Follow by Email

quarta-feira, 29 de abril de 2015

DESPINDO-SE DA VAIDADE


Monge Genshô: Por exemplo, os leigos em muitas sanghas através do mundo usam roupas como essa, o korono, até em outros países. Outro dia um senhor do Chile me mandou uma foto dizendo que tinha uma roupa de Monge. Não é uma roupa com a manga assim, na realidade é um korono para leigos, que tem uma diferença no seu corte, na sua estrutura.
Aí eu perguntaria: pra quê que os leigos querem usar um korono? Pra quê isso? Então falei pra Saikawa Roshi que não iria permitir isso, porque nas sanghas, e é da natureza humana, as pessoas gostam muito de títulos, cargos e roupas. Então se a gente permite, começa a ter gente já querendo “parecer” que é Monge. E pra quê?

Monge tem que ser um cargo desagradável, tem que ser chato, ruim ser Monge. Yoko San está aqui pra testemunhar. Ele se tornou Monge e começaram a aparecer todos os problemas de Monge e um belo dia ele chegou pra mim e disse que não queria mais ser Monge, que queria desistir. É mais confortável ser leigo. Agora, querer ser Monge sem os desconfortos de Monge, isso não é possível.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

OS CICLOS DE SOFRIMENTO

Monge Genshô: O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos felizes. O que aconteceu? As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vou alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se estiver mais do que o vizinho. Então ele compra uma televisão melhor do que a do vizinho, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Em Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 50 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 50 metros. Ao lado tem um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Aí então ele se vê pequeno no mundo da comparação. 

Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra pessoa, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do Samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória.

Dukkha quer dizer insatisfatório, nunca vou me satisfazer. Mas por que não vou me satisfazer? Vamos analisar a palavra. A palavra em sânscrito provém desta raiz – “Duk”. Mas o que significa isso? Duk significa eixo. Então tenho eixo e tenho uma roda. O eixo da roda. Mas, se o meu eixo estiver deslocado e a roda estiver assim, o que vai acontecer? Como ela funciona? Ela desenha ciclos, ciclos assim. Isso é oque acontece com o eixo fora do lugar. Quando Buda disse – a vida é Dukkha, muitos tradutores traduziram como a vida é sofrimento. 

Buda nunca pretendeu dizer que a vida é sofrimento. Vocês já viram essa tradução, a vida é sofrimento? Pois é, Buda não disse isso. Buda disse que a vida é Dukkha, que a vida é cíclica, insatisfatória. Ela sobe e desce sem parar. Então ora tenho amor, ora tenho dor de cotovelo ou tristeza. Ora tenho riqueza, ora pobreza. Ora satisfação, ora insatisfação. Sempre. A vida é constituída de coisas muito boas, tem prazeres, tem momentos maravilhosos de felicidades, de euforia. Ela tem isso, quem poderia negar isso? A vida não é só sofrimento.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A RAIZ DA HARMONIA É O SILÊNCIO

E na prática do Zen, nós escolhemos professores, e quando nós escolhemos o professor no início, você tem que aceitar o professor completamente. Como eu estava falando outro dia, nó aceitamos o professor depois de examiná-lo durante longo tempo, não é apressadamente. Eu o conheci, vi, eu aceitei o professor. E quando eu aceito o professor durante o tempo do treinamento eu tenho que agir como um aluno de música, um aluno de um esporte. O que o instrutor diz eu faço e faço daquela maneira. Não tenho a condição de ficar discutindo cada detalhe.
Ah, eu não gostei assim, ‘eu acho” que devo praticar assim, eu acho que esse dedilhado no instrumento não deve ser esse deve ser outro, o professor não tá explicando direito, não é? O professor adiantou mais aquele aluno, deu outro exercício para aquele aluno e não deu o mesmo para mim. Ah, o professor me criticou. Nós não fazemos isso com os instrutores, você tem que aceitar o instrutor ou trocar de instrutor.

