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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Para o ano novo



Peço desculpas, mas não vou desejar bom ano novo. Não irei desejar um ano novo ruim, tampouco.
Vou ficar aqui, à espera, olhando o sol passar pelo dia e a lua surgir no horizonte para anunciar a noite.
Mais um dia irá passar, e sua passagem será o início do resto de nossas vidas.
Não irei comemorar um novo ano. Pois, de fato, o que faz um ano se tornar velho e outro ser um horizonte de desejos e anseios? A cada dia, um ano inteiro se passou e novo ano começa. Portanto, por que esperar que um dia - um mero e comum dia - seja mais significativo do que todos os outros?
Diz o meste zen Eihen Dogen: "se há uma separação da mera espessura de um fio de cabelo entre o céu e a terra, então é como o infinito abismo a separa-los". Da mesma forma, se há uma separação de um décimo de segundo, então é como o golfo da eternidade a separar o passado e o futuro.
Não, não irei separar nada! Não irei criar a ilusão de uma distância, o conflito de uma diferença entre o ontem e o amanhã.
Vou continuar. Vou assumir que ainda não realizei objetivos, mas que já conquistei muito em mim mesmo; que perdi entes queridos, mas que ainda abrigo em meu coração o mérito de possuir bons amigos e belos amores.
Vou admitir que estou envelhecendo, mas que aprendi a rir e celebrar como as crianças; que estou amadurecendo em discernimento e consciência, mas que também esqueci de confiar mais na sutil sabedoria implícita em minhas próprias ignorâncias; que acertei muito, mas que também errei bastante.
Entre o céu e a terra, se há a distância de um fio de cabelo, é como um infinito abismo de separação. Entre um ano passado e um ano futuro, se existe a divisão de um mero segundo, é como se eu jamais fosse íntegro em minha história de vida.
O tempo é o rio do Tao, e nossa vida segue una enquanto vivemos. Não se prenda ao passado; não anseie o futuro. Assuma, corajosamente, o seu AGORA. Não crie sonhos para um tempo depois. Aja, agora, sem guardar promessas vazias.
Entre o Ontem e o Amanhã, mesmo que haja a lacuna de um mero segundo, o Hoje permanece.
Celebre o Agora. E, sem ansiar por se tornar outra pessoa em um futuro vazio, seja o melhor de si mesmo neste exato momento.
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Separação, dezembro 2012 (revisado em 2014)
Monge Kōmyō

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O apego a ritos e textos



4) Em relação aos sutras, é importante mesmo recitá-los em chinês arcaico? Há alguma diferença?

As cerimônias são interessantes. Algumas pessoas são mais impactadas por elas e outras menos. Nós recitamos em línguas antigas para você ficar presente no que está fazendo. O fato de você ficar recitando uma coisa que aparentemente “não tem sentido”, faz com que sua mente esvazie. Então o sentido é sem sentido.

Se você quer “entender” a mensagem do sutra, você o escuta na sua língua e compreende. “Ah, ele quer dizer isso”. Você vai raciocinar com sua mente e tentar entender logicamente a mensagem, mas isso não é iluminação, isso é conhecimento. E conhecimento não é sabedoria. São coisas diferentes.

Então a prática das cerimônias é útil, e o cerimonial em si ele tem um sentido de: “ah, vamos estabelecer uma maneira de fazer o ritual, e é essa aqui”. Cada templo acaba estabelecendo a sua, e então tenta-se fazê-lo perfeitamente, porque não vai dar para se pensar mais em nada, pois você está só ali.

Mas isso também é uma “coisa criada”, também é uma fantasia, um meio hábil. Então  há um ensinamento no budismo que diz assim: “um dos obstáculos à iluminação é o apego à ritos e cerimônias”. Um dos principais obstáculos à prática. Alguns monges começam a adorar fazer cerimônia, não gostam de fazer zazen mas amam cerimônias e adoram corrigir os erros dos outros.

