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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

SHIKANTAZA



Aluno – De onde viria a motivação para sentar?

Monge Genshô – No início você vem sentar por causa do sofrimento, porque tem alguma angústia existencial, ou porque demanda alguma coisa, uma procura. Mas esse é o primeiro movimento das pessoas, elas vêm com uma mentalidade aquisitiva. Mas com o tempo a prática de Shikantaza é apenas sentar, sem tentar adquirir nada, porque “adquirir” é um tipo de materialismo espiritual. Assim como nós queremos adquirir coisas na vida, acabamos querendo adquirir coisas espirituais. Então as pessoas vêm até nós e dizem, “ah, eu queria ter mais serenidade, eu queria ter paz, eu queria ter felicidade’. Querem adquirir uma coisa, e isso sempre tem esse sentido de comprar: eu faço e vou receber algo em troca.

Este é um impeditivo para o despertar, porque você trouxe a mentalidade aquisitiva para a prática espiritual, e a verdadeira prática espiritual é uma desistência. Então é muito bom quando o aluno diz “eu não sei mais por que eu estou sentando, eu só venho e sento, sei lá, tô viciado, se eu não me sento eu não me sinto bem, se eu não pratico não me sinto bem”. Isso é um bom momento na prática. Isso é muito sutil, porque pensamos que vamos praticar para obter algo, ou um mérito qualquer. O imperador Wu perguntou a Bodhidharma: “eu construí mosteiros e templos para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. E Bodhidharma respondeu: “mérito nenhum, majestade”. A "majestade" está acostumada a comprar, todo o tempo, ele queria adquirir. Ele constituiu templos, mosteiros, e tudo o mais, “louvou” Buda, alimentou monges, etc, para acumular méritos, acumular tesouros. No Zen isso é materialismo espiritual.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

MAHA PRAJNA PARAMITA



Aluno – O que são as palavras finais no Sutra que entoamos agora?

Monge Genshô  – “Maha Prajna Paramita”. “Maha” é grande. “Prajna” é sabedoria. “Paramita”, é da outra margem. É o ‘grande sutra da sabedoria da outra margem”.

Você imagina o rio da ignorância e tem uma margem aqui. Você atravessa esse rio, e a outra margem é a margem do despertar, da iluminação. Então, chegando lá, é a sabedoria da outra margem, é isso o que significa.

Nós visualizamos o budismo como um veículo para atravessar o rio da ignorância. Então você pega o barco do budismo e atravessa. Ao chegar lá, não precisa sair carregando o barco nas costas, ou seja, o budismo também é descartável, o budismo é a religião que aponta para a libertação do próprio budismo.

Mas existe uma outra imagem que é a do Bodhisattva que atravessou para a margem da sabedoria, aí ele chega lá e olha para margem da cá, a da ignorância, e vê tantos seres sofrendo, que ele opta por voltar para buscar esses seres. Então ele é um barqueiro que vai e volta,  ele não deixa o barco, por isso ele continua usando o budismo. Mas o budismo é um veículo, um método, não é a verdade, a religião suprema, não é nada disso.

A ideia budista é que nós temos métodos e esses métodos são os barcos que nos farão atravessar aquele rio. E existem barcos diferentes para pessoas diferentes, tanto que no próprio budismo há escolas diferentes, tem Escola Zen, Escolas Tibetanas, Escola Theravada, Escolas Terra Pura, e estas são apropriadas para diferentes tipos de pessoas, diferentes tipos de mentes. E por isso  elas existem, porque pessoas que são diferentes precisam de barcos e até mesmo religiões diferentes. Então nossa postura tem que ser de infinita tolerância e aceitação da diferença do outro, não pode haver intolerância alguma.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

OBSERVANDO PENSAMENTOS E AÇÕES



Aluno – Se pensarmos corretamente, sentirmos e agirmos corretamente, aí então estaremos no caminho de Buda?

Monge Genshô – O mais difícil é ser senhor do seu  pensar. Acontece uma coisa errada e você tem que observar o pensamento que surge, o sentimento que surge, e examinar esse pensamento e sentimento. O praticante budista tem que examinar o seu sentimento. “Ah, está surgindo a raiva agora”. “Ah, eu me senti assim, é orgulho”. “Ah, eu senti isso agora, está nascendo, estou perdendo a paciência agora”. Você observa os seus impulsos surgindo e você os examina, presta atenção neles. Se você prestar bastante atenção, com o tempo você consegue pegá-los antes que eles se manifestem. Quando ele pensa em surgir, você o pega.

