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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Dukkha não é sofrimento


 (continuação)
Dukkha quer dizer insatisfatório, nunca vou me satisfazer. Mas por que não vou me satisfazer? Vamos analisar a palavra, em sânscrito provém desta raiz – “Duk”. Mas o que significa isso? Duk significa eixo. Então tenho eixo e tenho uma roda.  Mas, se o meu eixo estiver deslocado o que vai acontecer? Como ela funciona? Ela desenha ciclos, ciclos assim. Isso é o que acontece com o eixo fora do lugar. Quando Buda disse – a vida é Dukkha, muitos tradutores traduziram como a vida é sofrimento. Buda nunca pretendeu dizer que a vida é só sofrimento. Buda não disse isso. Buda disse que a vida é Dukkha, que a vida é cíclica, insatisfatória. Ela sobe e desce sem parar. Então ora tenho amor, ora tenho dor de cotovelo ou tristeza. Ora tenho riqueza, ora pobreza. Ora satisfação, ora insatisfação. Sempre. A vida é constituída de coisas muito boas, tem prazeres, tem momentos maravilhosos de felicidades, de euforia. Ela tem isso, quem poderia negar? A vida não é só sofrimento.

Mas todo momento bom tem dentro dele já a semente do momento ruim, não é? Tenho filho, momento maravilho quando nasce. Mas alguém que tem um pouquinho mais de sabedoria diria – filhos criados, trabalhos dobrados. Filho criança é maravilha. Você diz assim – vai lá dormir, vai lá fazer sua aula de violino, agora é hora de fazer a lição e ele vai lá e faz a lição direitinho. Aí quando faz 12, 13 anos a coisa fica diferente. Vai fazer isso agora, “agora não pai! Que é isso, tirania, sei cuidar da minha vida”! Chegou o momento da adolescência, o momento dos 20 anos tem outros problemas. Aí casa e tem dificuldade financeira. Vem e pede – pai, me empresta dinheiro, me ajuda. Depois tem os problemas dele, da vida dele. Sofrimento, separação, os próprios filhos. E você nunca, nunca terá um momento de dizer isto é paz, agora é paz perfeita para sempre, pois a vida é Dukkha, cíclica.

O eixo da vida não está colocado no centro. Se fosse, a vida seria sempre igual, a mesma. Seria uma chatice sem fim. Como sobe e desce, tem momentos alegres e tristes. Mas, só existem os momentos alegres, pois existem os momentos tristes, e só existem os momentos tristes pois existem os momentos alegres. Porque nós vivemos em um mundo dual. É pura dualidade nosso mundo. Ele sempre está variando. A pergunta seria – porque as pessoas procuram o caminho espiritual? O que é o caminho espiritual? Porque Buda levou tanto tempo, 6 anos de estudo e meditação para chegar a uma conclusão tão simples como essa? Pois prometeram a perfeição, a felicidade, o atingimento de um estado perfeito e ele descobriu que não, que a vida tem em si mesma tanto alto e baixo, que jamais você poderá dizer que conseguiu uma vida estável. A vida é por sua natureza insatisfatória. Como é que posso viver nesse mundo instável e ser ao mesmo tempo equilibrado, feliz como Buda?

Aí temos que estudar a palavra Buda. Afinal de contas, aquele que foi para a floresta era Buda? Não, não era Buda. Aquele que foi para a floresta era Sidharta, um jovem rapaz cheio de angústia. Quem pode dizer qual era a maior angústia de Sidharta? Ele tinha uma angústia existencial. Ele viu com clareza que toda vida dá em velhice, doença e morte. (Ando pensando nisso todo dia não é, porque cada dia que vou na frente do espelho para fazer a barba vejo o trabalho da morte funcionando – Opa, mais uma ruga.) Doença, velhice e morte. Ele viu isto e aí perguntou qual era o sentido disso, do que adianta tudo o que estou fazendo, toda a glória, reino, meu pai, meu filho, minha esposa, se tudo isso dá nisso, sem fim. Se sentiu desacorçoado, entristecido, sem sentido na vida. E quando ele sentiu isso, achou que não podia continuar naquela vida sem achar uma solução para isso. Como achar solução para doença, velhice e morte se ninguém pode escapar disso? Tem alguém nessa sala que vai escapar disso? Não, nenhum! Então, nós também temos o problema de Buda.  (continua)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O mundo da perambulação


(Palestra em Goiânia)
Tathagata,  é um dos nomes de Buda. Significa aquele que assim como vai, assim ele vem. Isso tem um significado para nós meditarmos, porque nós vivemos em mundos de perambulação, em que estamos continuamente alterando a nós mesmos. Nós mesmos nos alteramos internamente e os mundos em volta se alteram junto conosco. Chamamos o perambular, o mundo da perambulação de samsara, o mundo do samsara.

