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sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Constante Cortar de Ilusões




Há um conto maravilhoso, que recomendo a todos vocês, de Eça de Queiroz, que se chama O Mandarim. Ele recebe a visita de um homem (ele é um amanuense, um funcionariozinho que vive em uma espécie de república, sem dinheiro para casar nem nada) que diz “se você tocar esta campainha morrerá um mandarim na China, e ele é muito muito rico e você vai receber todo o dinheiro dele; a única coisa que você precisa fazer é tocar a campainha.”. 

Então o nosso personagem, que era magrinho, pobre, toca a campainha. Alguns dias depois ele recebe a visita de um funcionário de um banco dizendo que ele recebeu uma fortuna inimaginável. Que ele é herdeiro de um potentado chinês. E depositam no banco para ele aquela fortuna imensa que ele não tem nem como pensar em gastar. Ele começa a fazer coisas, e o conto mostra todas as coisas que o dinheiro dá, as mulheres lindas que ele conquista e o palacete que ele constrói, etc. 

Logo depois, o conto narra  a angústia que ele sente porque não é feliz, porque matou aquele homem lá na China, e a família do falecido com dificuldades. Ele vai até a China tentar consertar o que fez, tentar gastar o dinheiro dele lá, mas vai dando tudo errado. Até que, no fim, ele quer devolver o dinheiro, quer voltar a ser quem era. E encontra na rua o personagem que lhe permitiu tocar a campainha, e o personagem diz que é impossível retroceder. No final do conto ele interroga: o que você (leitor) faria se pudesse tocar uma campainha e receber 20 mega-senas pela morte de um mandarim lá na China? Ele diz que tem certeza que vocês tocariam: “ó meus amigos e irmãos, vocês são como eu”.

Então a renúncia de Buda tem todo o sentido, a renúncia simbólica, cortar o cabelo para cortar todas as ilusões, raspar toda a ignorância que está sempre nascendo. O monge faz isso, toda semana, vai lá e raspa a cabeça. Ele raspa a cabeça mas, no dia seguinte, todas essas ignorâncias e paixões estão brotando de novo.