Quando você for um virtuose na música, quando você tiver se graduado completamente, ou, no Zen, quando você for um Sensei. Quando o mestre lhe dá a transmissão e diz: “Confio em você, você tem a mesma mente que eu”, quando acontece isto, então o discípulo pode chegar no mestre e dizer: “Ah, eu acho que as coisas poderiam ser feitas dessa outra forma”.

Mas isso demora anos, muitos anos...e se eu vou pensar na minha experiência pessoal, eu continuo sentando na frente do meu Mestre e o que ele diz eu aceito tal como ele diz. E se eu não concordo, eu espero meses digerindo, quem sabe ele tem razão e eu estou errado. Meses, meses, meses para voltar aquele assunto. Às vezes volto no assunto duas ou três vezes e recebo a mesma resposta, e ai tudo que eu faço é me calar. Porque a essência da harmonia nós praticamos nos sesshins.

O que fazemos no sesshin?

Primeira regra do sesshin : Silêncio.

Primeira regra para os monges que estão praticando e para os que não são professores: Silêncio.
Nós dizemos nos mosteiros para os monges noviços: “cale a boca e limpe o chão”. Porque não é hora dele dizer, ter opinião, não é hora. É hora dele tentar entender e tentar entender “a prática”.

Então nós sentamos nos nossos zafus quietamente, e não julgamos. Sentamos junto com todos os seres e ficamos ali.

Se nós formos capazes de limpar a nossa mente de todas as considerações e julgamentos sobre passado, futuro, se formos capazes de esquecer essa distinção entre “eu e o outro”, então nós criaremos um caminho que permite passo a passo nos aproximarmos de uma compreensão mais correta. Se nós fazemos assim, em silêncio, a Sangha consegue permanecer em harmonia, e a Sangha em harmonia é o ambiente da prática realmente.

A verdade é que não dá tempo para você ficar discutindo cada pequeno detalhe que o aluno não entende. Esta é então no fundo a lição de hoje da harmonia. A raiz da harmonia é o silêncio.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SAINDO DO CASULO

Então poderíamos analisar um pouquinho mais essa questão da compreensão. Eu estava explicando há pouco, voltemos à analogia do mar, nós somos ondas tocadas pelos ventos do carma, quem é que formou as ondas? O carma. O carma é o vento que forma as ondas do mar. A onda é puro movimento, energia passando na água. Ela não é algo em si. Ela perpassa pelo mar sem mover a água para adiante. Se isso acontece, então nós, que somos manifestações cármicas, não somos mais do que energia passando na superfície do universo. Nós somos um movimento. O carma fez surgir essa manifestação como uma onda extemporânea, evanescente e fulgaz. Nós, como seres humanos, não temos a tranquilidade dos pássaros e dos peixes, para eles está tudo bem. Uma borboleta que a gente vê passando aqui pela floresta tem um ou dois dias de vida, é muito fulgaz aquele momento, mas ela não pensa nisso, ela apenas continua, a sua espécie se reproduz e nascem lagartas que vão gerar outras borboletas. Está tudo continuando, mas o homem se angustia pois, ele é uma onda que se apega ao seu “eu”.
Ele entende quem é, vê seu corpo funcionando, vê os outros e, quando ele tem essa percepção, este “eu” dentro dele não quer ir embora de jeito nenhum. Ele tem medo de qualquer alteração que surja por isso o homem tem medo de morrer e porque tem medo de morrer o homem criou as religiões. E as religiões sempre são soluções fantasiosas de continuidade. Continua em algum lugar ou de alguma forma, melhor do que aqui. Tem sempre uma promessa assim. E essas fantasias são extremamente atrativas pois, nós queremos acreditar nelas mesmo que no fundo nós duvidemos.
Nós queremos acreditar para que elas nos salvem da evanescência da nossa identidade, do nosso “eu”. Buda disse que era ilusão, que nós criamos ilusões, que nada disso era verdadeiro, não havia um “eu” real dentro das pessoas mas sim, só ilusões construídas e que portanto todas as coisas são vazias de um “eu”. Nós somos algo muito além disso, só que nós não percebemos e por isso ficamos presos a essa forma de manifestação cármica. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

SHIKANTAZA - O sentar-se por sentar


Então, temos o primeiro passo quando nós estamos no sesshin, o que nós fazemos? Dhyana. Dhyana é uma palavra que se transformou em Jana, depois em Ch´an, depois em Ch´an na, na China, como Zana, Zen. Então, na realidade, a palavra Dhyana veio através do tempo se transformando até chegar na palavra Zen, que chegou aqui no ocidente como uma herança japonesa, então usamos a palavra japonesa Zen. E Za quer dizer sentado. O que nós fazemos é Zazen: meditação sentada.