O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que nos conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos “felizes”.  As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vão alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se tiver mais do que o vizinho. Então compra uma televisão melhor do que a do outro, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 15 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 15 metros. Ao lado há um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Ele se vê pequeno no mundo da comparação. Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória. (continua)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Girando a Roda do Dharma

Pergunta – Como ter uma compreensão clara de coisas boas, por exemplo, de compaixão e generosidade? O Senhor estava falando que não existe um “eu” para sentir raiva, mas então quem é o “eu”’ que realiza atos de compaixão e generosidade?
Monge Genshô – O Bodhisattva tem compaixão, mas para ser totalmente iluminado não pode enxergar os outros seres. Não pode haver eu aqui e você aí, de quem eu me compadeço. A visão de um “eu” separado está dentro da segunda Roda do Dharma.
A primeira Roda é a da Virtude, onde existem regras, não faça o mal, pratique o bem etc.
A segunda é a Roda da “Mente de Bodhichita” onde o ser tem compaixão, mas ainda vê o outro.
Na terceira Roda existe a não dualidade, ou seja, entre mim e você não existe diferença, a compaixão já não se aplica.
Sob o ponto de vista teórico, sua pergunta faz muito sentido e deveria ser respondida no âmbito da não dualidade, mas não conheço algum praticante budista que pratique perfeitamente a compaixão, conheço muitos que tentam praticar a virtude, a palavra correta, a mente correta e os pensamentos corretos. Pessoas que mesmo tentando se comportar melhor, ainda têm uma profunda noção de si mesmos e têm pena dos outros, o que é diferente de compaixão.
Compaixão é não dualidade, é você realmente se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro, ser o outro, não existem "os outros seres", você e o outro são a mesma coisa a ponto de você nem sentir compaixão, pois não existem outros por quem se compadecer. É paradoxal para uma mente não dual matar outros seres para comer seus pedaços, por exemplo. Conheço apenas praticantes no estágio da virtude. Inclusive eu.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Classificações e Dualidade


Monge Genshô: Pensem, pela ótica budista, uma criança pequena sendo ensinada a ser um “eu”. Ela nasce e, quando ela começa a balbuciar as primeiras palavras, diz simplesmente que “neném quer”. Neném não é um “eu”, mas nós ensinamos esta criança a assumir uma personalidade. “Você é ‘eu’, é um indivíduo separado! Seu nome é este!”. A criança absorve isso, e assim começamos a criar a dualidade. Aliás, a nossa linguagem tem esta característica, sobretudo quando queremos entender as coisas. É daí que surgem as classificações, que fazemos questão de colocar na nossa “prateleira de conceitos”. “Isto é isso ou é aquilo? Embaixo, ou em cima? Certo ou errado? É direita ou é esquerda?”. Nós queremos entender tudo por classificações, colocando todas as pessoas em escaninhos.

Não é de se admirar que algumas pessoas perguntem: “Em que mês você nasceu? Ah, as pessoas que nasceram em tal mês, do dia tal ao dia tal, são isso...”. E aí colocam você naquele escaninho e dizem “você é assim, assim e assim...”. Isso ocorre porque a nossa maneira de conhecer o mundo é através da classificação.

Nós estamos aqui para ajudar os outros seres, e esquecer-nos de nós mesmos, esta é a essência do budismo. O sofrimento existe da noção de um “eu” separado. Porque eu me acredito separado, então gero sofrimento. E às vezes as pessoas vêm até mim e dizem que têm um grande problema de solidão e normalmente eu recomendo uma coisa: “Saia de você!”. Pare de olhar para o seu umbigo. Se você sofre de solidão, há crianças nos orfanatos e idosos em casas de repouso que adorariam receber visitas. Há muitas pessoas que estão muito necessitadas que alguém vá até elas. E você permanece em casa pensando em sua solidão? Saia daí e vá visitar os verdadeiramente solitários! E se você for visitar os verdadeiramente solitários, você se livrará de sua solidão. Mas, na verdade, as pessoas dificilmente seguem esta receita.

