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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre Vida e Morte (continuação)

(...) Mas nossas vidas têm significado, porque se você jogar uma pedra no mar, a configuração das ondas é alterada por toda a eternidade. Então, de um lado somos insignificantes, e de outro somos incrivelmente poderosos. E nossas vidas têm significado cármico, porque mudam o universo. E é isso que temos que pensar: pertencemos ao universo, temos a capacidade de mudar o universo. 

Então vale a pena viver e fazer coisas significativas. E no mínimo vale a pena viver essa vida no que ela tem de maravilhoso. Por isso no budismo dizemos: enjoy your life! Aproveite plenamente sua vida. Mas, para aproveitar plenamente a sua vida, você não pode ficar se preocupando com bobagem. Tem que ver a vida como ela realmente é, com o fluxo passando, e nós como fluxo dentro do próprio universo. E se isso é assim, pode sumir essa Terra, mas o universo continua, e nós continuamos, como ondas nesse universo. 

Eus são enganos, não existem, são só sensações momentâneas. Eu acredito em mim agora, mas não me lembro de um passado anterior a mim nem ninguém lembra. Por isso tem sentido a prática espiritual, porque em geral as pessoas estão perdidas e infelizes. Porque se preocupam com tolices e não aproveitam a vida bem, tal como ela é: ler um bom livro, comer um prato delicioso, ter um amor, são coisas maravilhosas.

Por outro lado, no momento em que você  causa sofrimento aos outros, aí sim não valeu a pena essa vida. É uma vida tola, um mau carma. E tudo tem causa e efeito - portanto as coisas sempre retornam, é esse o sentido de tudo. 

Existe, portanto, sentido e valor na vida. Não é um nada, e também não somos Eus eternos. O budismo nega as duas coisas: o eternalismo, a permanência das coisas, com almas eternas ou deuses eternos, e nega também o niilismo, ou seja, nada tem sentido e não tem valor fazer coisa alguma.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sobre Vida e Morte (parte 1)




Na reunião passada nós falamos nisso, que as vidas terminam, que tudo termina e tudo cessa. E que não existe um futuro nem para o sistema solar, nem para esse mundo. A longo prazo, o sol vai se tornar num gigante vermelho e vai torrar a Terra. Talvez muito antes disso, nós destruamos a Terra ou a nossa civilização, ou a nossa espécie sofra uma catástrofe gigantesca, assim como os dinossauros sumiram, assim como tantas civilizações na história da humanidade já desapareceram. Várias civilizações das Américas foram assim. E mesmo se da nossa civilização não sobrar nada, essa não é uma visão niilista, porque se nós olharmos mais profundamente do ponto de vista budista, nós pertencemos a um vasto universo, nós somos uma gota num enorme oceano. Não existe como sair daqui. Então não existe na verdade nascimento e morte: eles parecem eventos, mas são manifestações cármicas. 

Se vocês procurarem algum sentido profundo para suas vidas, verão que somos bolhas - surgimos e desaparecemos como relâmpagos, eventos momentâneos dos quais ninguém se lembra depois. Exatamente como vocês, que não se lembram dos seus bisavós (ninguém sabe o nome dos seus oito bisavôs. Eu pergunto isso há centenas de palestras e nunca ninguém falou que sabe de cor o nome dos seus oito bisavós), ninguém vai se lembrar de vocês também daqui a três gerações. Seus corpos estarão apodrecidos ou transformados em cinzas. Pronto. (continua...)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Esforço ou Sofrimento? (continuação)



Naquele momento parece sofrimento, depois não parece mais. Como é o caso do Itzhak Perlman que eu narrei [violinista que se aprimorou na música devido à paralisia infantil]. O sofrimento é o caminho mais curto para as realizações espirituais, que é o que nos interessa aqui. 

A definição da palavra sofrimento já não importa muito, porque o que Buda falou é que a vida é insatisfatória por natureza, e ela é insatisfatória porque tem altos e baixo por natureza: a vida é boa hoje e ruim amanhã. Tem sempre uma consequência. A vida se constitui dessa forma. Mas isso não quer dizer que você vai viver só de evitar o sofrimento, procurando só o prazer, ou que você vai viver uma vida evitando todo prazer e procurando só o ascetismo, porque essa é a solução de Buda. 

Um instrumento musical com uma corda muito apertada arrebenta, e uma corda muito frouxa não toca. Então, a maneira certa de se viver é moderadamente, nem excesso de prazeres, nem excesso de sofrimento, nem se martirizar, nem se entregar somente a prazeres. Tem que haver um equilíbrio, uma dose. Tenho certeza que teus filhos têm partes muito boas na vida deles. E provavelmente grande parte disso é produzido pela própria mãe. Eu já trabalhei com crianças em orfanatos, e eu descobri que muitas dessas crianças que estavam no orfanato da FEBEM, em Porto alegre, eram crianças que fugiam de casa: eles não queriam voltar para casa porque a casa deles era horrível. Vocês não podem imaginar as coisas que a gente ouve das crianças, com pais e mães torturadores e coisas congêneres. Aí sim você sabe o que é dor e sofrimento.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Esforço ou Sofrimento? (parte 1)





 Aluno: Tem uma diferença entre causar sofrimento e educar, não é? Pois educar, ser mãe, ou até mesmo em um ambiente de trabalho que você precisa dar alguns comandos...

Monge Genshô: É que naquele momento parece sofrimento, não é? Meu pai saía de casa e me colocava de castigo, eu não me lembro mais porque. “Quando eu voltar eu quero todos os verbos irregulares copiados”, eu tinha que fazer e não podia brincar, ficava copiando em folhas de papel: "eu hei de fazer, tu hás de fazer…" Bom. Vantagem é que eu sei bem os verbos, e hoje eu acho ótimo. Quando estou escrevendo eu acho ótimo, mas naquela hora parecia sofrimento. (continua...)