Livrar-se dos pensamentos perturbadores é a primeira grande tarefa. Você senta e deixa que os pensamentos perturbadores se esvaneçam. Mas eles não se esvanecerão se você lutar com eles. Por isso, cada vez que eu dou instrução, eu digo: não julgue, não lute, não se culpe, não faça nada com os seus pensamentos. Não tente transformá-los, não faça projetos para o futuro. Não tente fazer nada no Zazen. Não tente construir um projeto de vida, não tente resolver problemas no Zazen. Não é assim que nós resolveremos os problemas. Se nós sentarmos e raciocinarmos, pensarmos e planejarmos, melhor seria que pegássemos uma folha de papel e fizéssemos isso direitinho, numa mesa. Não precisaríamos fazer sentados em Zazen.

Nós sentamos em Zazen para fazer uma coisa mais difícil do que planejar, raciocinar. Nós sentamos em Zazen para esquecer de tudo, abandonar tudo e, abandonando tudo, retornarmos para nossa natureza original. A nossa natureza original está além desses pensamentos, elaborações, identidades, nosso próprio Eu.


Sentado em Zazen, se você simplesmente deixar que tudo seja parte de você e você seja parte de tudo, você dissolverá o engano do Eu. Não precisa se preocupar pensando: vou destruir meu Eu, quando eu morrer meu Eu desaparece ou qualquer coisa assim e transformar isso numa angústia de aniquilação qualquer, porque não é necessária essa angústia de aniquilação. Você simplesmente senta e seja um com o som do mar, um com os pássaros e com as borboletas. Você se sentindo participante de tudo, você já encontrará uma grande calma e felicidade. Isso é realização de shikantaza. Apenas sente-se e seja uno com tudo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CORTANDO OS FIOS DA IGNORÂNCIA



O segundo voto é: “As paixões são inexauríveis, eu faço voto de extingui-las todas”. 

As paixões, os ventos que me arrastam de um lado para o outro são inexauríveis, eu reconheço, são inextinguíveis, estão sempre renascendo, mas faço voto de extinguí-las todas. Esse é um dos símbolos de raspar a cabeça dos monges. Os fios da ignorância ou das paixões estão sempre renascendo, então a gente pega a gilete e raspa e eles continuam lá, renascendo, sempre renascendo. Então você rememora isso quando raspa a cabeça, as paixões estão ai renascendo dia a dia. Minha vontade de ser bonito tá sempre renascendo ai eu vou lá e raspo. Isso é o que a gente chama prática, prática simbólica dos Monges. É mais difícil para as Monjas, eu tenho certeza. Não é Jikihô san?
Monja Jikihô: Eu acho que essa é a menor das vaidades.
Monge Genshô: Acho que é mesmo. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

SOBRE TRANSMISSÕES


“Daioshô” quer dizer “grande mestre”. “Dai” é grande e “Osho” quer dizer mestre ou sacerdote. A palavra sacerdote não cabe bem no budismo, pois sacerdote seria alguém que faz uma intermediação entre o sagrado e o homem, que tem habilidade de fazer isso. Para o budismo não existe nenhum intermediário entre o homem e o todo, o universo, ou qualquer outra coisa que nós quiséssemos nomear. Não existe uma necessidade de um intermediário e o monge não é um intermediário. O monge é apenas alguém que fez votos ou recebeu autorização para ensinar, mas não é um intermediário. Qualquer um, sentado no seu zafu, pode se iluminar. Pode se conectar com o todo e esquecer-se de si mesmo.