Na verdade, e relativamente falando, nós somos todos sutilmente diferentes, e é daí que também surgem as diferentes correntes religiosas. E a dificuldade de existir um diálogo inter-religioso é exatamente a incapacidade de “abandonarmos os escaninhos”, as classificações que geram separação, distanciamento. Só ao abandonarmos isso é que a partir daí poderemos dizer que todos nós temos similaridades, todos somos seres mergulhados em ilusões. E qual é o efeito da ilusão? É provocar sofrimento, a partir do momento em que eu acredito piamente numa única forma de interpretar o mundo, e tendo a qualquer custo encaixar todas as coisas e respostas nesta visão de mundo.

Se eu não apenas acreditar, mas escolher e apontar um escaninho como o único que é certo, automaticamente eu também estarei admitindo que todos os outros [caminhos] estão errados. Este é o cerne da divisão, baseado no dualismo da verdade/mentira, certo/errado. É daí que surge o conflito. Se nós fôssemos capazes de abandonar estas classificações, automaticamente o conflito desaparece porque a separação desaparece. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Sesshin

Pergunta: O que é um retiro zen, um sesshin?
Monge Genshô: É uma crise artificial. Cria-se uma situação tal que o mundo lá fora passa a parecer um sonho, nada existe senão aquela dor de ficar imóvel, de não ter estímulos e ter de olhar apenas suas próprias memórias, suas fantasias, até que se esgotem, cansadas e caiam junto ao rodapé da parede que olhamos.
Sesshin quer dizer 'limpeza', limpeza da mente. Uma mente saneada de tudo pode, enfim, ver o mundo sem o filtro de opiniões e ideias. Um sesshin não deve ser fácil. Pelo contrário, tem que ser difícil, como um mergulho na morte, um abandono da vida, para que possamos retornar a ela com os olhos de uma criança sem condicionamentos, inocente e maravilhada.
Buscamos trocar os nossos olhos cheios de traves pelos olhos límpidos de Buda. É a criação da condição que pode nos levar à iluminação. Atentos a tudo, sem música, sem livros, sem palavras, apenas ouvindo o Dharma e meditando, movendo o corpo em trabalho minucioso, uma benção mexer uma panela no fogo! Uma delícia comer devagar. Tudo vai ficando lindo à medida que a mente assenta em sua natureza original.
Após o sesshin, parecemos loucos, encantados com um mero pingo de água em uma folha. Palavras agressivas parecem chuva na primavera, é como se escorressem por nós sem deixar traço, não nos alteramos facilmente. Com o correr dos dias, retornamos às nossas reações normais, mas não totalmente: um pedaço de nossa casca foi retirada.
Com a repetição, nosso rosto se altera. Após um sesshin, ouvi um homem dizer: "Agora sei por que ele (o Mestre) é assim"... Ele havia levantado uma ponta do véu.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Bodhisattvas e a outra margem



Pergunta – Um monge é um bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge.  O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o bodhisattva, é?

Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dilemas morais



Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz há que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério.

Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente salvam-se primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida, homens sempre foram vistos como mais descartáveis pois bastava um para garantir a sobrevivência da tribo, até hoje quando morrem homens são contados como números enquanto a expressão “mulheres e crianças” parece se referir a inocentes, como se eventualmente os homens não o fossem e suas mortes em guerras também não devessem causar horror. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo é isto que está por trás destas tradições. Não há resposta fáceis e um budista tem que saber que tem que decidir e arrostar o carma correspondente sem regras “fechadas”.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sim, há hierarquia de valor entre os seres



Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior,  para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências.

Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assaltante. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Viver no presente



Um grupo de criminosos invadiu o templo de um mestre zen, e revoltados com sua religião que não falava em deuses nem almas nem espíritos ameaçaram decapitá-lo. O mestre lhes respondeu:
-  Está bem, mas por favor esperem até a manhã, tenho um trabalho a terminar.

Passada a noite,  tendo bebido chá e desfrutado dele escreveu o mestre um poema simples em que comparava sua decapitação com uma brisa de primavera e a oferecia aos fanáticos como um presente.
Em poucas palavras, o mestre compreende bem a prática do zen.

Nos custa entender esta história porque estamos muito apegados em manter nossa cabeça em cima dos ombros. Não nos interessa em absoluto que nos cortem a cabeça. Queremos que a vida vá como desejamos. Se ela não vai como queremos nos revoltamos e ficamos confusos. Experimentar estes sentimentos não é mau em si mesmo mas a quem interessa uma vida dominada por eles?

Quando deixamos de prestar atenção ao momento presente e caímos na versão de  "tenho que fazer do meu jeito" se cria uma brecha em nossa consciência da realidade neste exato instante. Por esta brecha entra todo o mal de nossa vida.  Criamos uma brecha assim atrás da outra durante todo o dia.
 O objetivo da prática do zen e fecha-las, reduzir a quantidade de tempo que passamos ausentes, amarrados a nosso sonho egocêntrico.


