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quarta-feira, 30 de março de 2016

O problema não é o desejo, mas o apego

Aluno: Como lidar com as paixões e impulsos cotidianos?

Monge Genshô
- As paixões? As paixões se extinguem  se você sentar em zazen e olhar sua paixão, vai ver também que ela é vazia, toda paixão é vazia, ela é apenas um fenômeno temporário. Alguém me perguntou sobre comer, é errado ter desejo de comer? Não, não, ótimo fazer minha refeição, estar com desejo de comer, não tem problema nenhum, o problema não é isso, o problema é o apego. Se não tiver comida vou ficar desesperado. Ah, eu posso fazer jejum, é bom comer, mas eu posso também fazer jejum, então não estou preso, o problema é a sua prisão. 

É como o amor com outra pessoa, amar é algo maravilhoso, mas quando você quer possuir, ser dono, é ciumento, todas essa coisas vão ser fonte de sofrimento, porque não é o amor o problema, o problema é o apego. Nós temos pássaros aqui voando, podemos olhar e achamos maravilhoso, é ótimo isso, você ter esse amor pelos pássaros, vê-los bonitos, mas tem gente que não pode ver o pássaro, ele quer possuir, então ele vai lá e faz uma armadilha, prende o pássaro numa gaiola, fecha a gaiola e diz é meu. Não é loucura, isso? É completa loucura, mas os homens têm muito desses problemas, tem muitas pessoas que querem colocar outras pessoas na gaiola para possuir. Você tem que ter minha posição política, se você pensar outra coisa, você é meu inimigo, eu só estou satisfeito se os outros estiverem dentro de gaiolas, pensem como eu penso, façam como eu faço, etc. (continua)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Que todos os seres estejam vazios de ego

 
Monge Genshô: Nós transitamos neste mundo usando máscaras, todos os “eus” são fantasias. É isso que temos que entender, que nós pensamos que a fantasia é verdadeira. Eu chego lá no quarto tiro o Koromo, ponho no cabide. Vocês já pensaram se eu sentasse na cama assim, e olhasse para o cabide e dissesse "ali está o monge"; não é verdade, não está nem lá, nem aqui, é uma interação dessas coisas, é um papel. Portanto o “eu” é uma fantasia para transitar no mundo, útil, mas não é uma realidade, é vazia de significado. Nenhuma coisa no mundo, nada, tem um eu inerente, próprio. 

Tudo é interdepentende. Nada, todos os “eus”, são construções mentais, por isso que a gente diz “vazio de um eu, que todos os seres estejam vazios de ego”. Nós também dizemos que o doador deve fazer a oferta e esqueça, e que quem recebe, receba e esqueça. Que a oferta mesmo, que a comida mesmo, seja esquecida da sua identidade própria; todas as coisas são uma, nenhuma coisa é separada, nós apenas nos iludimos pensando que somos separados, mas somos um, é por isso que a gente faz treinamento no sesshin, assim todo mundo faz tudo junto, todo mundo senta junto, ninguém pode faltar a nada, ninguém pode dizer “eu gosto dessa comida, dessa eu não gosto”, ninguém pode dizer nada sobre isso, porque tem que esquecer de si mesmo para poder sentir um pouquinho o gosto do um.  (continua)

sexta-feira, 25 de março de 2016

Estamos num baile à fantasia




Aluno: Parece que há um esforço para aniquilar o “eu”, é isso?
Monge Genshô - Nós não pretendemos aniquilar nosso eu, não é isso; nós precisamos do eu para andar neste mundo. A comparação que eu costumo fazer é com a máscara. Eu estou usando a máscara de monge, a máscara de monge quer dizer raspar a cabeça, usar roupas de monge, ter vida de monge, aí você coloca máscara de monge. Este eu é necessário, eu preciso dele para viver, estar aqui, agir, e cada um de vocês precisa de um eu para trabalhar, para relacionar-se, para amar e tudo mais. O que nós precisamos entender é que se trata de um baile à fantasia, aí você coloca uma máscara e vai lá para aquele baile. Semana que vem eu vou para Maringá, eu tenho um trabalho de consultoria numa empresa lá. Eu chego lá e coloco a máscara de consultor, eu não sou mais monge Genshô, nem Sensei, eu sou Senhor Chalegre. Aqui a gente ensina para não ter opiniões, lá eu vendo opiniões, é outra máscara, mas eu tenho que saber que é outra fantasia, não é real, é uma fantasia que eu visto.(continua)