Então, na linhagem que lemos, o primeiro nome que vem depois de Shakyamuni é “Makakasho Daioshô”. Em sânscrito é Mahakasyapa. Mahakasyapa era um dos dez principais discípulos de Buda e ele era considerado o primeiro em práticas ascéticas, respeitado por sua determinação em fazer a prática da maneira mais determinada possível.

Mas a história que eu queria contar é que Mahakasyapa estava na assembleia e Buda ia ensinar, ia fazer uma palestra e em vez de iniciar uma palestra ele pegou uma flor e a levantou. E fez só isso, só mostrou a flor. E Mahakasyapa sorriu, entendendo o que Buda queria comunicar, e Buda disse: “Mahakasyapa foi o único que entendeu”. Então Mahakasyapa vem a ser, depois da morte de Buda, o seu sucessor. Nós somos herdeiros desta transmissão.

Já Ananda, era o discípulo secretário de Buda, era o Jisha, estava sempre do lado de Buda, tinha uma memória fantástica e decorava tudo o que o Buda dizia, sabia os ensinamentos de cor. Ninguém sabia as coisas do mesmo jeito que Ananda, além disso, ele era primo de Buda. Ninguém podia falar com Buda sem antes passar por Ananda. Durante 40 anos ele fez esse trabalho. Mas Ananda era muito bonito e as mulheres adoravam Ananda. Posso imaginar Ananda indo mendigar e sempre as mulheres sorrindo e num desses Sutras, Buda vai fazer uma palestra, é um Sutra mahayana, não é um Sutra do Cânon Pali, Buda vai fazer uma palestra e diz: “Onde está Ananda”? “Ananda se envolveu com umas mulheres ai...”, e então ele manda chamar Ananda que vem com as mulheres e se senta com elas. Buda faz a palestra assim mesmo. Mas ocorre que Ananda com toda sua beleza, fascínio, inteligência, carisma e etc, ele não consegue se iluminar. 

Então quando Buda morre, Mahakasyapa é o seu sucessor. E aí no primeiro concílio de Monges os outros Monges dizem, “tudo bem, Mahakasyapa vai liderar mas Ananda não pode nem se sentar na reunião pois ele não despertou ainda”. Com isso eles dão uma semana de prazo para ele se despertar e ele consegue. Ele realmente se senta pra valer e consegue atingir o despertar. Depois que Mahakasyapa morre então Ananda é eleito.

Por isso que nós recitamos: “Shakyamuni Butsu Daioshô”, “Makakasho Daioshô”, “Ananda Daioshô”. E Ananda, desperto, torna-se também um grande mestre.

Inclusive a história da transmissão dele pra Shonawashu, que é quem vem depois, é muito bonita porque Shonawashu pergunta pra ele: Qual é a natureza das coisas? E Ananda mostra pra ele o manto. E olhando para o manto, Shonawashu percebe, “ah, as coisas são todos costuradas, interconectadas, amarradas umas nas outras”. Mas Mestre, pergunta para Ananda, “qual é a natureza última de todas as coisas?”, e Ananda então arranca o manto de Shonawashu e embaixo do manto não tem nada, porque naquela época se usava o manto diretamente sobre o corpo, como até hoje nos países quentes do sul da Ásia. Então quando Ananda arranca o manto, Shonawashu está nu. Naquele choque, de repente, com aquele ato inusitado de Ananda, Shonawashu compreende que a natureza última de todas as coisas é vazia e, neste momento, Shonawashu desperta. E essa é a história de transmissão de Ananda para Shonawashu.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A ILUMINAÇÃO ESTÁ DISPONÍVEL


Pergunta: Tudo isso me fez recordar do Roshi comentando de uma pessoa que teve uma realização na Espanha e não é Monja, não é nada, é uma praticante leiga, e que ele conseguiu reconhecer nela a experiência que ela teve. Então, essa experiência é realmente qualquer leigo pode ter, não é? Depende da sua prática?