Então, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Cerimônias são importantes, conhecimento é importante, mas você precisa das duas asas para voar, conhecimento e prática. Porem se tivermos que escolher, devemos escolher a prática, porque de eruditos que sabem de muitas coisas, nós estamos cheios, de ritualistas mais ainda. Há gente que acha que estudar o budismo é dizer: “ah em sânscrito a palavra quer dizer isso e aquilo”. Aí vem outro e diz: “não, não, tem essa sutileza aqui, porque em páli o autor tal diz isso e aquilo”, e começam a discutir esses detalhes. Parecem os bizantinos, que discutiam quantos anjos podiam caber na cabeça de um alfinete. Isso é inútil para o despertar, do ponto de vista do zen completamente inútil.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Aqui, neste momento


2) Dentro do que o Senhor está falando, o mais importante então seria estar no presente, independentemente de onde você esteja?

Monge Genshô: Considere que você pode estar em zazen (meditação sentada) e não estar fazendo zazen coisa nenhuma. Pode sentar e ficar lá o tempo todo pensando e elaborando um monte de coisas. Você não fez zazen. Porque zazen é ficar aqui, neste momento. Se você senta em zazen e consegue ficar alguns minutos realmente aqui, já é uma grande coisa. Se você consegue ficar 40% do tempo do zazen realmente em samadhi (concentração sem julgamentos), isso é ótimo, porque é muito difícil.

Ninguém precisa me contar aqui que na realidade ficou sentado fazendo coisa que não era zazen. Eu sei. Eu sei que é assim. Então o mais importante realmente é conseguir acessar este agora, estar realmente aqui.

3) Eu me percebi ultimamente, talvez, dentro de uma armadilha. Durante a prática fui relaxando e percebi minha mente muito inquieta e eu me questionei, porque quando eu tenho uma prática mais regular eu realmente me sinto mais acomodada, então eu vi um certo jogo dentro de mim.

Monge Genshô: Nem os mestres mais adiantados param de sentar. Ninguém para de sentar, você continua fazendo isso porque estabiliza a sua prática. E nada estabiliza mais a prática que um sesshin (retiro) de verdade. Porque não é como um zazenkai (dia de zazen). A gente acorda as 4 da manhã, às 4:20 estamos sentados e aí começa: zazen, kinhin, zazen. Café da manhã, cerimônia. Samu, trabalho. Acabou volta, zazen, kinhin, zazen. Palestra, zazen, kinhin, zazen. E assim vai indo. De tarde a mesma coisa, até as 22 hs. Quando você vê, fez em um dia 16 zazens de 40m.

Aí a mente muda muito. Porque você acumula prática. Fazemos até 7 dias seguidos. Zazen todo dia, sem parar. Tem até um monastério no Japão, Antaiji, que é famoso porque não faz mais nada nos retiros, zazen sem parar, só 6 horas de sono por noite.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu não sou assim...



(continuação)  Monge Genshô: Uma vez, 20 anos atrás, um homem num posto de gasolina desceu do carro para brigar comigo por um lugar em uma fila, também desci para não ser agredido sentado mas disse, “não, tudo bem, o senhor pode ir na frente, eu troco meu carro de lugar”. Então peguei meu cartão de apresentação, fui até o carro onde ele havia voltado a entrar entreguei e disse: “vamos transformar isso numa coisa boa”? E ele se desarmou, apertou minha mão etc., passaram alguns minutos, ele abasteceu o carro dele e veio falar comigo, andando com os braços abertos e disse: “eu não sou assim, eu não sou assim, o senhor veja eu perdi meu filho único de 21 anos, morreu semana passada, nem minha família me aguenta mais”. Aí todo mundo que tinha visto a cena no posto, não entendeu nada, porque os homens prestes a se engalfinhar estavam abraçados e um chorava. Então a gente não sabe o que está acontecendo na cabeça dos outros, porque é que ele está falando palavrões, porque é que ele está agredindo, você não sabe.

E tendo essa compreensão mais abrangente da vida, você poderá perdoar tudo. Você não vai pensar: “é para mim”, porque não é para você. Ele está brigando com o mundo e, por acaso você estava ali. Aquele homem se sentia injustiçado pela morte do filho, é isso, e então ele queria brigar com o mundo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Disciplina da mente




1) Dentro de uma prática regular, o que o senhor considera bom e razoável, para manter uma disciplina e um condicionamento da mente?

Monge Genshô: Seria bom fazer zazen duas vezes ao dia. Mas mais importante do que só fazer zazen, é começar a prestar plena atenção naquilo que se está fazendo. O que estou fazendo? Plenamente presente significa a mesma mente do zazen, sem ficar no passado nem no futuro. Lavar a louça: lavar a louça. A água caindo nas mãos, detergente no prato, tudo bem limpo, ficou sem gordura, enxaguar, sentir a temperatura da água, colocar para escorrer, outro prato. Aqui e agora. Nada de pensar no que eu vou fazer amanhã, o que aconteceu ontem, as contas para pagar, nada. Você vai fazer zazen lavando pratos, isso é bem importante.