La vida tal como es-Enseñanzas zen
Charlotte Joko Beck con Steve Smith
Ed. Gaia-2008
(adaptado por Monge Genshô)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Pena de morte



O Prof. Dr.  Ricardo Mário Gonçalves, Rev. Shaku Riman, escreveu há tempos este texto do qual posto uma parte:

"Não tenho a mínima competência para opinar em questões jurídico-penais, mas talvez possa oferecer um modesto contributo discutindo princípios gerais:
1.1.Pena de morte: aos que defendem a aplicação da pena de morte invocando um pretenso poder dissuasório da mesma, quero lembrar a cena de abertura do livro Surveiller et Punir (Vigiar e Punir) de Michel Foucault, um dos mais importantes filósofos do século XX. Numa praça de Paris, em meados do século
XVIII, está sendo executado através de torturas horripilantes um pobre diabo que ousou atentar contra a vida de Luís XV. Enquanto a multidão Assistia o bárbaro espetáculo, os punguistas circulavam alegremente pela praça, aliviando os espectadores do peso de suas carteiras. Ou seja, a pena de morte não inibia ninguém. O que inibe não é a pena de morte, mas sim, como nos ensina o filósofo legista chinês Han Fei-tse (280-233 a.C.), a absoluta certeza de que todo e qualquer delito será punido.
1.2.Rigor e Misericórdia: Como deverá ser uma punição? Quero aqui tomar de empréstimo à Santa Kabbalah ou Tradição Secreta de Israel (como dizia Fernando Pessoa) os conceitos-chave de Rigor e Misericórdia. Uma pena terá de apresentar um justo equilíbrio entre essas duas colunas, ou seja, ser suficientemente rigorosa para o delinquente tomar consciência do mal que fez e se sentir punido por causa do mesmo, e misericordiosa no sentido de ajudar o criminoso a se regenerar e trabalhar por sua reinserção na sociedade. Como
conseguir isso na prática? Que alguém mais competente que eu nessas questões apresente suas opiniões e sugestões.
2.O conceito de karma, para ser utilizado hoje, precisa ser desmitologizado, isto é, aliviado do peso inútil de seu "entulho mitológico". Karma significa, basicamente, o conjunto das ações, palavras e pensamentos humanos mais suas consequências. Em termos modernos, isso seria historicidade. O homem é ao mesmo tempo produto de uma história e agente a colaborar na construção da mesma. A historicidade nos mostra que todos somos, de alguma forma, corresponsáveis (ainda que não necessáriamente culpados) por todo o
mal que ocorre na sociedade. Propor algo como a supressão das penas em nome do karma seria como tentar fugir ao dever de participar na obra coletiva de construção do devir histórico. É exatamente punindo os criminosos que se participa da obra do karma, e não fugindo a esse dever.
3.Foi lembrado, com muita propriedade, durante a discussão, que, quando, por ocasião de um críme bárbaro, clamamos pelo agravamento das penas, está em ação o sentimento de vingança. O ciclo sinistro das vinganças sucessivas (vendetta) foi a mais antiga lei das sociedades humanas e seus resquícios ainda não desapareceram totalmente... O que é a prática americana de se convidar os familiares da vítima para assistir a execução do criminoso senão uma sobrevivência da vendetta? Entre os samurais do Japão pré-moderno a vendetta, sob a denominação de kataki-uchi, era uma prática institucionalizada e regulamentada. Sobrevivências da vendetta também estão presentes na sharia, a lei islâmica.
A Lei Escrita e as instituições jurídicas surgiram para, entre outras coisas, fazer cessar o ciclo sangrento das vinganças sucessivas, ficando a tarefa de punir os crimes a cargo de uma instância superior a agressores e
agredidos. O antropólogo Pierre Clastres mostra-nos como, em casos extremos, o ciclo de vinganças pode se exacerbar a tal ponto que culmina pela destruição do grupo social.
4.No Budismo é pregado um caminho para a superação da vendetta:
Porque neste mundo, ódios jamais cessam pelo ódio,
Mas eles só cessam pelo não-ódio;
Isto é um antigo princípio natural. (Dhammapada I, 5.)

.........
Gasshô,
Shaku Riman"

Prof . Ricardo Mario Gonçalves" (2004)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Liberdade e ofensa

 


É um erro declarar que liberdade não inclui a liberdade de ofender, afinal quem decidirá o que é ofensa ou não? Como dissociar esta declaração de uma defesa da censura prévia? Mesmo que algo seja absolutamente de mau gosto e pornográfico qual será o tribunal a decidir isto?  Como teremos imprensa livre se cada grupo e religião tem seus critérios à respeito do que é ofensivo ou não? Eu posso saber no meu quadro referencial mas e quanto ao quadro referencial dos outros?