Monge Genshô: É, não necessariamente precisa ser nem budista. Eventualmente você vai encontrar uma pessoa que não é budista e de repente você verá nela uma grande realização espiritual. E isso é maravilhoso, porque o budismo é um método, não é um “proprietário da verdade”. Nós temos um método, eu estou explicando um método que é efetivo, elaborado durante milênios, com enorme quantidade de sabedoria acumulada por centenas de Mestres maravilhosos. É isso que aconteceu, é isso que o Budismo é.

Agora, o Budismo não é - o Budismo em letras maiúsculas -, a Verdade, a única Verdade que exclui todas as outras. Isto é uma imagem errônea também. É uma imagem que existe até entre budistas fundamentalistas. Como eu disse, existem budistas fundamentalistas que acham que se não seguir as regras do Vinaya então não é Monge, que não é verdadeiro budismo, etc. Essa discussão torna-se absolutamente tola. Como eu disse, mais de mil anos de história de desenvolvimento do Zen no Oriente e seu desenvolvimento agora no Ocidente também. Temos vários exemplos altos níveis de realização. Ok? 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

TIRANDO O FOCO DA IMAGINAÇÃO



Pergunta: Pode meditar com os olhos fechados em alguns momentos da prática? 
Monge Genshô – Não é bom. Com os olhos fechados você tende a viajar mais, e é mais fácil adormecer. Então, é melhor meditar com os olhos abertos, mas não foque nas coisas. Uma vez, um amigo que sentou num sesshin, disse assim: “Eu vi nesta parede tantos desenhos”. Ele olhava pra parede e dizia, “ah, olha ali um cavalo!” Então, não é para usar a parede como uma tela. Em geral, no Zen, nós usamos a parede branca, e se você olhar sem focar, está resolvido.
Então é manter os olhos cerrados para baixo, o suficientemente abertos para você ver que está aqui neste lugar. É este lugar onde eu estou, não é outro. Se eu fechar os olhos posso ir pra China, pois na minha imaginação tudo pode acontecer. Então os olhos abertos nos ajudam a manter-nos ancorados na realidade, esta realidade de agora. Isso porque nós não queremos nada de fantástico, nós queremos é a realidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Professores e Mestres, Alunos e Discípulos

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, "Tendô Nyojo", e então ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com Tendô Nyojo por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. Então, o problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia esse problema e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres antigos". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Então nós temos que olhar com cuidado. Tem um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". 

É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido. Não vai mais ser discutido. Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Porque ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não tem uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganando, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu fiquei na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu Mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que escolher, silente, não resistente e obediente. Não dá para gente ficar lutando com aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Ó, tem um bocado de músicos, né. Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Friedrich, Seu Frederico, disse que em um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que o professor que está ensinando.


Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu em Florianópolis de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não tem condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a vinte anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram vinte anos treinando? Eles não discutem mais. "Porque tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. O Mestre disse que é assim, limpa o prato com o pão e come o pão. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

SUBINDO A MONTANHA

Pergunta: Como faço para aprofundar mais a prática, o caminho?

Monge Genshô: Tem uma imagem bastante interessante que é assim: você tem uma montanha para subir, aí você quer um caminho espiritual. Escolha um caminho espiritual e comece a trilhá-lo seriamente. Agora, se começou a subir a montanha e olha para o outro lado e vê outra trilha mais bonita. Sai da trilha e vai para a outra. Quando está na outra, vê mais outra e muda para lá. Assim não sobe a montanha. Porque você não faz outra coisa se não experimentar trilhas. Não é assim. Você não atinge uma graduação na faculdade mudando de curso. Faz dois meses de um curso, depois muda para outro, outro, outro. Muda quatro ou cinco cursos e não termina nenhum. Não é diferente do praticante espiritual que vive como uma borboleta, trocando de lugar, tentando treinar de forma diferente. 