Se você conseguir treinar no zazen estar presente naquele momento, você pode transferir para aquilo que você está realizando, e isso você pode fazer até 24 h por dia. Com uma prática assim, sua mente vai mudar muito, muito.

Dirigir um carro é um desafio. Você está andando, vem alguém atrás, buzina. Você não pensa nada, não se irrita, não se mobiliza, pensa que ele deve estar com mais pressa e dá passagem para ele. Ele passa do lado e diz uns palavrões porque você estava atrapalhando, e você não diz nada. Aceita como se fosse água caindo do chuveiro. Nada, não responde nada. E não continua pensando no assunto, continua dirigindo e dez metros depois você tem que ter esquecido os palavrões. Tentar não ficar com sentimento de ansiedade ou raiva depois, é isso que você tem que conseguir. Não levar nada em conta. (continua)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Paisagem mental



(continuação)
Um homem estava metido num grande problema, porque ele precisava “aparentar”, então ele precisava ter um carro muito caro, precisava ter um apartamento enorme, mas estava metido em dívidas impagáveis e isso causava uma grande infelicidade para ele, crise de hipertensão, e tudo o mais um monge lhe disse: “mas você pode vender tudo isso, não precisa ter esse padrão de vida. Vá dormir tranquilo”. “Mas o que é que os outros vão pensar”?
Para quem ele precisava mostrar que era milionário? Só que ele não era rico, ele era endividado. E ele não conseguiu escapar disso, era possível mas não conseguiu e continuou vivendo em ansiedade. Um monge não conseguiria entender o “mundo” dele, ele precisava usar um relógio Rolex.

Então, no fundo, a prisão está na paisagem que a pessoa criou dentro da cabeça. Ela acreditou em determinadas coisas e isso a aprisionou. Nós temos que olhar pra nós e dizermos assim: “qual é a fantasia na qual eu acredito”? No Zen queremos desarmar isso.

Então a mente pode mudar, mas, se você ficar preso numa paisagem qualquer, ela pode impedir sua vida. Porque você pensa: “eu vou ser monge e isso vai me fazer feliz”. E quando você se torna monge, o quê que acontece? É só trabalho. A prioridade são os outros, não é mais a “sua” prioridade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Competições





(Continuação)
As guerras só existem porque os homens acreditam nelas, e acreditam na maldade do outro. Eu não vou dizer que essa maldade não exista, mas o que a sustenta  é a crença na identidade. Se não houvesse crença nas identidades, não haveriam guerras. Não precisaríamos temer os outros, bastaria esquecer que somos diferentes. As identidades de raça, de religião, xiitas, sunitas, cristãos, basta as esquecer e as guerras terminariam. Se entrarmos em guerra contra a Argentina, e houver invasões, essa guerra só existiria porque acreditamos que somos brasileiros e eles acreditam que são argentinos, o que é absolutamente tolo, não tem sentido nenhum. A guerra das Malvinas foi assim, entre Argentina e Inglaterra, “eu quero essas ilhas”. E a Inglaterra não queria ter seu orgulho desafiado e a Argentina queria possuir aquelas ilhas, e, por causa disso, morreram centenas de pessoas inutilmente, por pura vaidade e orgulho. Absolutamente desnecessário.

Mesmo se nós entrarmos nas religiões e mesmo no Zen, vamos ver pessoas que dizem “meu aluno”, “meu grupo”. Monges que caem nessas armadilhas, “minha escola”, “minha linhagem”, não é? Isso é bobagem, completa tolice, porque não pode existir um “minha” aqui neste mundo, nem um “meu”. É inútil. Competição sem sentido.