Um mulá islâmico tem uma idéia bem diferente de um padre do que é insulto a fé. Se queremos uma imprensa livre não poderemos ter censura de espécie alguma, se houver injúria, difamação ou calúnia elas devem ser tratadas a luz da lei de reparações posteriores. Qualquer um que pretenda restringir isto apelará para seu quadro referencial e tentará impor seus valores aos outros, isto é o fim da liberdade tão duramente conquistada pela civilização.

Para um budista não há nada que precise ser visto como insulto, somos nós que nos ofendemos, os outros emitem sons que nós interpretamos como tal, um cão a ladrar com fúria nada mais é que um emissor de sons. Não há sentido em reagir com um murro a quem ofenda com palavras nossa mãe, não dar importância alguma é uma resposta mais sábia.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Apenas um passo de cada vez



Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?

Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas monjas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. No monastério não se tem privacidade, a agenda nunca cessa, os horários são rígidos, a comida é estranha para nós, o sono é pouco, falar é restrito e  isto continua por meses.
 O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje, até o fim do dia, irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”.  Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lugares e ambientes



Pergunta – É comum escutarmos as vezes comentários do tipo, “nossa, que ambiente carregado!” como o budismo vê isso?

Monge Genshô – Isso pode ser sentido quando entramos numa sala onde pessoas estejam discutindo ou brigando.  Mesmo que todos estejam calados no momento em que você entra, você sabe que algo errado aconteceu.  Do contrario também acontece quando você entra num local onde impera a harmonia e o amor. Mas isso vai depender da sensibilidade das pessoas. De qualquer forma isso pode ser mudado. Tudo é possível de ser alterado e para isso temos a pratica do Zazen, ou se você tem outra crença religiosa e entra numa catedral, por exemplo, você se sente bem.  É preciso que entendamos que a prática muda os lugares e as pessoas, por isso não é uma tolice praticar. A gente sabe muito sobre um lugar apenas por estar nele. Estive uma vez em Dachau, um campo de concentração nazista que fica perto de Munique que continha câmera de gás, locais para tortura e crematórios. Até hoje esse local é conservado em forma de museu. Quando os visitantes chegam é possível ver até restos de ossadas humanas nos fornos. É impossível entrar num local desses e não sentir o peso da violência e das mortes ali ocorridas. Estive visitando esse campo de concentração com um grupo de pessoas e quando saímos dali nos sentamos num café e nenhum de nós conseguia dizer nada, ficamos silenciosos por horas. Por outro lado, existem locais onde coisas muito boas são realizadas, por exemplo, a medida que entramos aqui nessa casa e vamos praticando, sempre falando sobre coisas boas, existe a presença do Dharma e toda essa atmosfera de paz, vamos também sentindo que o local é de paz, o local vai se modificando e ficando impregnado desse clima.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A pedra no bambu


(continuação palestra Monge Komyo, Goiânia, outubro/2014)

Monge Kômyô:  O empenho na prática contemplativa tende a formar e a criar em nossa mente cada vez mais esse acúmulo de energia, de percepção, de consciência, de forma e, cada vez mais durante as nossas vidas em vários momentos, podermos ter a chance de ter descoberto algo a mais. A descoberta que eu tive quando era novo em relação à dor no corpo foi, evidentemente, graças ao fato, apesar de toda a dor nas costas e tudo mais, de que eu conseguia acumular energia e consciência suficientes para, em determinado momento, um acontecimento desencadear uma experiência. E no Zen, esse tipo de situação é muito comum.

É como numa estória Zen, num conto em que um monge conseguiu atingir um estado de plena consciência porque ele estava varrendo a varandinha do eremitério dele e uma pedrinha bateu na vassoura. A pedrinha rolou e bateu no bambu e o barulhinho do bambu, “puc”, “click”. Várias pessoas não entendem, como pôde o barulhinho do bambu fazer uma pessoa atingir um estado de plena consciência. Não é o barulhinho do bambu, é um acumulo de energia de consciência, ao longo de anos e anos de esforço. O barulhinho do bambu foi o gatilho final, como eu mostrei hoje de manhã, grande parte da experiência contemplativa do Zen é sensibilidade para perceber os detalhes. A beleza das experiências às vezes pode ser apenas as cigarras cantando no amanhecer. Às vezes mosquitos voando na minha cara. A mente atenta capta a experiência, qualquer que ela seja. (Fim)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Paixão e amor

