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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Originação Dependente: Nem Interno, Nem Externo




"Pretendemos começar a desmontar duas ideias extremas que o budismo combate: a ideia de eternalismo ou substancialismo e a ideia de niilismo.
O budismo acha um meio caminho entre esses extremos, e declara uma natureza inconcebível da realidade. Assim, para finalmente caracterizar a natureza do Buda, este último viés tem sido particularmente desenvolvido no contexto Yogacara, da descrição das naturezas dos corpos de Buda: Nirmanakaya (Corpo Manifesto), Sambhogakaya (Corpo Natural) e Dharmakaya (Corpo de Ensinamento e sua Natureza Transcedental).
Então, não há percepção nem do que é interno, nem do que é externo, nem ambos. Não é uma massa de percepção, nem percebendo, nem não percebendo, não visto, além da materialidade fenomênica, não compreensível, sem marcas características, inconcebível, indescritível, aquele cuja essência é a consciência de si, o final do mundo sensível, o tranquilo, o auspicioso, o sem segundo: aquele é o eu e é aquele que deve ser percebido." 
Como veremos, esses versos debruçam-se sobre temas caros a Nagarjuna. O problema da origem dos seres, por exemplo: no famoso tetralema negativo da originação dos seres, uma coisa não surge nem de si, nem de outro, nem de si nem de outro, ou de si e de outro. Nagarjuna exaure as possibilidades de explicação racional acerca das possíveis origens dos seres e dos fenômenos, tanto as substancialistas, quanto as niilistas.
A alternativa endossada por Nagarjuna é a visão que remonta a descoberta do próprio Buda: a originação interdepenente. E é esse ponto no qual queremos nos aprofundar. 




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Originação Dependente: Nagarjuna



A identidade própria de cada um é construída nesta vida. Cada um de nós constrói a sua identidade através da operação de nossas mentes. Isso explica por que perdemos as nossas identidades quando temos uma doença séria como um Alzheimer, um AVC ou uma amnésia: quando perdemos nossa memória, perdemos a noção de nós mesmos com o ser. 
Bem estabelecidos esses dois pontos, admitimos que, em princípio, o budismo está analisando que não existe um eu dentro de coisa alguma, nenhum ser tem um eu, individual, próprio, nem nenhuma coisa tem um eu individual.
Nagarjuna é o grande filósofo do budismo do século II d.C., e que se aprofunda e desenvolve mais este assunto. Ele é importantíssimo para nós, sendo chamado em alguns textos de o segundo Buda. 
Filosoficamente ele fez um trabalho imenso: é um sutil metafísico que desce sem piedade sua navalha sobre a maior parte dos conceitos mais queridos e difundidos em quaisquer ambientes filosóficos. Nenhum outro pensador, exceto talvez Platão, tenha sido tão incongruentemente rotulado. Foi rotulado de tudo: de realista, de empirista, de idealista, de crítico, de desconstrutivista, de “wittgensteiniano”, de filósofo da linguagem, de epistemólogo, de cético, de niilista, para ficar só entre os adjetivos mais disseminados.