 Então na realidade, temos que concordar com o outro. Ah, ele acha que tem o “Deus verdadeiro”. Ah, sim. Qual é a resposta budista se alguém diz “meu Deus é verdadeiro”? A resposta budista é: “Ah sim, na minha terra tem muito isto de Deus verdadeiro.” “Não, mas o MEU Deus é verdadeiro”. “Ah, aqui no budismo também ocorre isto de o NOSSO é verdadeiro.” “Não mas o meu é o ÚNICO verdadeiro”. “Ah, nós também temos muitos deuses ÚNICOS e verdadeiros.” Até o interlocutor achar que está falando com um louco não é? “Você é louco”. “É, realmente, às vezes me sinto assim mesmo. Não tem problema.” E fim. (continua)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Arrastado pela fantasia





 (continuação)
Então depois do samadhi, kensho.  As pessoas pensam que iluminação é uma coisa fantástica e extraordinária, dificílima etc. Até é, mas pequenas amostras, são comuns. O problema é que a pessoa não é iluminada porque teve uma experiência assim:  viu um passarinho e achou, “Ah! Que lindo”! E não pensa mais nada, vive aquele momento intensamente, mas, 3 segundos depois, passou.

A iluminação está disponível, o que acontece é que nós não conseguimos agarrá-la, porque nós não estamos preparados para isto e, se a pessoa tiver a mente muito conturbada, ela não consegue nem ver o passarinho, e se vir o passarinho joga pedra nele. É uma questão de mente, não consegue ver nada, está perdido completamente. Mas uma pessoa razoavelmente normal, ela tem algumas experiências muito lindas, só que  não consegue mantê-las. Não consegue segurar aquilo e não pode decidir ter, não pode dizer assim: “agora vou me desligar de tudo e mergulhar numa experiência”. Essa habilidade de poder mergulhar na iluminação a qualquer momento, nós chamamos de “Satori”, e essa é dificílima, porque exige uma condição mental em que você acha e vê a sua vida a cada momento, como perfeita, em que a noção de um eu foi inteiramente esquecida.

E a diversão é mergulhar na falsidade, imagine uma pessoa que tem o Satori, ela vai ao cinema senta e vê: “são pontos de luz numa tela; os atores representaram isso anos atrás; tinha um roteiro; é tudo montado; é uma peça de teatro; não é nenhuma realidade”. Então ele aprecia a obra, mas não é arrastado por ela. Está vendo a realidade e não é arrastado por nenhuma fantasia. (continua)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A resposta que responde tudo


 (continuação)
Uma vez eu perguntei para um mestre: “como é quando se entra para um mosteiro”? E ele disse: “Quando se entra temos muitas teorias e no fim resta apenas uma pergunta: “quem sou eu?” Quando você resolve essa pergunta está tudo resolvido, porque você sabe o que fazer, quando e de que  forma. Está tudo resolvido.

Vocês estão vendo anotações que eu fiz para fazer a palestra? Não? Por que? Porque uma mestra da África do Sul me disse assim: “nunca prepare porque o Dharma tem que estar pronto dentro de você, tem que estar livre dentro de você. Quando você estiver na frente das pessoas, a palestra certa acontece, para aquele grupo de pessoas que você está falando”. Se você preparar, é a sua palestra, não é a palestra que aquele grupo quer escutar. Mas isso exige que você esteja pronto, não é?
(continua)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A verdadeira vida boa



(Continuação da palestra)
Então, vai aparecer lá, o insight, se você tiver preparado o terreno, no samadhi. E aí podem acontecer as oportunidades de kensho. “Ken” é ver, e “sho”, sua verdadeira natureza. Kensho é a experiência iluminada. Você nunca vê sua verdadeira natureza porque está perdido nesse mundo de ilusões. Nós estamos muito perdidos num mundo de ilusão própria, esse mundo não é bom, não é agradável, e por isso nós procuramos nos divertir e entreter, por isso procuramos outras vidas que são vidas falsas, não é? No cinema, na novela, em qualquer lugar. É aquela vida falsa substituta da sua vida, que é uma vida insatisfatória. Por isso procuramos nos divertir. Se uma pessoa tivesse uma vida absolutamente perfeita, maravilhosa, ele não iria querer se divertir, ele ia querer ficar “naquela” vida, aproveitando aquela vida, naquele momento. Para quê outro momento? Eu estou aqui apaixonado e feliz vivendo um amor maravilhoso, de mãos dadas com o meu amor, e alguém diz assim: “sai daí, vem aqui assistir uma novela”! Não, não vou, estou bem aqui, não quero ver novela. Isso seria vida realmente boa. Dá para entender? Isto não quer dizer abdicar das experiências prazeirosas e jogos se em cada um deles você estiver realmente presente, vivendo a vida plenamente.