quarta-feira, 23 de março de 2016

Esgotamento da força pessoal e insights



Monge Genshô: O esgotamento da sua força pessoal propicia exatamente os insights; então você está sofrendo no zazen, não é à toa. Você não vai conseguir nada sentando na poltrona do sofá, não vai dar certo. Nesta prática que estamos fazendo existe um sacrifício, e esse sacrifício tem propósito, ele pode enfraquecer você e fazer você descobrir coisas especiais dentro de si. É uma prática séria, nós estamos imitando de uma forma mais leve a vida em um monastério, a gente fica aqui de dois a três dias, nos monastérios o período é de 90 dias e 1 vez por mês você tem o sesshin, 1 ou 2 vezes por mês, o resto do tempo você faz menos zazen, só 4 h por dia e aqui acaba sendo pouco se você considerar normal; no monastério não é assim, dá em torno de 14 ou 16 zazen por dia no sesshin, e tudo que a gente deseja no fim é ter pernas novas.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Além de qualquer ilusão

(Continuação palestra de Goiânia)

Muitos anos atrás eu estava sentado na prática de zazen que a gente faz 24h seguidas, não vai dormir e fica sentado. Começa de manhã e avança até 6h da manhã seguinte, então de noite você está acabado. Alterna entre ficar sentado e o kinhin; senta 15, levanta, caminha, 15 minutos, senta novamente, e não aguenta mais. Então, quando você senta basta fechar os olhos e os sonhos vêm, e na hora você pode usar a mente para fazer perguntas. Então perguntei a mim mesmo “quem sou eu?”, e imediatamente apareceu uma árvore e um casaco sem ninguém dentro, não tinha cabeça, nem nada, o casaco caía lentamente entre os galhos de uma árvore e abri os olhos porque você pode fechar os olhos, abrir os olhos e está aqui, se você tiver esse cansaço. E anos depois eu contei esse sonho, e uma pessoa me escreveu, e me mandou uma página de um livro de Jung, “O homem e seus símbolos”, e lá dentro em uma página tem a figura do casaco sem cabeça e a explicação de que esse símbolo é frequentemente usado como representação da perda do seu próprio eu. Lembrei de uma história também, de um mestre que sonhou que não tinha cabeça e a partir desse sonho nunca mais sonhou, nunca mais se iludiu, quer dizer, a partir do momento que viu a si mesmo sem cabeça, ele compreendeu que sua identidade era vazia. 

Espero que vocês tenham achado interessante esta abordagem. Levem o zazen bem a sério, a possibilidade do insight dentro do zazen é muito maior do que a gente imagina a primeira vista; é proposital a gente ficar com sono, cansado, com fome no sesshin. No mosteiro, como contei para vocês, fiquei 3 meses lá, perdi 16kg, estava sempre com fome, acordando de madrugada, sempre com fome, sempre com sono, não tinha soneca depois do meio dia, isso é camaradagem daqui (risos). E como sempre tinha trabalho, você está sempre cansado. (continua)

sexta-feira, 18 de março de 2016

A força da Linhagem

Monge Genshô: A cerimônia de Zuise que eu fiz agora, início de julho 2015, no Japão, significa ir até os túmulos de dois mestres da Linhagem, Keisan Jôkin Daishô, 57º Patriarca, e Eihei Dogen Daishô, 54º Patriarca, nos templos Eihei-ji e Sôji-ji. Você vai até lá e você só pode ir lá uma vez na vida. Então sobe a escadaria e vai lá estender seu zagu completamente, e faz prostrações para eles. Então, é a partir desse momento que você pode receber o título de Rikishô, professor internacional. Para tanto você tem que ir até lá e fazer isso.