Caminho espiritual a sério é: escolha seu professor. Mesmo. Normalmente a escola vem junto. Você não escolhe a escola e depois o professor. Normalmente você encontra seu professor aí então treina naquela escola. Treina até ultrapassar o professor. Um bom professor quer que você seja melhor do que ele, e não menos do que ele. Não fica tentando controlar você, mandando, tentando reter os alunos, não tem ciúmes dos alunos, não pretende enriquecer com alunos, nada disso. Procure um professor que você olhe para ele e diga "ah, isto eu admiro". E não espere ver uma pessoa perfeita. Se Jesus Cristo parecesse perfeito, os soldados romanos não conseguiriam cuspir ou bater nele com chicotes. Se Buda parecesse perfeito, não teria alunos que se revoltaram contra eles, quiseram sair, fazer outro grupo, fazer fofoca. Até um tentou matá-lo uma vez. Não seria assim.

Os mestres também estão trilhando o caminho e eles podem ajudar a você. "Eu andei essa trilha até tal lugar, cuidado, nesse lugar você precisa usar tênis. Naquele outro ali, precisa de um bastão. Leve corda para tal trecho." Esse é o guia que pode ajudar você. Mas quem não trilhou um caminho não pode ajudar ninguém. E se você olhar com atenção, vai ver que existem muitos surgimentos de professores que a única coisa que têm é a imagem, que tentam construir imagem. Hoje ficou fácil. Pode pegar o nome de qualquer um e colocar o nome na internet. Pronto. Assim você vai saber. Se pegar um professor como o Dalai Lama (Escola Tibetana), você vai ver que escreveu ensinamentos e 99% do que se fala dele é bom. Agora, se você pegar alguém e metade das pessoas fala bem e outra metade fala mal, vá embora. Procure um professor mais sólido.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

BODHIDHARMA


Monge Genshô: Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o Imperador pergunta - eu construí muitos templos e mosteiros para o Zen na China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso? Bodhidharma responde - mérito nenhum, Majestade. Imperador pergunta então qual é a grande verdade da sagrada doutrina? E Bodhidharma responde - vazio ilimitado. Vazio quer dizer shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de um eu. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só construções de memórias. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada doutrina é vazio e que não há nada que possa ser chamado de sagrado. É o que Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É uma resposta profunda. O rei não sabendo o que fazer pergunta para ele - então me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que? “Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.

Imperador depois escreve um poema no qual diz  - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha frente? Não faço a menor ideia. Significa que ele, Bodhidharma, está livre desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.


Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o. Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma, como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em Shaolin mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os turistas pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e a neve cobriu as pernas de Hui-K'o que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é você”. Me mostra! - Não consigo. - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três dias em jejum, Hui-K'o acordou de suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é o primeiro. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O ZAZEN É O PURO CÉU AZUL

Em primeiro lugar, vamos dividir nosso trabalho em três etapas: a primeira etapa é Dhyana. Dhyana é a antiga palavra em sânscrito para concentração, meditação. Essa meditação normalmente é dividida em dois grandes grupos, dois grandes tipos – uma chama-se Shamatha e a outra chama-se Vipassana.

O que é Shamatha? Shamatha é a meditação para acalmar-se. É como se nós imaginássemos areia dentro de um copo que estamos constantemente mexendo com as agitações da nossa vida. Se nós conseguirmos colocar o copo parado em cima da mesa e não tocarmos nele, naturalmente a areia cai no fundo do copo, decanta, e a água fica límpida. Então, Shamatha é a prática de acalmar-se. E, nesse sentido, o Dhyana que nós estamos fazendo é predominantemente Shamatha.

Existe também Vipassana. Vipassana são as técnicas de observação e de enxergar a realidade. Nós podemos praticar Vipassana observando nosso corpo, contando respirações, ouvindo os batimentos do nosso coração. Nós podemos fazer isso. Mas nem Vipassana nem Shamatha são em si o Zazen.


Nós podemos dizer que a prática da meditação é como um pássaro com duas asas: uma asa é Shamatha; a outra asa é Vipassana. Uma é o exame, a outra o serenizar-se. Zazen é “o puro céu azul”. Isto é Zazen. Essa imagem é muito correta, é muito boa. Nós temos que tentar entender isso. As técnicas são Shamatha ou Vipassana, são as asas de um pássaro, mas Zazen é o puro céu azul.