Então a proposta no Zen é: vamos procurar a verdadeira vida boa? Mas a vida verdadeiramente boa, não está no resto, no mundo lá fora, está numa coisa interna minha. Se eu, dentro de mim, tiver olhos para ver, então eu posso achar o nirvana, pois ele está no mesmo lugar que o samsara. Os olhos de quem está olhando é que são diferentes. É por isso o nome do meu livro, “O pico da montanha é onde estão os meus pés”, porque a vida maravilhosa tem que ser aquela que você está vivendo naquele momento. Aqui e agora é o pico da montanha. Eu me preparei décadas para estar aqui sentado junto com vocês, estar vestindo essa roupa, e falando com vocês. Isso é o máximo, é um momento muito feliz, maravilhoso. Amanhã, é o pico da montanha de novo, e depois de amanhã, de novo. Isso é vida feliz. Assim é ser feliz, não é a euforia, é a sensação de justeza, eu estou fazendo o que eu queria, exatamente como eu queria. ( continua)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Os portais do Dharma são incontáveis



 (continuação da palestra)
Monge Genshô:  De frente para a parede, o que apareceu? Se interrogarmos um a um, vão aparecer várias histórias e mil pensamentos diferentes.

Mas o que é a melhor coisa de todas quando estamos sentados? É o que chamamos de samadhi. Samadhi é concentração real. “Eu estou sentado aqui agora, ouvindo o som do ventilador e mais nada”. Eu não saio daqui nem um segundo, não penso em outra coisa, eu ouço o som do ventilador, eu percebo os sutis movimentos em volta de mim. O colega do lado faz um pequeno movimento, eu percebo. Eu sei. É como se eu tivesse vendo a sala toda, não tenho olhos atrás da minha cabeça mas eu estou “vendo” de alguma forma, eu sinto o meu coração pulsando, e o sangue correndo. Eu sinto isso. Isso é estar realmente estar no momento presente.

Alguém sentiu seu coração pulsando?

Aluna – eu senti, mas foi tão intenso, que me deu medo.

Uma sensação comum é o medo. Mas não tem porque sentir medo. Temos que perguntar assim: “De onde vem esse medo? De quê eu tenho medo?” Você também pode sentir medo de uma grandiosidade que surge na sua frente e que é uma coisa que você não esperava. Um tempo infinito, um vazio, não sou eu, é algo mais, e esse expandir-se da consciência causa medo, porque nós estamos muito acostumados a viver agarrados na nossa identidade, ela “parece” uma âncora sólida, tranquila.  Então você pode se sentir assim, mas quando sentir qualquer medo, olhe para dentro de si e pergunte de onde vem , é originado de quê? Eu tenho medo que aconteça o quê? Então você pode olhar para  dentro e ver de onde vem.

Essa é uma grande oportunidade, porque nós temos portais, os “Portais do Dharma”, você abre uma porta, libertou-se daquele medo, passa para o espaço seguinte. Mas, tem outra porta. Você obteve determinada sabedoria, quando vê, tem outra porta. E se você passa para o outro lado, tem outra porta. Por isso um dos votos de Bodhissttva diz: “os portais do Dharma são incontáveis, faço o voto de atravessá-los todos”.

Você atravessa e cada pessoa tem uma experiência sutilmente diferente, e o processo de insights é diferente para cada pessoa. Mas se você consegue, durante o zazen, permanecer em samadhi, então, a sua mente ganha uma condição, como se fosse um terreno que nós aramos, tiramos a terra, tiramos raízes intocadas, e amaciamos a terra, adubamos, é isso que fazemos no zazen. Você prepara, prepara, prepara, está jogando pedras fora, acha outro pedregulho, vai jogando e aí sua terra vai ficando pronta. Sua terra ficando pronta nela podem ser plantadas coisas e podem ir nascendo frutos saborosos. Então samadhi é “preparação”. O zazen, todo ele é preparação. É raro que a iluminação aconteça num zazen, é mais comum que você tenha experiências iluminadas fora do zazen, numa caminhada, abrindo uma janela, regando uma planta, lavando pratos, etc. (continua)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Só o que está dentro de sua cabeça



(continuação de palestra em Brasília, 2014)
Monge Genshô: Há uma historinha de  que uma vez levaram um estrangeiro para um parque da Disney e passaram o dia inteiro, entrando em montanhas russas, filas, sempre aguardando a próxima surpresa, brinquedos que apelam para os seus medos fundamentais, de altura, de medo, fantasias etc. Então perguntaram ao estrangeiro o que ele tinha achado ao final, e ele disse: “que povo triste vocês devem ser”.