Isso é profundamente simbólico. Então os rituais, os ritos são de um lado coisas que poderiam ser sem sentido, de outro são coisas que falam ao nosso inconsciente porque a linguagem do inconsciente é simbólica, nós sonhamos com símbolos, não com o nosso consciente. Vocês não podem dizer que os seus sonhos não têm significados, os sonhos têm grandes significados se vocês interpretam corretamente. Você sabe, ele significa isso, e através da prática do zazen você pode trazer para o consciente o inconsciente como eu falei recentemente.

quarta-feira, 16 de março de 2016

A importância dos meios hábeis

Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 5]
Monge Genshô: Por que existem os rituais? Por que existem as vestes? Por que existem todas essas coisas? São fenômenos culturais sim, no entanto eles são meios hábeis que permitem todas essas coisas, permitem as instituições, permitem uma espécie de poder porque nós temos uma atitude em relação a isso, somos nós que fazemos o rakusu, um objeto especial, porque nós costuramos longamente; cada vez que nós vamos costurar, vamos lá e fazemos três prostrações e pegamos o rakusu, acendemos o incenso e vamos costurar, e é complicado, dá muito trabalho. E por causa disso o rakusu torna-se um objeto especial, ele é um teste também de persistência. Muita gente começa a costurar o rakusu e não termina, mas sempre o motivo é mental, porque alguém que realmente já sabe fazer e resolve fazer o rakusu, poderia costurar em 2 dias. Normalmente a gente leva 2 a 3 meses costurando, e pode ser uma experiência muito interessante. O que quero dizer é que ele se torna sagrado porque você o torna, não porque ele é. Trata-se só de um pedaço de pano, assim como o manto de Buda, só um pedaço de pano. 

Os rituais não são nada mais que caminhar, oferecer incenso, etc., etc. Como é que a cerimônia da manhã pode ganhar significado? Se você pensar: “estou recitando os nomes de todos os patriarcas de Buda, um a um, não são esquecidos como meus bisavós, porque lembro o nome deles, Shakyamuni Butsu Daioshô, Makakashô Daioshô, Ananda Daioshô, Shônawashu Daioshô, Ubakikuta Daioshô, mais de 2 mil anos, nós lembramos os nomes, meus bisavós não lembro, meus antepassados do Dharma, aí sim”. Este é o significado. (Continua)

segunda-feira, 14 de março de 2016

Nunca percam o senso crítico


Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 4]
Buda não pode ajudar as pessoas, assim não tem sentido pedir coisas para Buda, nem para ninguém. O único jeito de mudar nossas vidas é mudando nossas mentes, isso que é a verdadeira mudança. É isso que é o budismo. Claro que não estamos dizendo que o apoio mútuo seja insignificante. Não é isso! A Sangha é um dos tesouros do budismo. No entanto, é importante perceber que as estátuas, os rituais, as roupas, as tradições são só meios hábeis... não sou nenhum tolo, eu sei que quando coloco a roupa de monge, embaixo da roupa aqui tem só um homem velho, não tem nada de especial, mas porque eu uso as roupas de monge, eu ganho poder. Esse poder, essa respeitabilidade que vem de todo trajeto das cerimônias, dos certificados, dos reconhecimentos, todo esse conjunto de coisas, acaba criando uma espécie de poder mágico que permite que você consiga fazer coisas que sem isso não conseguiria. Por isso, nas entrevistas, acontecem muitas vezes de as pessoas se emocionarem. O que eu tenho a dizer? Que eu sou como você, tenho os mesmos defeitos, os mesmos anseios, eu compreendo porque eu também vivi essas coisas, perdas, decepções, todas essas coisas. O que isso quer dizer? Que sou homem comum, todos os monges são homens comuns, todos os mestres são homens comuns. Meu mestre é um homem comum, mas ao mesmo tempo ele é profundamente incomum. É preciso tentar entender estes paradoxos. 

