoberta, porém, esse é só um pré-requisito básico de abandonar as ilusões e as crenças que a humanidade construiu para se agarrar.

Quando você descobre, através do zazen, que não controla sua mente e pensa ser isso uma grande sabedoria, começa a sentir pena das pessoas que se deixam arrastar por suas paixões. Com um pouco mais de prática você se descobre exatamente igual a essas pessoas. Se um dia você levantar uma ponta do véu e tiver uma ponta do despertar, irá descobrir que é ao mesmo tempo espetacular e simplório e quando levar essa experiência para seu professor, irá escutar dele que isso é tão somente o início do caminho.

É exatamente assim, pois você compreendeu, mas não consegue viver dessa maneira, sabe como deveria pensar e agir, mas não consegue fazer, pôr em prática. Não somos só imensamente ignorantes, como não temos tempo para conhecer uma fração sequer do que deveríamos conhecer. Por isso essa frase no final do zazen da noite, “O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde, não desperdice sua vida”.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o título do blog

Vez por outra alguém pergunta sobre  este título, partilhado com o livro assim chamado, argumentando que "onde" pede "em", a resposta é que é proposital, para fazer pensar em um paradoxo tipicamente do zen:

R: Por que não é "No pico da montanha" , ou "Os meus pés estão no pico da montanha"?  Porque esta montanha está em todos os lugares, não é um "onde", mesmo os vales são o pico da montanha, sendo onipresente passa a ser uma condição determinada pelos pés e não pelo lugar onde estariam. Se fosse um onde, qualquer passo seria descer de um pico nos quais os pés estão sempre.

HERDAMOS NOSSAS VIDAS



Temos que compreender o “não nascido”. Costumamos pensar que nascemos e morremos e que tudo tem um tempo de início, mas na realidade temos que compreender que não nascemos, somente herdamos, nosso nascimento é um evento de herança e a vida não começa nem termina, ela somente continua.

Os homens sofrem porque pensam em início e fim das coisas, não compreendem que a vida é um imenso fluxo em que nada tem um começo definido nem um fim claro, todas as coisas têm uma continuidade. Temos, aqui e agora, nossos ancestrais presentes em nossos rostos e mãos. Eles continuam em nós e dessa forma toda a vida nada mais é do que herança sem fim. Mesmo quando não há mais uma espécie continuando, ou quando um mundo termina e um universo cessa, ainda sim tudo o que há é continuidade, mesmo a energia se dissipando, ela continua. Um dia essa energia novamente se agrega e continua num novo dia cósmico.

Para compreendermos isso temos que mergulhar muito fundo no zazen e enxergar nossa verdadeira natureza, que não é de inícios e fins, mas sim de continuidade, interconexão e interdependência.

Nada do que nos acontece é um evento isolado, mas sim uma continuidade de eventos do passado. Muitas das dificuldades das pessoas em entender o carma devem-se ao fato de olhar para as coisas e querer encontrar um início. O carma também é continuidade. Somos efeitos de causas pregressas e nada deixa de ter uma causa anterior. Sempre temos que nos perguntar onde está a causa do efeito que vivemos, pois qualquer que seja o efeito, nós construímos a causa de alguma forma.

Assim, em última análise, nada acontece que nós não mereçamos. Caminhamos sobre um chão que nós mesmos construímos. Construímos nosso futuro com as ações do presente e isso não se refere a culpa, mas simplesmente ação e consequência. É assim que o universo funciona e toda a ética do Budismo funciona, de acordo com essa percepção e não tem nada a ver com alguém de fora que premia ou castiga, não existe ninguém que irá carregar as consequências de seus atos e muito menos perdoar suas falhas. Você não pode fugir das consequências de seus pensamentos, palavras e atos. A única forma de resolver seu carma é com novos pensamentos, palavras e atos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Certo e errado existem para operar neste mundo



4) Em minha mente, não existir bom ou ruim é muito difícil de entender. Qual o principal objetivo então, destruir a dualidade ou compreendê-la e saber de sua existência?