(continuação da palestra de Goiânia, out, 2014)

Monge Kômyô: O complexo de tendências da mente de se perder em projeções passionais não é pequeno. Até porque a nossa vida infelizmente é construída a partir desse tipo de interpretação das coisas. Vivemos num mundo em que a excitação é o norte, não é? Tem que haver algo que puxe a gente. Eu às vezes ouço muitas pessoas falando que elas viram alguém muito bonito ou muito bonita e está morrendo de amores por aquela pessoa. Uma coisa muito comum entre nós é confundir paixão com amor. A paixão é um impulso, não é? É um momento em que nossa mente entra em contato com algo que excita, causa desejo, causa expectativa de experiências excitantes. Criamos uma identificação, um apego, projetamos expectativas e formamos a paixão. O amor é uma experiência de integração e de contato, de troca, de grande capacidade de reinvenção todos os dias, de uma convivência. E o amor, o amor mesmo, por pessoas, ele não acaba, pode ser até que você se separe da pessoa por algum motivo, por circunstâncias, mas se há amor ali, sempre vai haver um vínculo. 

Você nunca vai dizer daquela pessoa: ‘ah, eu odeio ela agora, ela é horrível”. Se você diz isso é porque nunca houve amor, “eu amava ela antes, mas agora”... Entenda que o que eu digo é que o contexto da experiência amorosa é algo que por sua própria sutileza, transcende  circunstâncias ou possibilidades de convívio. É muito estranho falar assim, não é? E a gente imagina como é possível você amar alguém e de repente não conseguir por exemplo, mais viver com aquela pessoa,  por circunstâncias, dificuldades. Mas a experiência de amor é algo mais profundo, daí que, a experiência amorosa, dificilmente é uma experiência egoísta. Então, você não ama uma determinada pessoa, você simplesmente ama, você é capaz de amar. Aí você convive com uma pessoa e se entrega a ela e tem relações ótimas de convívio, diálogo, amizade, e você diz: eu amo essa pessoa. Mas o amor em si é uma experiência ampla. E a experiência amorosa reflete o conceito da experiência contemplativa de ser integrativa, de ser inclusiva.

Então a experiência contemplativa determina que, mesmo diante de circunstâncias inesperadas, você não entra em conflito, você consegue lidar, trabalhar com a sua mente, mantê-la equilibrada e tranquila. Então, isso significa também não entrar em conflito com os mosquitinhos, é respeitá-los e não querer matá-los. Sobre o contexto fundamental da experiência contemplativa, eu amo os mosquitos, e tento afastá-los da minha cara, mas eu amo os mosquitos.

Temos aqui, a base da não-violência no budismo, que um tema, aliás, muito difícil. Eu já dei ao longo dos anos algumas palestras sobre não-violência e não teve uma única palestra dessas que não tivesse sido difícil. Muitas pessoas têm dificuldade de entender esse conceito de não-violência. Eu não sei como é aqui em Goiânia, mas eu sou do Rio de Janeiro, uma região com vários exemplos de violência, aspectos tristes. Mas a questão não é de não-violência apenas, é tudo. É conseguir colocar a nossa mente de forma que ela possa se integrar, compreender e descobrir meios adequados para lidar com todas as coisas. Daqui a pouco a palestra termina, nós vamos sair daqui e os mosquitos vão ficar por aqui. Se eles se tornarem excessivos, muito intensos, não tem problema, vamos terminar a palestra aqui, e vamos para outro lugar mais confortável para continuar, nenhum problema. Não há problema! Não é necessário se aborrecer, criar conflitos na pretensão que vai resolver a questão. E isso não é algo que possa ser feito com a gente se obrigando a fazer. É preciso surgir isso na nossa mente, daí vem o tempo e o esforço.
(continua)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Mantendo o Foco




(Continuação da Palestra de Monge Komyô em Goiânia, outubro/2014):