Não podemos nos iludir, como aconteceu com um homem que foi entrevistado pelo Jô Soares um tempo atrás ( se autointitulou um dos mais inteligentes e sábios do mundo). Na verdade ele era um louco, um psicopata, e enganou algumas pessoas. No programa seguinte foi um delegado para dizer que ele era um psicopata, um louco. E foi desmascarado em público, foi fácil. Mas às vezes não é tão simples assim, e loucos podem enganar povos inteiros e levar nações inteiras ao desastre. Nós temos muitos exemplos de loucos que fizeram coisas assim, porque as pessoas simplesmente querem acreditar. Então eu tento dizer para meus alunos que nunca percam seu senso crítico, não se enganem. E eu não quero enganar fingindo ser o que eu não sou. Então temos que entender que nós todos somos seres comuns. Por sua vez, seres comuns podem despertar, tem natureza búdica e se eles podem despertar, eles podem ser extraordinários. (Continua)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Só quem pode atender nossos pedidos somos nós mesmos

Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 3]
No cristianismo, Cristo não era representado no crucifixo no seu primeiro tempo; nas catacumbas romanas, o símbolo do Cristianismo era um peixe, e não alguém crucificado. E no início do budismo, nunca se representava Buda, ou você tinha uma árvore porque ele havia se iluminado embaixo de uma árvore uma ficus religiosa, ou ele era representado com as marcas de pegadas, como "passou por aqui". Assim pegava-se a placa de cerâmica e colocava-se  a impressão de um pé e se escrevia nele, e essa era a primeira representação de Buda, só marcas de pegadas. Lá pelo ano 308 a.C., Alexandre o Grande, filho de Felipe da Macedônia, invade o norte da Índia, na região do Afeganistão, que era budista, profundamente budista, e os gregos levam a sua cultura até lá e levam sua estatuária. E é a estatuária grega que origina as estátuas de Buda.

No início, Buda era apresentado com feições gregas, nariz grego e roupas gregas. Se vocês entrarem no Google, pesquisem lá “Buda de Gandhara”; nesse primeiro período destacado essa região Gandhara abrangia Afeganistão e parte do norte da Índia. Vocês vão ver Buda com bigode, barbas, nariz grego, roupas gregas, então o surgimento da estatuária no budismo é originário da interação com a cultura grega. Hoje nós temos estátuas de Buda e vamos lá e fazemos reverências para a estátua de Buda, mas para um budista realmente, se você reverenciar a estátua você é um herege, porque isso não tem nada a ver com o budismo. Nós reverenciamos a estátua, fazemos reverência para estátua de Buda porque ela representa um ideal, então é o ideal interno nosso, a nossa possibilidade de despertar, de sermos Budas. Essa possibilidade é que merece a nossa reverência, não a estátua, a estátua é de madeira, gesso, pedra, qualquer coisa assim, bronze, mas não é ela, a estátua um objeto sagrado, é diferente, nós que tornamos sagrado aquilo que reverenciamos, não é o contrário, não é ela que é sagrada, que tem poder milagroso ou qualquer coisa assim. Já contei para vocês a história da senhora que numa festa de Hanamatsuri - na qual se derrama chá doce sobre a estátua de Buda, para lembrar quando ele nasceu. A lenda diz que caiu uma chuva doce. Bobagem, não havia tanto açúcar assim (risos). Colocamos chá doce em cima da estátua de Buda, e a senhora chegou e perguntou: eu posso fazer um pedido? – Sim pode, senhora – eu disse. E ela perguntou: E ele atende? - Não senhora... só quem pode resolver nossos problemas somos nós mesmos...