Tem uma palavra em japonês pra isso: nen. Então nós podemos pensar em português assim: nen apareceu mas eu já o estou pegando. Vem aquele impulso que não se formou como pensamento ainda, mas eu o vejo, e  não deixo que ele tome conta de mim. Se você praticar  assim, esse treinamento da mente vai fazer com que você seja senhor de sua mente. Se você for senhor de sua mente, os sentimentos não são mais seus donos. Você não é mais como uma folha levada pelos ventos das paixões.

Tem um voto do Bodhisattva que diz: “Delusões são inexauríveis, eu faço voto de extingui-las todas”. Outra maneira é dizer: “ As paixões são inexauríveis, eu não consigo extingui-las, mas eu faço votos de extingui-las todas”. Todas essas coisas que me arrastam sem que eu queira, eu faço voto de extingui-las, para ser senhor de minha mente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Mente em Movimento


Dois homens estavam discutindo sobre uma flâmula que tremulava ao vento:

- É o vento que realmente está se movendo! Declarou o primeiro.

- Não, obviamente é a flâmula que se move! Contestou o segundo.

Um mestre Zen, que por acaso passava perto, ouviu a discussão e os interrompeu dizendo:

- Nem a flâmula nem o vento estão se movendo, disse, "É a MENTE que se move.


Conto Zen


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SAMSARA

 
O monge perguntou ao Mestre:

- Como posso sair do Samsara (a Roda de renascimentos e mortes)?

O Mestre respondeu:

- Quem te colocou nele?

Conto Zen

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Fique no Presente



Aluno – Os rituais, o transe, é zazen também?

Monge Genshô – Não. Na realidade, é uma maneira de você ser aquilo que está fazendo. É outra maneira de estar no presente. Eu sou a própria recitação, a recitação do conjunto das outras pessoas que estão recitando junto comigo. Eu sou aquele conjunto. Então, sendo o conjunto, você abdicou de si. A música tem muito disso: quando você toca numa orquestra, quando você canta num coral, existe essa sensação de conjunto, de estar fazendo tudo junto.

Aqui nós teremos uma coisa parecida hoje, quando formos fazer samu. Depois do almoço trabalhamos todos juntos, todo mundo faz um pouquinho, e nós vamos fazer uma porção de coisas para a comunidade, para o local onde nós estamos. Nós estamos trabalhando juntos, em conjunto. Esse “estar juntos” fazendo uma coisa que não sou só eu, diminui essa percepção de individualidade e nos dá a noção de conjunto. É outra forma de praticar.

A palavra “transe” aqui está sendo usada no sentido técnico, não é algo místico, é só um fenômeno cerebral. É um fenômeno cerebral que você usa para estar no momento presente, para abdicar dessas cogitações sobre passado e futuro, ficando só no presente. É uma técnica de treinamento, não é mais do que isso. Não é que o texto seja sagrado e produza efeitos miraculosos. Não, não é isso. Os efeitos são conseguidos através da própria técnica. A técnica é testada há mais de dois milênios, então está bem funcional, foram sendo introduzidas coisas com o tempo, marcações de ritmo que ajudam. Isso foram aperfeiçoamentos. Essas técnicas se consolidaram como válidas, não foram abandonadas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O medo da morte



Aluno: Sobre o sofrimento com a morte, nós poderíamos dizer que esse sofrimento nos faz ficar apegados a uma vida e não vivê-la como deveríamos?

Monge Genshô: Enquanto você não experimenta a liberdade você tem medo. Libertar-se do medo de morrer é o requisito para viver plenamente. É o medo de morrer que cria as religiões. As pessoas querem uma solução para esse eu que quer viver para sempre. Paraíso, alma eterna, ressurreição, tudo isso foi criado para solucionar isso. 

Um dia duas senhoras foram até a minha casa e começaram a me explicar que estava prometido que 144 mil pessoas iriam ressuscitar e seriam salvas, enquanto os outros todos iriam ser aniquilados. Elas estavam me dizendo que eu poderia estar entre esses 144 mil. Eu disse para elas “mas isso não é felicidade, se eu ficar com os salvos sabendo que todos os outros foram destruídos eu não vou ser feliz. Prefiro uma outra ideia. Enquanto houver alguém sofrendo eu vou voltar para estender a mão e tirá-lo do sofrimento. Enquanto houver um para ser salvo eu não quero ser salvo”. 

No fim do zazen a gente faz esse voto do Bodhisattva. São quatro votos impossíveis, paradoxais, mas por isso são bonitos. Que graça teria ser do grupo dos salvos e ver os outros serem destruídos?