Vejam outro exemplo, existem muitas pessoas que assistem novelas e cujas vidas passam a ser as novelas.  Só discutem a novela, tentam interferir, dão palpites, escrevem para a empresa de televisão, a empresa até muda os roteiros em função das opiniões das pessoas que estão assistindo porque, o negócio real da televisão, é o máximo de ibope, porque o vendedor vai à frente do comerciante e diz quantas TV´s estão ligadas naquele determinado horário, e é isso que dá o valor do anúncio. Quanto mais audiência, mais caro. Esse é o verdadeiro interesse.

Então, estávamos falando sobre quais são as armadilhas que as pessoas usam para escapar da vida. Para escapar da realidade, você vai se divertir. Agora vejam bem qual é a técnica desenvolvida no Zen, a tanto tempo atrás, porque a diversão não é nova, antigamente os homens usavam jogar cartas, olhar pela janela e criar fofocas, os jogos de guerra, etc, porém o mecanismo é o mesmo, escapar da realidade da vida para uma vida falsa, que foi construída. E essa vida tem extremo poder, tão grande poder que as pessoas começam a confundir a vida falsa criada com a vida real.

Então o que nós fazemos com o praticante do Zen? Dizemos: Venha cá. Eu não vou dizer o que você vai ver, não vou dizer nada do que é a realidade, mas eu vou sentar você numa almofada de frente para uma parede branca, sozinho. Ninguém para conversar, todos estão em silêncio, nós estamos aqui, você vai ficar quieto e olhar para a parede. Qual é o material que você tem? Só o que está dentro da sua cabeça. (continua)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Divertir-se



Monge Genshô: Essencialmente os homens sofrem de angústia existencial porque eles se deram conta que vão morrer. Esses dias eu dei um exemplo de que nós somos gente que caiu da beira de um precipício. Todo mundo com a corda amarrada no pescoço. A única coisa que a gente não sabe é o comprimento da corda. Em algum momento, ela se esticará. É assim. Nós estamos aqui agora e não sabemos quem de nós vai morrer primeiro.

 Então todos nós procuramos um caminho espiritual e começamos a praticar porque temos essa angústia existencial. 

E como é a prática do zazen? Como ela funciona?

Primeiro a gente senta em zazen com o corpo completamente quieto e isso ajuda muito a fazer a nossa mente se acalmar, porque você não tem estímulos. Veja que nós andamos pela vida bombardeados com uma quantidade de estímulos impressionante. A maioria das pessoas não tem idéia de a quantas mensagens publicitárias nós estamos expostos por dia, mas são milhares.

Nós tentamos escapar da vida usando duas palavras: divertir-se e entreter-se. As pessoas dizem que precisam se divertir e se entreter. Mas veja a estrutura desta palavra, “divertir-se”, é escapar da realidade para uma outra realidade qualquer que nos retire dali. Por exemplo, nós temos a nossa vida e nós vamos ao cinema e entramos na vida de outras pessoas, na vida daqueles personagens, naquela estória, nos comovemos, choramos, damos risadas, mas enquanto estamos ali, todos lá fora sumiram e, se você estiver ali naquela sala escura e mergulhar profundamente naquela estória, a sua vida desapareceu. Você vive momentaneamente uma vida por procuração, é outra vida. E nessa vida por procuração você “di” de dividir, de divergir, “divertir-se”. Ou, se entreteu, saiu também da sua vida para uma vida qualquer que obscureça a sua vida, porque sua vida pessoal não é muito suportável. Então você procura outra.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O décimo preceito



10. Eu decido não desrespeitar os Três Tesouros (Buddha, Dharma e Sangha), mas sim nutri-los e apoiá-los.

Como os Três Tesouros são inseparáveis uns dos outros, o despertar modela a nossa prática e a nossa vida comunitária, a prática modela a nossa vida comunitária e o nosso despertar, e a vida comunitária modela o nosso despertar e a nossa prática. O desrespeito a qualquer um dos três tesouros acarreta também danos para os outros dois. Reconhecer as nossas transgressões, buscar reconciliação,  harmonia e renovar o nosso compromisso com os preceitos é o trabalho da Natureza Búdica e a reafirmação de nosso lugar na Sangha. Quando a integridade da Sangha é honrada e protegida, os Três Tesouros se manifestam.