 Só quem pode mudar nossas vidas, somos nós mesmos. Buda não pode mudar nossas vidas. Se ele pudesse, sendo um ser de compaixão, ninguém precisaria pedir nada, ele já providenciaria.(continua)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Rituais e interação cultural

Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 2]

Monge Genshô: O Budismo saiu da Índia, Bodidharma foi até a China, e a China é muito fria, e os monges começaram a usar roupa; então essa roupa preta usada pelos monges zen budistas é chinesa, essas longas mangas, vocês já devem ter visto nos filmes chineses – imperador usando, etc. -,  as longas mangas dos nobres. Elas os obrigam a andarem na posição certa, porque se eles deixarem caírem os braços, se esquecerem da posição de sashu, a manga cai e você não consegue pegar nada. Então, a roupa obriga você a determinada postura, ela é uma máquina de treinamento. Você vai pegar alguma coisa, tem que ajustar, senão derruba tudo, então você começa sem querer a fazer gestos de outra forma. Essa é a função do Koromo.

No Japão, quando se coloca um koromo também se veste um kimono por baixo. Embaixo de tudo tem uma camiseta, juban; juban vem do português, gibão, que era uma roupa que os soldados usavam. Então, do português, Jibão, do japonês, Kimono, do chinês, koromo, da Índia, kesa. Isso que deu na roupa do monge, então a gente vem para Goiás e fica pedindo ao Jisha para ligar o ar condicionado... Eu pedi para ligar o ar-condicionado porque tinha gente perdendo a atenção com insetos, tinha até um sapo no meio da sala, então tinha que fechar a janela.

Desta forma, os rituais foram construídos culturalmente ao longo do tempo, e essa conversa saiu da entrevista com um aluno agora, ele estava perguntando sobre isso e achei que era bastante interessante contar isso para todos. Os rituais todos foram construídos porque houve interação cultural.(continua)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Rituais ajudam a igualar e aproximar as pessoas


Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 1]
Eu prometi que iria falar um pouco sobre rituais, sutras e essas coisas assim. É bem oportuno, pois nós estamos aqui numa capela e tem símbolos religiosos e arquitetura bonita. Esta ideia de vidros grandes e a paisagem do lado de fora, foi usada também no templo, mosteiro de Morro da Vargem, e é uma arquitetura maravilhosa, pois traz o externo para dentro do interno. 

Mas nós fazemos cerimônias, rituais. E por que nós temos rituais? Se nós olharmos na história do budismo, bem no seu início, nós vamos ver que ele era muito pobre em rituais, talvez o primeiro ritual que nós vemos na história do budismo é quando Buda sai de casa e raspa a cabeça. Ele corta os cabelos, ele rompe com sua condição de casta, de membro da casta Ksatriya, dos guerreiros e governantes, porque as castas também se distinguiam na Índia pelo tipo de cabelo que usavam. E o Buda, depois de sua iluminação, vai até a beira do rio e pega  retalhos, de vestes sujas, meio carbonizados, e ele recorta seus pedaços ainda utilizáveis e costura esses pedaços de tecidos jogados no lixo, tecido estragado. Ele lava cuidadosamente, costura esses retalhos, esses pedaços, tinge com açafrão e faz seu manto. Por isso que o manto do mestre Zen é dessa cor de terra, de açafrão, e ele é feito de pequenos retalhos costurados.  

O Rakusu é a miniatura do manto. Vocês me viram usando um manto grande, na cerimônia... Na realidade, o manto é exatamente isso, retalhos costurados, e o manto mais considerado é aquele feito com tecido rejeitado, sem valor comercial. A partir daí, então se criou o manto budista e o manto do monge. Quando o monge era ordenado raspava a cabeça e vestia um manto amarelo, a partir do tempo chegamos à condição atual. Não é mais assim, o monge é ordenado, veste uma roupa preta, e fica vestindo uma roupa preta todo tempo que ele é noviço, aprendiz, monge aprendiz em treinamento, ele não pode usar essa cor. E essa cor ficou só para os completamente formados, que tenham recebido a transmissão e tenha todos os requisitos de treinamento. (Continua)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Kaitin, a meditação antes de dormir


Aluno: Gostaria de saber sobre a meditação dormindo.