Eu falei hoje mais cedo que o ZEN é muito direto e não finge, não disfarça as coisas. Então as dificuldades, os nossos sofrimentos e obstáculos, eles não devem disfarçados, nós temos que saber enfrentá-los, encará-los com uma mente atenta. É possível fazer isso e manter o foco. Aqui, na nossa capelinha linda, tá cheio de mosquitinho, tô vendo um ninho aqui, mas eu tomei banho. Eu estou limpinho. Muitos mosquitinhos estão entrando no meu ouvido, estão aqui, às vezes, tem que tomar cuidado para não engolir um, ou entrar no meu nariz. Eu fico, aqui, espantando. É assim a vida. A vida é impermanente. As coisas acontecem, a gente não planeja. Só que a mente condicionada, pode começar a ficar muito preocupada com os mosquitinhos e aí ficar irritada, e se desconcentrar, para vocês talvez, seja até um trabalho mais intenso se alguém tiver com esses mosquitinhos em volta. Vocês estão ouvindo. Eu estou trabalhando aqui a minha atenção para falar, isso ajuda um pouco mais, talvez. Mas isso pode acontecer lá no zazen, pode ser um mosquitinho, ou outra coisa. E, qualquer elemento externo pode ser um fator que faça com que a nossa mente condicionada, o nosso eu, pule para fora. Ops. Mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, né. É possível manter o foco, seja com uma dor física, seja com mosquitinho. Mesmo espantando os mosquitinhos. Mesmo os mosquitinhos entrando no ouvido. 

 O foco é um exercício de reestruturação, reeducação de nossa consciência, de nossa percepção. O sentar e meditar ou praticar a plena atenção à respiração, em todas as ações é a forma de trabalhar a nossa mente para chegar a esse ponto. Com o tempo, a mente consegue lidar com as situações com um grau cada vez menor de stress. Como eu falei de manhã, os problemas irão continuar a acontecer, os mosquitinhos vão continuar. Eles não entendem simplesmente que eles estão errados. Eles estão funcionando dentro do instinto deles, são insetos, o que está errado com o mosquitinho? Ele não está fazendo isso de propósito.   

Durante a prática, a melhor forma a trabalhar essas questões, pensamentos desviantes, desconcentrações, a dificuldade de manter o foco, é continuar trabalhando a concentração, a atenção à respiração. A respiração determina grande parte das nossas emoções, nos nossos modos de ação. Se nós estivermos desbalanceados, a tendência da nossa respiração é ser muito rápida. Observem se vocês conseguirem, quando estiverem irritados, como a respiração fica mais intensa. Quando nós estamos excitados a respiração fica mais intensa. A experiência do zazen é fazer com a mente aprenda a se concentrar dentro de contextos que são claros e diretos no agora, as coisas como elas são.  Não há subterfúgios, não há ilusões. Se uma pessoa, por exemplo, gosta muito de futebol, gosta muito, é fanático por futebol, essa pessoa pode ir a um estádio assistir um time que gosta, e ficar lá horas atenta à bola no campo, sem qualquer esforço maior, mesmo que seja de uma forma distorcida, a mente consegue entrar num nível de concentração. Mas é uma concentração falsa porque ela é baseada na excitação. Daí que, experiências de foco a partir da excitação e de aspectos passionais, tende a levar à emoções intensas e, em geral, ao stress. 

 Eu costumo comentar que até mesmo o sujeito que está pulando carnaval lá atrás do trio elétrico, embora ele pareça que esteja lá realmente muito feliz e alegre, ele não está! A mente dele está em grande foco de insatisfação. O que há ali é um aspecto de experiência, extremamente excitante e passional, mas não há tranquilidade na mente. Aquela alegria ali, é aparente. 
(continua)