 Fonte: http://monjaisshin.wordpress.com

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O nono preceito




9. Eu decido não me entregar à raiva, mas sim praticar a paciência.

O cultivo da má-vontade é um veneno para indivíduos e para a comunidade. Ainda mais corrosivo é o cultivo de ideias de vingança. Os membros da Sangha que estiverem em conflito ou tensão com outras pessoas, devem tentar resolver estes impasses diretamente em espírito de honestidade, humildade e de amor-bondade.

De:  http://monjaisshin.wordpress.com

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O oitavo preceito



8. Eu decido não sonegar ajuda espiritual ou material, mas concedê-las gratuitamente quando necessário.

Todos os cargos nos mosteiros e sanghas, existem para o apoio da prática e despertar de todos.

"Monge Genshô: Os praticantes devem estar atentos a não se colocarem na posição de meros receptores, isto ocorre quando outros sustentam os centros de prática, pagando aluguéis e insumos e contribuindo com seu trabalho e alguns não o fazem. Os praticantes budistas não devem ser receptores do esforço dos outros sem nada contribuir em troca, o simples ato de fazer limpeza, lavar as louças, varrer o chão, faz parte integrante do treinamento dos monges e dos leigos e serve como contribuição para os que tem dificuldades financeiras. Os que tem possibilidades devem ajudar a construir e sustentar os locais de prática afim de proporcionar meios para que novas pessoas possam despertar. Aqueles que se beneficiam devem estar conscientes das necessidades dos monges e dos centros para que estes possam subsistir, estas práticas existem desde os tempos de Buddha e trouxeram o budismo e suas instituições até os dias de hoje. Sem estas estruturas institucionais, apesar de seus defeitos humanos, nem textos nem monasticismo, nem ajuda espiritual teriam sobrevivido."

De: http://monjaisshin.wordpress.com

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O sétimo preceito




7. Eu decido não enaltecer a mim mesmo e desfazer os demais, mas sim superar as minhas próprias limitações.

Enquanto que alegrar-se com nossas melhores qualidades e feitos é uma prática Budista consagrada pelo tempo, elogiar a si mesmo ou buscar um ganho pessoal às custas dos demais é uma atitude derivada de uma compreensão equivocada da natureza interdependente do “eu”. Na sangha, poderá ser necessário, em alguns casos, criticar a ação de certos indivíduos ou grupos. Quando tal é feito, nós devemos prestar atenção especial aos nossos motivos, ao conteúdo específico do que é dito, a quem é dito, e às potenciais repercussões da crítica.

De:  http://monjaisshin.wordpress.com

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O sexto preceito



6. Eu decido não falar sobre as falhas de outros, mas sim ser compreensivo e solidário.

Este preceito deriva de nossos esforços para construir harmonia social e compreensão mútua. Declarações falsas e maliciosas, por sua própria natureza, são atos de alienação que originam-se de uma percepção ilusória de oposição entre “eu” e “outros”. Geralmente a injúria traz como consequências a dor para os outros, e a fragmentação para a Sangha. Quando surgir a intenção de injuriar, esforçar-se para compreender as raízes deste impulso.


De:   http://monjaisshin.wordpress.com

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O quinto preceito




5. Eu decido manter a minha mente clara, não abusar do álcool ou outros intoxicantes, e nem levar os outros a fazê-lo.

A prática budista ocorre dentro de um contexto de consciência e plena atenção, um estado de mente que não é condicionado por tóxicos de nenhum tipo. Quando a claridade é perdida, é muito fácil violar os demais preceitos. Além disso, nós pretendemos que o Centro Zen seja um ambiente que apoie aqueles que estão tentando viver sem tóxicos. Portanto, álcool e intoxicação por drogas na sangha são inapropriados e constituem causa de preocupação e possível intervenção.
Enquanto discípulo de Buda, devemos ajudar todos os seres a alcançar sabedoria clara e não, ao invés disso, induzir a um pensamento perturbado e turvo.

Fonte: http://monjaisshin.wordpress.com