Monge Genshô:
Chama-se kaitin. Consiste em deitar de lado, sobre o lado direito, na posição em que Buda morreu, ficar com os olhos semiabertos e fazer zazen até dormir. Você tenta ficar apenas ouvindo os sons, mantendo o corpo quieto. Assim você adormece praticando e isso vai acabar influenciando nos seus sonhos. Se vocês trabalharem bem as suas mentes, seus sonhos mudarão. Eu às vezes tenho sonhos tão bons que tenho pena de ter acordado. Como eu faço sesshin de 15 em 15 dias, falando sempre sobre o Dharma, minha cabeça fica tão cheia disso que eu deito e sonho com o Dharma, que estou fazendo palestras e ajudando pessoas. Você deve praticar sempre que puder. (continua)

quarta-feira, 2 de março de 2016

Liberdade é essencial para o progresso espiritual

Aluno: Quando o discernimento se torna um julgamento?

Monge Genshô:
Esse é um problema que às vezes acontece com o budismo. Nós dizemos: sente, faça zazen e não julgue. As pessoas começam a dizer: “fulano roubou a estátua de Buda e levou para casa” e o outro diz: “não julgue”. Não é assim. Ele é ladrão mesmo. Nós temos que pedir a estátua de volta, temos que agir contra o mal. Nós passamos o nosso tempo no mundo tendo que fazer julgamentos, julgamos se um programa de televisão é bom ou ruim para assistir e assim por diante.

Na minha casa tenho regras e uma delas é que lá não se compra nada de carne, mas temos um cachorro e sempre que eu compro a ração eu penso sobre como ela é feita, faço o julgamento, mas compro. Outro dia cheguei e um filho meu tinha passado de visita, comprou mortadela e pôs dentro da geladeira. Quando abri e vi aquilo dei para o cachorro. Quando ele chegou veio procurar a carne e expliquei que dei para o ser não consciente da casa. Temos outras regras lá em casa também, uma delas é não dizer palavrões. Já me perguntaram o que eu digo quando martelo o dedo. Digo: “burro”, porque é isso que tenho que ser para fazer isso, claramente eu não estava prestando atenção no que estava fazendo. Então você vai criando determinados comportamentos e regras e assim você vai mudando. Existem comportamentos que o próprio ambiente diz que estão errados, assim como nós estamos aqui no sesshin e ninguém fica conversando. O mundo é mutável, mas eu não posso impor as minhas regras na casa do vizinho, só posso fazer isso dentro de um ambiente limitado e com pessoas que concordem comigo. Mesmo com os meus filhos, eu não posso impedi-los de fazerem o que querem. As decisões são deles e as consequências também. A liberdade é essencial para podermos ter progresso espiritual. Julgar faz parte do caminho da virtude, faz parte de saber o que é certo e errado, é impossível agir certo o tempo todo, nós só tentamos.

Tive um mestre nos Estados Unidos que me contou que um dia lhe perguntaram: “eu estou lendo aqui como devo praticar, mas não consigo me reconhecer no texto de Dogen. O que o senhor tem a dizer sobre isso?”. E ele respondeu: “nós lemos isso todos os dias e todos os dias fazemos coisas erradas, nós somos seres humanos, nós não conseguimos, podemos apenas tentar”. Todos os nossos votos são impossíveis. Fazemos votos de não matar, mas quantos insetos matamos hoje, pisando? Posso tentar evitar, mas é impossível. Temos sistema imunológico, se eu coloco fungicida na unha eu mato o fungo. Isso faz parte do conjunto da vida, mas há outros pensamentos inclusos nisso tudo, temos a prática, queremos ampliar a nossa mente e queremos não nos manifestar nesse tipo de mundo e sim num mundo melhor. Para isso temos que mudar o nosso carma. (continua)