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O não-eu


(continuação de palestra em Goiânia)
Monge Kômyô:  O não-eu é uma experiência em que as barreiras caem. Quando nós estamos meditando quem atua ainda é o eu. Então à par das dificuldades físicas, temos também nossas dificuldades mentais, é difícil manter a concentração. Uma característica da mente egóica, tem a ver com a necessidade do eu sempre encontrar algo que o excite. Algo que faça com que ele sustente a ideia de que a experiência de convivência de tempo e de espaço está passando em função de algo que chama atenção. Nós ficarmos sentados em silêncio em um ambiente fechado é extremamente maçante para o eu, e aí ele começa a querer fugir e a forma em que o eu foge é o pensamento. A construção da nossa da mente,  é um dialogo interno, nós usamos palavras na cabeça, embora a palavra seja, na verdade, um código de expressão, não seria necessário a palavra na mente. A palavra é uma expressão física, a correta colocação de certos sons que provocam a construção de um conjunto sonoro que nós interpretamos e definimos de uma certa forma por comum acordo, que estamos falando português. Se eu falasse, sei lá, grego, e ninguém aqui falasse grego, vocês só conseguiriam perceber os sons, mas o significado, ficaria todo na nossa mente.
Nós falamos. Isso é um reflexo do condicionamento intenso que a mente egóica, a mente mais superficial tem, em relação ao aspecto concreto da mente. Durante o Zazen, portanto, a tendência da nossa mente é tentar fugir dali, é muito chato aqui, não está acontecendo nada aqui, vou tentar me excitar com outras coisas, vamos imaginar alguma coisa. Na problemática, na questão da experiência contemplativa do zazen, há ensinamentos no Abidharma sobre o “pensamento base” e a ”consequência”, e eles atuam como muita intensidade durante o zazen.  Para entenderem o que é o pensamento “base”,  vamos fingir, que aqui seja cabível. Digamos que você esteja fazendo zazen e de repente , surja na mente o pensamento: “quando eu terminar de fazer o zazen, acho que vou passar na padaria para comprar um pão, porque quando chegar em casa quero fazer um sanduíche”. Esse é o pensamento base. É um tema e a mente condicionada, logo depois que tem um pensamento base, você começa construir pensamentos de consequência, do tipo: “Que padaria que eu vou? Acho melhor ir próximo da minha casa; Ah, mas eu não gosto daquela não; O pão de lá não é bom; Acho que vou tentar naquela outra; Que pão que vou comprar? Acho que vou comprar pão francês, não, vou comprar pão de forma, comprar pão de forma integral, vou aproveitar também e comprar uma geleia. Acho que não tem geleia lá em casa”.
Percebam, vocês acabaram de esquecer completamente de fazer zazen e agora estão indo na padaria comprar pão. É assim que atua o pensamento. Existe um jogo de pensamento base e a mente condicionada já está querendo arrumar um motivo para fugir, ela começa construir uma estória. Pode ser uma recordação do nosso passado. Pode ser alguma coisa que nós estejamos planejando para manhã quando terminar o retiro, ou qualquer outra coisa. Pode ser, até mesmo, uma situação ocorrendo no momento mas que a sua mente pega e usa para elaborar uma cadeia de pensamentos. E aí, nesse momento, o que que acontece? Esquecemos do agora. O eu esquece do agora, ele finge que ele não está mais ali, porque ali é chato! E porque para o eu condicionado é chato estar ali? Porque o sentar em meditação é uma forma de você trabalhar a capacidade de observar a si mesmo, observar os mecanismos do eu e revelar para você mesmo aqueles aspectos do seu próprio eu que não são saudáveis e que estão lhe condicionando a fatos, a experiências, a ações que no fundo causam insatisfação. Ou seja, há todo um trabalho do processo meditativo na experiência meditativa que tende a ameaçar o controle ditatorial do eu.
Subconscientemente, o nosso eu condicionado que tem um padrão de hábito, também ele, reage contra isso, porque no fundo, no fundo, o nosso eu tem medo, porque a compreensão da relatividade da nossa identidade pessoal é experimentada para o eu condicionado, como se fosse uma morte. O eu tem medo de morrer. (continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A função do eu



Monge Kômyô:  O que é o EU? O “eu” é um composto, sob a ótica budista. Esse composto pode ser subdividido em 5 fenômenos, 5 aspectos que juntos vão compor uma identidade pessoal. Pensamentos, percepções emocionais, formações mentais, consciência, todas essas reunidas em uma forma, um corpo. A bem da verdade, o fenômeno é um binômio mente – corpo. Mas a mente nos ensinos de Buda é, digamos assim, subdividida em 4(quatro) principais fenômenos.
A identidade pessoal é um construto, no que diz respeito à nossa vida. O eu é necessário, não é supérfluo. No samsara o composto está numa personalidade, na sua funcionabilidade, o eu tem a sua função também, como tudo na existência. O fato dele ser um artifício, não significa que no plano psicológico, psicoemocional, o eu não tenha uma função.
A problemática do eu é que ele era um guardião que se tornou guarda. Era um protetor que se tornou um ditador.  Às vezes dizem que nós temos que aniquilar o eu nós temos que acabar com o eu e isso não é muito correto! O eu como construto, é o próprio fenômeno da existência traduzido nesse artifício chamado eu, e ele possui camadas. Na experiência contemplativa há um momento em que nós podemos entrar em contato quando conseguimos derrubar as camadas superficiais e condicionadas do nosso eu. Entramos em contato com o que se chama “o verdadeiro eu”, sendo que na linguagem ZEN é chamado de “não-eu”. O termo para nossa mente, mente mais cartesiana, mais racional, parece um termo negativo,  “não-eu”, e aí pode-se imaginar,  claro, naturalmente, que se tem que acabar com o eu. Mas o não-eu é uma definição para um estado de percepção profunda em que os artifícios não saudáveis do eu condicionado, são superados. Daí que o “não-eu” é uma experiência de integração com o todo. ( continua )