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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As Certezas e Seus Perigos




Aluno: Eu tenho uma dúvida sobre Fala Correta. Como eu vou saber se uma fala, mesmo que tenha sido com uma boa intenção, não pode gerar uma potencial desarmonia? E também o não falar pode ser que gere isso...




Monge: Para julgar uma situação, você tem vários níveis. O primeiro nível é a intenção. Mas existe um nível que é: “qual é a consequência? Qual foi o efeito?”. Mesmo que a sua intenção seja boa, se você fala e provoca um mau efeito, foi errado. Porque a consequência do que você fez não foi boa, então não foi adequado. Assim, todo ato tem vários níveis de julgamento. A intenção é muito bonita, mas tem aquele ditado bem conhecido: “de boas intenções o inferno está cheio”. Nós vimos isso muito no século XX. Uma vez eu escrevi um artigo que dizia que os homens mais perigosos do mundo são os que estão certos do que é bom para os outros. Esses homens são muito perigosos. Se você ler Mein Kampf, Adolf Hitler estava cheio de intenções do que seria maravilhoso para o seu povo. E para isso ele achou  culpados e acabou causando um enorme desastre para sua nação, que durante um certo período de sucesso econômico o idolatrou. Se nós parássemos a história em 1938 e não tivesse havido a segunda guerra mundial, o holocausto ou perseguições, se tivesse havido só o sucesso econômico, Hitler teria estátuas por toda a Alemanha. Então, a sua convicção, a sua certeza do que era certo foi um grande problema. 

Com Stalin foi a mesma coisa, estava muito certo do que era bom para os seus, e se era bom matar milhões para realizar o ideal socialista, então vamos matar milhões de pessoas para realizar a justiça social. Pol Pot, no Camboja, Mao Tse Tung, na China, etc. O próprio império japonês queria fazer o círculo de co-prosperidade asiática, e, assim, com seus exércitos invadiu a Manchúria, a Coréia, as Filipinas, causando uma mortandade tremenda para outros povos, crueldades, e também desastre nacional. Os EUA entenderam que deveriam forçar a democracia, seu ideal, aos povos do Oriente Médio através da guerra, achavam que eram certas suas ideias e seu desejo de domínio geopolítico/econômico. O resultado é mortandade e guerras civis. 

Então, na verdade, nós precisamos de pessoas que tenham dúvidas sobre si mesmas, e que estejam dispostas a trocar de opinião, a se adaptar às circunstâncias. Nós não precisamos de pessoas com grandes certezas do que é bom e que estão dispostas a executar isso com toda força, todo ódio, toda violência, porque isso sempre redundou em paredões, guerras, crueldades, mortes, enormes sofrimentos, ditaduras. É interessante que nós vejamos que na história não temos, em todos os últimos dois séculos, uma guerra entre duas democracias. Sempre é um lado certo com um governo forte que faz isso, que estão certos, têm certeza. O grande problema no nosso país são essas certezas. Nós temos lados opostos, ambos extremamente convictos do seu pensamento e dispostos a qualquer coisa para que a sua certeza se imponha. E não foi isso que Buda ensinou. Buda diz que o caminho da Sabedoria é madhyamika, caminho da moderação, o caminho do meio. Não um caminho dos extremos. Isto aqui não é uma pregação política, ok?

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]