Saikawa Roshi – Nossa mente precisa de dualidade para entender as coisas. Para entender sua vida diária você precisa de sua mente dual. Sem usar a dualidade você não conseguiria operar nesse mundo, você precisa julgar certo ou errado, bom ou ruim. Para tentar explicar eu usei a metáfora do transplante, mas para realmente entender você vai precisar de uma experiência e é por isso que fazemos Zazen.

5) Como posso cortar a raiz do sofrimento se ela não é minha?

Saikawa Roshi – Na nossa vida diária dizemos “meu corpo, meu sangue, meu rim, minha mente e minha opinião”. Você precisa ver verdadeiramente a raiz dentro de você, por que você diz “meu sofrimento”. Estamos tão tenazmente agarrados ao nosso “eu” que não percebemos que se temos um sofrimento, este é só do ”eu”.

De qualquer maneira estamos sentados e podemos apreciar o zazen, mesmo que sentados não há julgamentos do tipo “gosto e não gosto”, podemos simplesmente apreciar o zazen. O zazen nos ensina. Por favor, participem dos retiros, façam zazen. A gentileza das pessoas que frequentam as Sanghas é muito importante porque faz com que outras pessoas que venham à Sangha encontrem um lugar de paz e harmonia. Para criar paz e harmonia, pratiquem zazen e tentem ser um com os outros. Essa atmosfera de paz e harmonia vindas de cada um de vocês é muito importante para a Sangha. Por favor, aproveitem cada momento de suas vidas. Muito obrigado

domingo, 1 de setembro de 2013

Incompletude



1) Se a dor, como o Senhor falou, é um caminho para que a gente veja a inexistência do ego, esse vazio não abraçado não faria essa própria dor não existir?

Saikawa Roshi – Mesmo que a dor exista, sua raiz pode ser cortada. Com a aceitação de vida e morte, vida existe e morte também existe. Se você realmente vê isso, pode ir além, poderá ir além da raiz e o sofrimento poderá ser cortado.

2) Essa sensação de incompletude, que parece ser inerente à vida humana, tem como origem nossa visão das coisas de forma dual?

Saikawa Roshi – É muito bom ter este sentimento, pois pode impulsionar sua prática. Nos sentimos incompletos na nossa vida diária e este sentimento é que nos dá energia para praticarmos, mas durante o Zazen você pode ir além de sentir-se completo ou incompleto, você pode ir além da dualidade. Nesse sentido podemos sentir nossa completude praticando zazen. Somos cem por cento iguais a Shakyamuni Buda. Quando ele sentia sede, sentia sede exatamente como nós, sentia fome da mesma forma que nós. A diferença é que ele realmente viu dentro de si mesmo e tornou-se como um espelho vazio, um com todo o universo. Ele foi além da dualidade e pôde aproveitar sua vida. Sofria quando o sofrimento vinha e sorria com a alegria.

3) Se viemos de uma dimensão única e não dual, qual o objetivo de nossa dualidade? Porque temos que passar por essa experiência?

Saikawa Roshi – Não podemos ver os dois lados da moeda ao mesmo tempo. Um lado é não dual, perfeitamente vazio, mas o outro lado é cem por cento dualismo como nossa vida diária. Mesmo neste dualismo da vida diária, nós podemos tentar ver a situação ideal. Nós pensamos quando uma criança nasce, que ela realmente nasceu; mas na verdade a vida é uma continuidade, por isso, na verdade ela não nasceu. “Eu nasci em tal ano” é simplesmente uma expressão. Conforme vamos crescendo as pessoas vão nos ensinando o mundo da dualidade, você é Genshô, esses são seus pais e seus irmãos, esse é um dos lados da moeda. Desta forma, sem perceber a criança vai aprendendo a dualidade. Precisamos aprender a ver o outro lado da moeda através do shikantaza, o zazen. Se você vir o dualismo poderá cortar a raiz de todo sofrimento. Em um lado da moeda estou aqui tentando falar sobre o Dharma para livrar as pessoas do sofrimento. (continua)